Marco Aurélio é pop! O segredo da atualidade do imperador-filósofo
Por meio de seu diário que resistiu aos séculos, ele esboçou uma arte de viver particularmente bem-vinda aos nossos tempos
Ele tem perfis nas redes sociais — uma conta no Instagram ostenta quase 200 000 seguidores — e está na lista dos autores mais vendidos da Amazon. Com um detalhe peculiar: nasceu há mais de 1 900 anos. Seu nome, entronizado à frente do Império Romano, é Marco Aurélio Antonino (121-180 d.C.), e, séculos depois de deixar suas Meditações, escritas nas noites de acampamento militar, poucos pensadores conseguiram alcançar uma aura tão pop quanto ele. De fato, suas ideias são atemporais — e parecem cair como uma luva diante dos dilemas da nossa era. Um dos luminares do estoicismo, escola de berço greco-romano que compartilhou ao lado de nomes como Sêneca, o governante enfrentou guerras, pestes, traições e a perda de mais de um filho, resistindo com os mantras e as máximas que redigiu em busca de uma arte de viver bem. Trata-se de um filósofo pé no chão, que, em última instância, construiu uma bússola para alcançar uma existência mais resiliente e feliz — demanda ancestral que transborda certa urgência no século XXI.
As lições do imperador para estes tempos tão acelerados e digitais norteiam o livro Marco Aurélio e o Estoicismo (Editora Objetiva), do filósofo e sociólogo francês Frédéric Lenoir. Ao entrelaçar a vida e a obra do famoso líder romano, o professor desnuda a figura histórica e expõe seu legado eternizado pelo diário íntimo que deixou sem pretensões de publicação — e ficou perdido durante a Idade Média até ser redescoberto no Renascimento. A chama dos pensamentos de Marco Aurélio não esmoreceu. Pelo contrário: é preciso alimentá-la para não nos perdermos em meio às crises de foro íntimo e público da atualidade. “A ética estoica está nos antípodas do individualismo contemporâneo”, escreve Lenoir. “Se o coletivo deve favorecer a felicidade individual, esta deve, em contrapartida, se inscrever num coletivo que ela deve servir.” Ou, para passar a palavra ao imperador: “Para o que devemos nos aplicar intensamente? É o seguinte: o pensamento justo, a ação comunitária e a razão, de modo a jamais ser enganado e a estar gentilmente disposto a acolher tudo que ocorre como necessário”. Uma síntese da filosofia estoica.
De família aristocrática, Marco Aurélio foi adotado e educado pelo imperador Antonino, que já via no jovem a figura que o sucederia. A descoberta do estoicismo mudaria sua vida e conduta, embora algumas contradições hoje possam ser detectadas entre teoria e prática. Ainda que a corrente filosófica defenda igualdade entre as pessoas, Marco Aurélio perseguiu cristãos e moveu batalhas para destruir inimigos e conquistar territórios. Se por um lado era um romano à frente de seu tempo, não negligenciou a cultura e a tradição do maior império ocidental. “Ele foi mais um reformador que um revolucionário”, afirma Lenoir. Sua maior influência intelectual vem de um ex-escravo contemporâneo de Jesus Cristo, Epicteto, mestre estoico cujas aulas foram transmitidas por seus discípulos à posteridade.
Marco Aurélio acreditava fortemente na ideia de uma razão divina, conectada à razão de cada ser humano, a guiar o mundo e o destino de cada um — daí não fazer sentido brigar contra os infortúnios da vida. Mas seu estoicismo vai muito além de um primado de aceitação e firmeza, a caricatura que passou a revestir o adjetivo “estoico”. Ele se baseia, na verdade, em três dimensões interligadas. A primeira é física: vivemos em um universo insondável, que se renova ciclicamente e é equilibrado a seu modo, ainda que os dissabores da vida sugiram o contrário. Portanto, devemos alinhar nossos desejos ao desejo maior dessa força que rege tudo, pois nadar contra a corrente é se afogar na infelicidade. A segunda dimensão é lógica: o mundo não é bom ou mau, tudo depende de nossos julgamentos a respeito. E a terceira é ética: “Os humanos existem em razão uns dos outros”, ensina Marco Aurélio. Precisamos erigir, assim, uma cidadela harmoniosa — dentro e fora de nós. “Não importa que o destino tenha feito o indivíduo nascer rico ou pobre, criado ou imperador: o que conta é desempenhar bem nosso papel, comportando-nos com respeito em relação aos outros viventes e agindo segundo a justiça”, resume Lenoir.
O imperador filósofo, encarnado no cinema com ares de sábio por Richard Harris no clássico Gladiador (2000), esboçou suas Meditações como um diálogo para aperfeiçoar e consolar a si mesmo, uma espécie de “estojo de primeiros socorros para a alma”. Se por um lado não forjou e aprofundou conceitos — motivo pelo qual há quem questione sua posição de filósofo —, por outro compôs um manual de conduta. Um manual que lhe permitisse ser um bom governante e atender aos interesses de Roma e de seus cidadãos. Não operou milagres, claro, e seu próprio filho, Cômodo (o intragável Joaquin Phoenix do filme), não seria um modelo de virtude. Mas agora suas máximas correm pelas redes sociais, quem sabe um efêmero antídoto contra os males que elas mesmas propagam. “Sua ideia mais importante é que somos uma grande fraternidade, e devemos alimentar em nós esse pensamento para que possamos agir visando ao bem comum, seja o da comunidade imediata, seja o do cosmos”, diz Aldo Dinucci, responsável pela última tradução nacional do diário de Marco Aurélio, publicado pela Penguin-Companhia. Eis uma lição milenar que não podemos deixar de cultivar, sob pena de arruinarmos o planeta e naufragarmos como humanidade.
Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982





