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EUA e Irã em confronto diplomático e de narrativas após discurso de Trump

Washington e Teerã se acusam mutuamente, enquanto negociações nucleares cruciais começam em Genebra

Por Ernesto Neves 25 fev 2026, 08h10 • Atualizado em 25 fev 2026, 08h56
  • O governo iraniano classificou ontem como “grandes mentiras” as acusações feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o programa de mísseis e nuclear de Teerã, em meio à retomada de conversas mediadas por países do Golfo para evitar uma escalada militar.

    No tradicional discurso anual do Estado da União, Trump afirmou que o Irã não apenas possui mísseis capazes de “ameaçar a Europa e nossas bases no exterior”, mas estaria atualmente desenvolvendo tecnologia de longo alcance capaz de atingir o território continental americano.

    Reação de Teerã: “mentiras repetidas”

    O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da República Islâmica, Esmaeil Baqaei, reagiu com firmeza nas redes sociais.

    “Qualquer alegação sobre o programa nuclear, seus mísseis balísticos e o número de vítimas durante os distúrbios de janeiro é simplesmente a repetição de ‘grandes mentiras’.”

    Diplomatas iranianos argumentam que a repetição dessas narrativas sem apresentação de provas concretas não constitui informação factual, mas sim uma campanha de desinformação contra Teerã.

    Inclusive, comparam o modo de espalhar as alegações à máxima de propaganda atribuída ao ministro nazista Joseph Goebbels: “repita uma mentira vezes suficientes e ela se torna verdade.”

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    Entre as acusações que Trump trouxe em seu discurso, estava também a de que o governo iraniano teria sido responsável pela morte de “aproximadamente 32 000 manifestantes” durante uma onda de protestos nacionais no início do ano, um número que Teerã rejeita e descreve como inflado e politizado.

    Diplomacia em uma encruzilhada

    As declarações americanas e a resposta iraniana ocorrem no limiar de uma nova rodada de negociações nucleares mediadas por Omã e realizadas em Genebra, programadas para hoje.

    Autoridades iranianas, incluindo o ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi, disseram nas últimas horas que um acordo ainda é possível, desde que as conversas se concentrem exclusivamente no programa nuclear e respeitem a soberania iraniana.

    Araghchi reafirmou que Teerã não busca desenvolver armas nucleares, mas insiste no direito ao enriquecimento de urânio para fins civis.

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    Ao mesmo tempo, o governo americano tem tentado ampliar a agenda das negociações, cobrando progressos não apenas no tema nuclear, mas também no programa de mísseis balísticos de Teerã e no papel regional iraniano no apoio a grupos armados no Oriente Médio, demandas que Teerã considera inaceitáveis como condição para avançar.

    Uma presença militar sem precedentes

    Enquanto diplomatas buscam um terreno comum, as forças armadas americanas mantêm o maior contingente de poderio militar no Oriente Médio desde a invasão do Iraque em 2003, com várias unidades navais e aéreas posicionadas na região.

    O Pentágono enfatiza que a diplomacia é a primeira opção do governo Trump, mas que as tropas foram deslocadas para dissuadir Teerã de prosseguir com o que Washington classifica como “ambições nucleares e de longo alcance”.

    Analistas internacionais destacam que essa postura de força coincide com esforços mais amplos dos EUA para pressionar politicamente o Irã, ao mesmo tempo em que tentam evitar um conflito direto cujas consequências seriam imprevisíveis em uma região já marcada por fragilidades políticas e militares.

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    O desafio interno no Irã e seu impacto nas relações externas

    As tensões entre Washington e Teerã não surgem de um vácuo político. Desde dezembro, o Irã tem enfrentado protestos nacionais desencadeados por questões sociais e econômicas, que foram duramente reprimidos pelas forças de segurança.

    A discrepância entre as estimativas do governo iraniano e as cifras citadas por organizações de direitos humanos e fontes independentes tem sido outro ponto de controvérsia internacional.

    Além disso, a figura do líder supremo iraniano, Aiatolá Ali Khamenei, tem sido observada de perto por analistas, que apontam que ele enfrenta uma de suas mais profundas crises internas e externas, pressionado tanto por opositores internos quanto por rivais geopolíticos.

    O que está em jogo em Genebra

    O cerne das negociações em Genebra é o futuro do acordo nuclear iraniano, frequentemente conhecido pela sigla em inglês JCPOA (Plano de Ação Conjunto Global), do qual os Estados Unidos se retiraram unilateralmente em 2018 sob a administração Trump.

    O retorno e possíveis revisões a esse pacto têm sido objeto de intensos debates diplomáticos durante os últimos anos, com uma série de acordos parciais e sucessivas rodadas que não conseguiram selar um compromisso duradouro.

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