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Morre aos 100 anos Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos

Democrata enfrentava problemas de saúde e decidiu manter somente tratamentos paliativos contra um câncer em fevereiro de 2023

Por Redação Atualizado em 29 dez 2024, 19h00 - Publicado em 29 dez 2024, 18h50

Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos entre 1977 e 1981, morreu aos 100 anos neste domingo, 29. O democrata enfrentava problemas de saúde há alguns anos e decidiu suspender as intervenções médicas contra um câncer de pele que se espalhou para o fígado e o cérebro em fevereiro de 2023. Desde então, o ex-presidente recebia somente os cuidados paliativos. Carter tratou e curou um câncer cerebral em 2015, mas teve problemas de saúde em 2019 e passou por uma cirurgia para remover uma pressão cerebral.

Jimmy Carter nasceu em 1924 na cidade de Plains, no estado da Geórgia. Estudou em uma escola pública local e passou pela Faculdade do Sudoeste da Geórgia e pelo Instituto de Tecnologia antes de se formar bacharel em Ciência pela Academia Naval dos Estados Unidos, em 1946. Na Marinha, serviu em submarinos pelos oceanos Atlântico e Pacífico e chegou ao cargo de tenente. Decidiu voltar para a cidade-natal e tocar os negócios da família em 1953, antes da morte de seu pai.

Na vida pública, ele foi administrador da educação, do hospital e da biblioteca de Plains e se tornou líder da comunidade, quando se filiou ao partido democrata. Carter se elegeu senador pelo estado da Geórgia em 1962 por dois anos e foi reeleito em 1964. Em 1966, se candidatou ao governo do estado, mas foi derrotado nas primárias do partido. Carter se elegeu para o cargo em 1970. Em 1974, anunciou sua candidatura para a presidência do país e venceu a disputa em meados de 1976. Foi o 39° presidente dos Estados Unidos entre os anos de 1977 e 1981. Ele era o ex-presidente americano mais velho da história depois da morte de George H.W. Bush, aos 94 anos, em 2018.

Vida

Defensor dos direitos humanos, Carter recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2002 em reconhecimento à sua atuação como advogado da causa democrática e mediador de crises diplomáticas e conflitos armados. Ele desempenhara esses papéis à frente do Carter Center, a organização não-governamental de perfil  humanitário voltada para a promoção da paz e fundada por ele após deixar a Casa Branca.

Do combate a epidemias na África e na América Latina à fiscalização de dezenas de eleições ao redor do mundo, a organização criada por Carter coordenou projetos em mais de 70 países e atuou na negociação de acordos de paz no Sudão, Bósnia e tentativas de conciliação entre israelenses e palestinos.

Esse perfil conciliador e altruísta, que consolidou nas últimas décadas sua imagem de democrata e interlocutor, originou-se nos quatro anos em que Carter conduziu os Estados Unidos da Casa Branca. Sua gestão será sempre recordada pela conclusão dos Acordos de Camp David, entre Israel e Egito, pelo restabelecimento das relações diplomáticas completas entre os Estados Unidos e a China e pela celebração dos tratados de desarmamento nuclear com a União Soviética.

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Em sua gestão, apelos de políticos, da Igreja Católica e de entidades em favor dos direitos humanos de países da América do Sul, entre os quais o Brasil, começaram a alcançar a Casa Branca. Em parte, graças ao assessor de Carter para assuntos de América Latina, Robert Pastor. O governo americano, que em gestões anteriores havia apoiado a derrubada de governos democráticos na região e as subsequentes ditaduras, deu uma guinada sob a condução de Carter.

Os Estados Unidos passaram a pressionar os regimes autoritários a libertar presos políticos e a banir a tortura, bem como a apoiar as campanhas internas em favor da redemocratização. No Brasil, parte da pressão americana contribuiu para a aprovação da Lei da Anistia, em agosto de 1979, durante o governo do general João Batista Figueiredo.

Esses trunfos de política externa contrastaram fundamentalmente com o cenário doméstico. Com um mandato instável, visto como um fracasso por muitos analistas, Jimmy Carter foi uma figura intensamente contestada enquanto esteve no mais alto cargo dos Estados Unidos.

Seu governo teve alguns pontos positivos, como a criação do Departamento de Educação, pasta antes vinculada à área da Saúde, a realização de uma reforma administrativa que melhorou a eficiência dos serviços públicos e a expansão, em mais de 417.000 quilômetros quadrados, das reservas ambientais do país, sobretudo no estado do Alasca. Em seus dois primeiros anos de governo, a economia mostrou sinais de recuperação da recessão causada pela primeira crise do petróleo, em 1973: a taxa de crescimento anual se manteve na casa dos 5% e o desemprego caiu de 7,5% para 5,6%, após a criação de nove milhões de postos de trabalho.

Mas, na segunda metade de seu mandato, Carter pouco conseguiu fazer para combate a escalada da inflação, iniciada ainda na década anterior. O calcanhar de Aquiles de sua gestão é bem conhecido: energia. Ao assumir a Casa Branca em meio ao ciclo de crises do petróleo, o presidente fez um pronunciamento na TV sugerindo soluções paliativas e consideradas risíveis para o problema na época, como o uso do “transporte solidário” e a redução da temperatura dos aquecedores. A crise do petróleo de 1979 foi mais um duro golpe na economia americana e no governo Carter.

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Diante da súbita diminuição da oferta mundial de petróleo, em consequência da Revolução Islâmica no Irã, que praticamente paralisou sua produção, o governo de Carter reagiu com medidas de pouco alcance imediato, como o incentivo a fontes alternativas de energia e a eliminação gradual do controle do preço do petróleo. Implantada por Richard Nixon (1969-1974) na esteira da crise de 1973, a regulamentação congelava o barril em seis dólares nos Estados Unidos, contra 30 dólares no mercado internacional.

A política de Carter para energia resultou na disparada imediata dos preços nos postos de combustíveis e em demissões em massa, que abalaram a popularidade do presidente. A resposta política à tomada da embaixada dos Estados Unidos no Irã por militantes islâmicos com a bênção do regime dos aiatolás, em novembro de 1979, foi igualmente desastrada do ponto de vista econômico. Carter adotou o embargo ao petróleo iraniano, mas a medida aumentou a desconfiança do mercado e contribuiu ainda mais para a alta dos preços.

Embora o Congresso americano fosse dominado pela maioria democrata durante seus quatro anos na Casa Branca, Carter não conseguiu manter uma boa relação com os parlamentares.  Visto como um outsider na política Washington, sem boa articulação entre os congressistas, Carter não conseguiu aprovar as reforma do sistema de saúde – algo que só iria acontecer quase 30 anos depois, durante o mandato de outro democrata, Barack Obama – e do sistema tributário, crucial para reduzir o déficit fiscal do governo. Com tantos fatores adversos, no final de seu mandato Carter só era aprovado por um terço dos americanos.

O canto do cisne de seu governo começou em 24 de abril de 1980, com a tentativa de libertação dos 52 americanos mantidos como reféns na embaixada dos Estados Unidos em Teerã desde 4 de novembro do ano anterior. A crise do petróleo havia levado os Estados Unidos a adotarem uma nova diretriz de política externa, a Doutrina Carter, que previa o uso de tropas americanas para garantir o acesso ao petróleo do Golfo Pérsico.“Qualquer tentativa externa de controlar a região do Golfo Pérsico será considerada uma ameaça aos recursos vitais dos Estados Unidos. E essa ameaça será combatida com os meios necessários, o que inclui a força armada”, declarou na época o então presidente.

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Na ocasião, os Estados Unidos enviaram ao Irã oito helicópteros da Marinha, pilotados por fuzileiros navais e carregados de  esquadrões de elite do Exército, para libertar os reféns. O cumprimento da missão exigia no mínimo seis aeronaves. Mas, no momento da ação, uma delas teve problemas mecânicos, o que forçou o cancelamento de toda a operação, aprovada por Carter. O fiasco, porém, não estava completo.

Ao reabastecer em pleno voo, um dos helicópteros se chocou com um avião-tanque. A colisão destruiu as duas aeronaves, matou oito soldados e feriu outros quatro. O fracasso da missão contribuiu de forma decisiva para que o democrata não fosse reeleito. Mas a onda anti-Carter só tomou corpo depois do último debate presidencial na TV, ocorrido uma semana antes da eleição.

Até então, as pesquisas ainda favoreciam Carter, mesmo após o presidente quase ter perdido as primárias do Partido Democrata para o senador Ted Kennedy. A economia continuava patinando, e a crise dos reféns no Irã incinerava a popularidade do presidente. Para muitos analistas, o republicano Ronald Reagan, rival de Carter na disputa, só virou o jogo no fim do debate, quando olhou para a câmera e disse ao telespectador:

“Você está melhor hoje do que há quatro anos? Ficou mais fácil comprar nas lojas do que há quatro anos? O desemprego é maior ou menor do que há quatro anos? Os Estados Unidos são respeitados no mundo como há quatro anos?”

Nenhuma das respostas favorecia Jimmy Carter. A vontade das urnas sinalizou mais do que uma derrota eleitoral corriqueira, com Reagan conquistando 50,7% dos votos, contra 41% do desgastado presidente. Na contagem do colégio eleitoral, o que de fato importa na eleição presidencial americana, cristalizou-se um massacre: 489 votos para Reagan e somente 49 para Carter, quando são necessários 270 votos para um candidato declarar-se vencedor.

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Um último vexame estava reservado para o dia da posse do rival. Poucas horas depois de Carter transmitir o cargo a Reagan, os sequestradores da embaixada no Irã liberaram todos os 52 americanos mantidos em cativeiro havia 444 dias. A rigor, o feito caberia à diplomacia de Jimmy Carter. Mas o fato foi proclamado por Reagan como vitória sua.

Trump

A vitória do magnata republicano Donald Trump sobre a democrata Hillary Clinton nas eleições de 2016 ficou atravessada na garganta de Carter nos últimos anos. Em junho de 2019, declarou que Trump só foi eleito presidente porque a Rússia interferiu nas eleições de 2016 a seu favor. Para ele, o republicano “não ganhou de fato”.

“Não há dúvida de que os russos realmente interferiram na eleição. E eu acho que a interferência, embora ainda não quantificada, se totalmente investigada, mostraria que Trump não venceu a eleição em 2016”, afirmou Carter, referindo-se à interferência de Moscou.. “Ele perdeu a eleição e foi colocado no cargo porque os russos interferiram em seu nome”, insistiu, conferência pelo Carter Center em Leesburg, no estado da Virgínia.

Questionado se acreditava que Trump seria um presidente ilegítimo, Carter fez uma pausa. “Baseado no que acabei de dizer, que não posso mais retirar”, respondeu, provocando risos no público.

Derrotado em sua tentativa de reeleição, Carter voltou a morar em seu rancho em Plains, no estado da Georgia, a única casa de propriedade de sua família. Foi na mesma fazenda, cujo principal negócio era a produção de amendoins, que James Earl Carter nascera em 1º de outubro de 1924. Sem água encanada nem energia elétrica, Jimmy Carter viveu na propriedade até entrar para a Academia da Marinha, no estado de Maryland. Ao se formar, em 1946, casou-se com Rosalynn Smith, que passaria a assinar o sobrenome do marido e seria sua mulher até o fim da vida. Em 1953, ele deixou a Marinha para administrar os negócios da família.

Mas seu destino estava na política. No início da década seguinte, Carter foi eleito para o Senado estadual, onde permaneceu até 1971, quando foi eleito governador da Georgia. Depois do breve mandato de Gerald Ford, que assumiu depois da renúncia de Nixon, ele levaria os democratas de volta à Casa Branca.

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Sua candidatura mudou o mapa eleitoral americano. Ao contrário do que costuma ocorrer na eleição, o democrata – um sulista – venceu em vários estados do sul, tradicionalmente republicano. Enquanto isso, Ford, candidato à reeleição, conquistou a maioria na Califórnia, antigo reduto democrata. Na conta final dos delegados do colégio eleitoral, Carter levou a melhor.

Crítico de diversas políticas do governo americano nos últimos anos, o ex-presidente não hesitou em reclamar diversas vezes do que considerava equívocos do governo americano. Foi adversário da Guerra do Iraque, iniciada em 2003, e acusou o republicano George W. Bush e o então premiê britânico Tony Blair de usarem mentiras para justificar o conflito.

“Essa guerra foi motivada pelo orgulho e arrogância, por um desejo de controlar a riqueza do petróleo”, afirmou.

Também queixou-se de abusos na prisão de Guantánamo, reservada para suspeitos de terrorismo, e chegou a sustentar as alegações do caudilho venezuelano Hugo Chávez de que os Estados Unidos haviam patrocinado uma tentativa de golpe de estado em 2002. Durante a gestão do democrata Obama, criticou o uso de “drones” – aviões não tripulados – em zonas de conflito e na perseguição a líderes terroristas.

Nos últimos anos, Carter sobreviveu a quatro tumores no cérebro – tratados com radioterapia e medicamentos experimentais – e a uma fratura no quadril, em maio de 2019, resultante de uma queda quando se preparava para caçar perus em sua fazenda.

Autor de cerca de trinta livros, a maioria publicada em seus últimos anos de vida, Carter escreveu sobre religião, fé em Deus, poder, guerra, paz e limitações humanas. No fim das contas, entre erros e acertos, talvez sua maior qualidade tenha sido a franqueza.

“Não posso negar. Sou melhor ex-presidente do que fui presidente”.

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