Faixa de Gaza: o retrato do desespero
A tentativa de obter comida para aplacar a fome que avança tornou-se quase uma armadilha, deixando um rastro de mortes
A cada dia que passa, a escassez do mais básico para a vida na Faixa de Gaza torna a existência dos cerca de 2,3 milhões de palestinos no enclave um dramático exemplo de atropelo à noção fundamental de humanidade. A desesperada tentativa de obter comida para aplacar a fome que avança, como na terça-feira 22, tornou-se quase uma armadilha, deixando um rastro de mortes. Desde maio, de acordo com o escritório de Direitos Humanos da ONU, mais de 1 000 pessoas teriam sido abatidas pelo Exército israelense, o IDF, que monitora os pontos de distribuição de alimentos, onde a disputa é por uma cesta que vem se revelando insuficiente. O IDF não confirma. Segundo um relatório avalizado pela ONU, 93% da população está em estado de vulnerabilidade alimentar e 244 000, em situação “catastrófica”. Só em 48 horas, 33 pessoas sucumbiram à desnutrição, doze crianças. O fornecimento de mantimentos ali foi transferido a uma empresa americana apoiada por Israel e Estados Unidos — a Fundação Humanitária de Gaza, ou GHF, criticada pela inexperiência e pelo viés militarizado da missão que encabeça. O IDF afirma que segue um protocolo para evitar tumulto e garantir a segurança dos agentes humanitários, o que a ONU rebate: “É como se tivessem licença para matar”. A situação levou 25 países, como Reino Unido e França, a apelarem conjuntamente pelo término do conflito. E ouviram do governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu: “Estão desconectados da realidade”. Pois ela se impõe diariamente a gente inocente que só quer o fim do inferno.
Publicado em VEJA de 25 de julho de 2025, edição nº 2954






