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A aposentadoria do Jumbo 747 encerra a era do glamour nos céus

O fim do Boeing 747 põe fim a um período de ouro do setor, quando luxo e conforto eram prioridades para as companhias aéreas

Por Amauri Segalla 7 ago 2020, 06h00 | Atualizado em 5 jun 2026, 12h12
A aposentadoria do Jumbo 747 encerra a era do glamour nos céus Priorizar nos meus resultados Google

Houve uma época em que viajar de avião era uma experiência glamorosa. Elegantes comissárias de bordo serviam caviar na primeira classe e champanhe à vontade na econômica. Distribuídos em poltronas espaçosas para todas as classes de bilhetes, passageiros vestiam terno e passageiras usavam salto alto. Os voos pareciam uma grande festa em céu de brigadeiro. Nenhum outro modelo foi tão marcante para a era de ouro da aviação quanto o Boeing 747. Primeira aeronave a jato do mundo com dois andares e dois corredores — era tão grande que recebeu o apelido de Jumbo, uma referência ao famoso elefante que inspirou a Disney —, ela oferecia todos esses mimos, mas suas mordomais iam além. Uma escada em espiral levava os viajantes para o luxuoso lounge no andar superior, onde era possível deleitar-se com concertos de renomados pianistas, jogar carteado ou simplesmente acomodar-se nos sofás, enquanto o avião cruzava oceanos e continentes.

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NO BRASIL - Varig: a empresa brasileira operou o modelo de 1981 a 1999 – (Mika B. Virolainen/.)

Nos últimos 51 anos, o 747 fez do ato de voar uma aventura prazerosa, reduziu as distâncias entre os países e reinou absoluto como o jato mais importante da história da aviação. Agora isso ficará no passado. Há alguns dias, a Boeing anunciou o fim da fabricação do Jumbo. “O mercado simplesmente não suportará níveis maiores de produção neste momento, e nós não temos o que fazer a não ser nos adaptar à nova realidade”, disse o presidente da empresa, Dave Calhoun.

O Jumbo foi vítima daquilo que o consagrou: o tamanho. De 1969, quando foi lançado, até 2007, ano em que foi superado pelo Airbus A380, o 747 ostentou o título de maior aeronave do mundo, com capacidade para transportar até 500 passageiros, a depender da configuração. Com o desenvolvimento tecnológico, a vantagem virou um problema. Seus quatro motores têm sede insaciável de combustível, enquanto concorrentes menores e mais ágeis podem superar as mesmas distâncias consumindo 20% menos querosene. Outro obstáculo associado à fuselagem colossal diz respeito às restrições para pousos e decolagens. A crescente urbanização fez com que surgissem cidades ricas e abriu novos mercados, mas o 747 não consegue chegar até eles porque os aeroportos não possuem pistas de dimensões suficientes para recebê-lo. Enquanto isso, seus rivais são capazes de levar o mesmo número de passageiros com a mesma autonomia de voo, além de desbravar qualquer tipo de pista. Com o acirramento da competição, o preço das passagens caiu, e ninguém mais parecia ligar para o charme dos velhos tempos. Nesse cenário, era inegável que o Jumbo estava irremediavelmente ficando para trás.

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A crise do coronavírus acelerou o declínio da aeronave mais icônica da aviação. Segundo dados da consultoria Cirium, antes da pandemia havia 184 Boeing 747 em operação. Com o cancelamento de voos, apenas 23 permaneceram no ar. A tempestade perfeita levou muitas companhias aéreas a anunciar a aposentadoria de­fini­tiva de suas frotas. Há algumas sema­nas, a inglesa British Airways infor­mou que não voará mais com o modelo, encerrando assim uma parceria de cinco décadas. A australiana Qantas antecipou o fim dos 747. A despedida do último avião da série estava prevista para dezembro, mas o voo derradeiro foi realizado em 22 de julho, sob forte emoção. “É difícil dimensionar o impacto que o 747 teve na história da aviação”, afirmou o presidente da Qantas, Alan Joyce. No Brasil, a Varig foi a única brasileira a voar com o modelo, de 1981 a 1999. Com ele, a empresa consolidou sua operação internacional e se tornou uma das principais parceiras da Boeing no mundo. Segundo a fabricante americana, a última encomenda do 747 será entregue em 2023, para um cliente especial: a Força Aérea dos Estados Unidos, que provavelmente usará a aeronave para viagens do presidente. Até o final, portanto, o 747 manterá a altivez.

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Publicado em VEJA de 12 de agosto de 2020, edição nº 2699

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