Carta ao Leitor: O precipício da Venezuela
Seguir a movimentação cotidiana ao lado dos cidadãos é recurso jornalístico de imensa relevância, e VEJA se orgulha de ter estado sempre no olho do furacão
A Venezuela, que durante muito tempo era tratada com desdém e irrelevância, apesar de banhada por um manancial de petróleo, ganhou especial relevo a partir de fevereiro de 1999, com a posse, na Presidência, de Hugo Chávez, que ocuparia o Palácio de Miraflores, em Caracas, até sua morte, em 2013. Aquele período deu início à chamada Revolução Bolivariana, ou bolivarianismo — de tom estatizante, de esquerda, com evidente desprezo pelo mercado e ênfase em programas sociais de cunho assistencialista. Funcionou durante algum tempo, com redução da desigualdade — mas resultou em tragédia anunciada, especialmente depois da ascensão ao poder do fantoche de Chávez, Nicolás Maduro.
Desde 2014, segundo dados da Agência da ONU para os Refugiados, ao menos 7,7 milhões de venezuelanos partiram para a diáspora, em busca de dignidade, emprego e comida. No mês passado, a inflação chegou a 270%, a maior do mundo — e a expectativa para 2026 é de inacreditáveis e mortais 600%. A nação vive no precipício, cuja latitude foi ampliada nas últimas semanas, diante das ameaças postas à mesa por Donald Trump. Os americanos aumentaram a presença militar nas águas do Caribe. A alegação: o controle e a interceptação de embarcações com drogas rumo ao Norte. Trump aumentou a temperatura ao anunciar, no fim de novembro, o fechamento do espaço aéreo da Venezuela. O Ministério das Relações Exteriores de Maduro alega haver uma “ameaça colonialista”.
Vive-se a iminência de algum desfecho — e parece não haver saída para o bolivarianismo que não seja a capitulação ante um cotidiano terrível. Para acompanhar de perto a movimentação em Caracas, VEJA designou a repórter Mariana Gómez, que assina reportagem ao lado do editor Ricardo Ferraz e da repórter Amanda Péchy. “O medo está no ar, sabe-se que algo muito forte pode ocorrer nas próximas semanas”, diz ela. “Qualquer mensagem favorável a María Corina Machado, Prêmio Nobel da Paz deste ano, ou uma piada em torno da situação atual podem levar pessoas à prisão.” Seguir a movimentação cotidiana ao lado dos cidadãos é recurso jornalístico de imensa relevância, e VEJA se orgulha de ter estado sempre no olho do furacão. Em 2021, durante a pandemia de covid-19, a editora-executiva Monica Weinberg mediu na realidade a pobreza que atingia 94,5% da população. Naquela oportunidade, o título da reportagem dava conta da catástrofe que engolia o país: “O mais pobre do mundo”. VEJA seguirá atenta ao que ocorre na Venezuela.
Publicado em VEJA de 19 de dezembro de 2025, edição nº 2975





