Caso Epstein: documentos divulgados omitem menções a Trump
Documentos não incluem memorandos do FBI sobre denúncia feita em 2019 por uma mulher que acusa Trump de abuso sexual
Segundo revelação do The New York Times, parte dos registros relacionados a uma acusação contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não foi incluída no pacote de documentos do caso Jeffrey Epstein divulgado pelo United States Department of Justice no fim de janeiro.
A ausência envolve memorandos do Federal Bureau of Investigation (FBI) que resumiriam três entrevistas realizadas em 2019 com uma mulher que afirma ter sido agredida sexualmente por Epstein e por Trump na década de 1980, quando era adolescente.
Um quarto resumo, referente apenas às alegações contra Epstein, foi tornado público. Os demais não aparecem nos arquivos disponibilizados.
A divulgação do acervo foi determinada por lei sancionada no ano passado, após pressão bipartidária no Congresso americano.
O objetivo declarado era ampliar a transparência sobre as investigações envolvendo o financista, que foi preso em 2019 sob acusações federais de tráfico sexual de menores e morreu na prisão no mesmo ano.
O que falta nos arquivos
De acordo com um índice oficial tornado público junto com os documentos, o FBI conduziu quatro entrevistas com a denunciante entre julho e outubro de 2019. O índice lista a existência de memorandos para cada encontro, além de anotações originais dos agentes.
No entanto, apenas um resumo foi incluído na liberação feita pelo Departamento de Justiça.
Mais de 50 páginas relacionadas ao caso específico da mulher estariam ausentes, segundo análise dos números de série das páginas divulgadas.
Reportagens da NPR e do jornalista Roger Sollenberger já haviam apontado inconsistências semelhantes.
Procurado pelo Times, o Departamento de Justiça afirmou que apenas materiais “privilegiados ou duplicados” foram retidos e que parte dos documentos pode estar protegida por envolver “investigação federal em andamento”.
O órgão não explicou diretamente por que os memorandos referentes às alegações contra Trump não foram incluídos.
A legislação que autorizou a divulgação dos arquivos permite a retenção de trechos que identifiquem vítimas, descrevam violência ou abuso infantil ou comprometam investigações em curso.
O texto, porém, proíbe explicitamente que documentos sejam omitidos por “embaraço, dano reputacional ou sensibilidade política” envolvendo figuras públicas.
A acusação
A mulher procurou autoridades dias após a prisão de Epstein, em julho de 2019. Em depoimento registrado em um dos memorandos divulgados, afirmou que sofreu abusos repetido quando tinha entre 13 e 15 anos.
Ela disse ter reconhecido o financista apenas décadas depois, ao ver uma fotografia enviada por um amigo.
Em um documento datado de 2025, incluído nos arquivos, consta que ela afirmou ter sido apresentada a Trump por Epstein e alegou ter sofrido agressão também por parte do então empresário, em um episódio descrito como violento. O material não contém avaliação do FBI sobre a credibilidade da denúncia.
Trump nega irregularidades. Em nota recente, a Casa Branca afirmou que o presidente foi “totalmente exonerado em qualquer assunto relacionado a Epstein”.
O advogado que representou a mulher em uma ação movida contra o espólio de Epstein não comentou o caso. Ela retirou a ação posteriormente.
Registros judiciais indicam que também foi considerada inelegível para receber compensação de um fundo criado para vítimas do financista, sem detalhar os motivos.
Pressão no Congresso
O episódio reacendeu críticas de parlamentares democratas à condução da divulgação dos arquivos.
Robert Garcia, deputado da Califórnia e principal democrata no Comitê de Supervisão da Câmara, afirmou que os memorandos também não estavam presentes em versões não editadas que ele consultou no Departamento de Justiça.
Segundo Garcia, o material tampouco foi entregue ao comitê, que havia emitido intimação solicitando todos os registros investigativos relacionados a Epstein.
Democratas discutem abrir uma investigação paralela para apurar a ausência dos documentos.
O caso ocorre em meio a críticas mais amplas sobre a forma como o governo tratou os arquivos.
Enquanto alguns trechos ligados a supostos abusos cometidos por outros homens foram fortemente editados, detalhes identificáveis de vítimas teriam permanecido visíveis, inclusive imagens sensíveis, segundo relatos de sobreviventes e legisladores.
Transparência sob escrutínio
A divulgação dos arquivos Epstein tornou-se tema político sensível nos Estados Unidos, sobretudo em ano pré-eleitoral.
Para críticos, a ausência de documentos listados oficialmente mina a promessa de transparência integral. Para aliados do governo, o conjunto divulgado comprovaria que muitas alegações envolvendo figuras públicas são infundadas.
Especialistas em direito público ouvidos por veículos como The Washington Post e Bloomberg têm destacado que a linha entre proteção de investigações em curso e interesse público é juridicamente complexa, sobretudo quando envolve acusações não corroboradas contra autoridades eleitas.





