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Na trilha do mito: livro reconstrói as origens e as transformações do labirinto

Com 4 000 anos de história, trata-se de uma das criações arquitetônicas mais fascinantes da humanidade

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 8 mar 2026, 08h00 • Atualizado em 8 mar 2026, 14h00
  • Por trás de uma das maiores lendas fundadoras do imaginário ocidental está um nome obscuro para grande parte das pessoas que travaram contato com o mito do Minotauro, a besta de corpo humano e cabeça de touro que assombrava a ilha de Creta. Não se trata do famigerado monstro, fruto de um adultério animalesco, nem do rei que ordenou seu confinamento, Minos, tampouco do herói que viria a destruir a fera que se banqueteava de donzelas e rapazes enviados da Grécia, Teseu, o mesmo guerreiro que conseguiu vencer os corredores dessa espécie de prisão graças ao fio da princesa Ariadne. Pois o labirinto, o primeiro projeto arquitetônico de envergadura da humanidade, é obra de Dédalo, o engenhoso homem incumbido de encastelar a fera e aquele que seria considerado o arquiteto primordial de nossa civilização. E é nessa história de ao menos 4 000 anos que deitam raízes não só a figura do dédalo — termo que virou sinônimo de labirinto —, mas também as origens mitológicas da arte de construir. É ponto de partida inescapável para uma obra de fôlego sobre uma das concepções mais instigantes da mente e das mãos dos homens, como é O Livro dos Labirintos, de Francesco Perrotta-­Bosch.

    A ARTE DE SE PERDER - Exemplar de Villa Barbarigo, na Itália: atração turística
    A ARTE DE SE PERDER - Exemplar de Villa Barbarigo, na Itália: atração turística (Filippo/Unsplash/.)

    Erguido com farta pesquisa e pavimentado por referências que vão da arqueologia à literatura, o trabalho do escritor e arquiteto ítalo-brasileiro, recém-­publicado pela Editora WMF Martins Fontes, mostra como uma ideia, transposta para o papel ou o concreto, não só se provou uma longeva metáfora para a desafiadora existência como abriu caminho a uma sucessão de realizações que acompanham as aspirações e angústias de cada época. “O labirinto é a estrutura que me permitiu estudar a gênese e a essência da arquitetura”, diz Perrotta-­Bosch, cujo livro nasceu de um extenso doutorado e de viagens pelo mundo, com direito a perambulações por autênticos dédalos na Itália.

    O percurso parte do labirinto de Creta, que até hoje suscita discussões entre os pesquisadores em relação à sua real existência. Fábula ou não, uma das hipóteses para seu surgimento lendário se assenta na visão à distância que os atenienses tinham quando se aproximavam pelo mar dos meandros das cidades de Creta, o berço da civilização grega, em um período de rivalidade entre esses povos. O fato é que o mito prosperou, a ponto de se tornar efígie das moedas correntes na ilha. De lá, ganhou o mundo e novos contornos à medida que outras civilizações erigiam seus próprios labirintos. Essa epopeia, claro, não é uma via de mão única. Há quem diga que, na verdade, o primeiro labirinto tem matriz egípcia, enquanto se postula que, se os primeiros dédalos ocidentais possuíam rotas lineares, ainda que difíceis de concluir, foi por influências asiáticas que despontaram as veredas que se bifurcam — característica que fascinaria artistas e escritores como o argentino Jorge Luis Borges, para quem o tempo e o universo dos livros tinham um quê de labiríntico.

    BERÇO - Moedas cunhadas em Creta de 500 a.C. a 67 a.C.: as representações mais antigas da construção
    BERÇO – Moedas cunhadas em Creta de 500 a.C. a 67 a.C.: as representações mais antigas da construção (imagestock/Getty Images)
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    Na levada das eras, a estrutura foi gravada em objetos e adornou construções e palacetes romanos até que, na Idade Média, foi incorporada às igrejas. No piso de catedrais como a de Chartres, na França, foram desenhados labirintos que, na atmosfera católica, serviam como trajeto de penitência simbólica ou mesmo como um simulacro das vias tortuosas das Cruzadas para os cristãos que não poderiam enfrentar a viagem e a luta contra os infiéis. E é assim que a criação chega ao Renascimento, preservando seu ar sagrado e de estrada para se “libertar das agruras terrenas”. A partir do século XV, o labirinto vai povoar tratados, pinturas, obras literárias… Até que, da planta para o mundo, vai se materializar de modo frutífero nos jardins das propriedades da nobreza europeia. É aí, entre sebes e arbustos, que a edificação se faz palco de aventuras amorosas.

    Paradoxo notável é que, no berço da arquitetura, essa arte de botar ordem nas linhas e curvas da natureza, está uma concepção que, nas palavras de Perrotta-Bosch, gera a “experiência da desorientação”. O autor o exprime com a vivência de quem caminhou e se perdeu em meio a labirintos como o da Villa Barbarigo, em Valsanzibio, no Vêneto italiano. Objeto central de estudo da sua tese de doutorado, a construção de cercas vivas era datada do século XVII, mas o autor descobriu que, na realidade, foi concluída na segunda metade do século XVIII, desfazendo um equívoco armado no labirinto do tempo.

    LINHAS DE CONTROLE - Aeroportos no século XXI: versão moderna da estrutura
    LINHAS DE CONTROLE - Aeroportos no século XXI: versão moderna da estrutura (David Morris/Bloomberg/Getty Images)
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    Segundo Perrotta-­Bosch, o histórico desse tipo de construção pode ser resumido da seguinte forma: “O dédalo nasceu como fábula pagã; dessa narrativa oral converteu-se em desenho na Antiguidade; adquiriu no Medievo uma carga penitencial católica; depois se metamorfoseou em verdes estruturas para acolher paixões e amores proibidos; até, na contemporaneidade, ser absorvido pelo consumo e pelo controle”. Pelo acervo de mitos, textos e imagens, o livro do pesquisador nos convida a uma imersão em um dos maiores símbolos da humanidade. Ao final, se é que há final, encontramos sua nova encarnação no século XXI no zigue-zague atordoante de shoppings e aeroportos, numa fina ironia histórica que nos remete de novo a Dédalo, ele mesmo aprisionado em seu projeto, do qual escaparia criando asas, o embrião dos aviões nos quais decolamos hoje após percorrer um labirinto de filas, guichês e destinos.

    Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985

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