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O que é a KK Park, fábrica de fraudes que explorava brasileiros

Jovens são atraídos por supostos empregos no setor de investimento em criptomoedas e acabam sujeitos a vigilância rigorosa, tortura e até assassinatos

Por Amanda Péchy Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 fev 2025, 12h25

Vítimas de tráfico humano no Sudeste Asiático, os brasileiros Luckas Viana dos Santos e Phelipe Ferreira conseguiram fugir do cativeiro em Mianmar no último domingo 9, onde eram obrigados a trabalhar numa fábrica que aplicava golpes financeiros a mando da máfia chinesa. Os paulistanos estavam entre os 260 imigrantes que deixaram as explorações na KK Park, resgatados por forças de segurança e levados para a Tailândia, onde aguardam o processo de repatriação.

Segundo investigação da emissora alemã DW, a KK Park, uma dessas “fábricas”, trabalhava com um modus operandi de vigilância rigorosa, tortura e até assassinatos. Soldados armados vigiam todas as entradas, e há câmeras de vigilância por toda parte.

Jovens são atraídos por supostos esquemas de investimento em criptomoedas e chegam a ser recebidos de forma calorosa, com promessas de que serão hospedados em um hotel. Ao invés disso, são transportados de carro do aeroporto até a cidade fronteiriça de Mae Sot, no norte tailandês, onde embarcam pelo rio Moei até o estado de Kayin, região de Mianmar devastada por uma guerra pela independência.

Lá fica a KK Park, uma central onde milhares são forçados a ações criminosas, enganando internautas mundo afora com fraudes financeiras. Imagens de satélite mostram que o complexo semelhante a um presídio foi construído em 2020 e que, desde então, sua área quadruplicou.

As relações de poder nebulosas na região de conflito de Kayin, na fronteira birmanesa, proporcionam solo fértil a atividades criminosas. A KK Park é apenas uma de pelo menos dez fábricas de golpes online da área. Suas operações estão se expandindo continuamente do sudeste da Ásia para a África, Europa e América do Norte.

As Nações Unidas calculam que mais de 100 mil pessoas estão confinadas em diversos centros de fraude online de Mianmar, num regime análogo à escravidão.

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Resgate de brasileiros

A operação que resgatou os brasileiros e outras centenas de imigrantes no último final de semana foi viabilizada com a ajuda da ONG internacional “The Exodus Road”, segundo informado por parentes das vítimas à imprensa brasileira.

Luckas, 31 anos, e Phelipe, 26, foram atraídos por promessas falsas de emprego e terminaram vítimas de tráfico humano. Segundo familiares, eles eram mantidos em cárcere privado no local e foram obrigados a aplicar golpes financeiros por mais de três meses.

Após negociações com autoridades locais, a dupla conseguiu ser transferida para a Tailândia. De lá, devem ser repatriados ao Brasil.

Trabalho forçado e golpes

A investigação da DW descobriu que muitos dos imigrantes trabalhavam mais de 17 horas por dia, sem feriados nem descanso. Eles recebem instruções sobre como praticar os golpes e convencer os “clientes” – como chamam as vítimas – a investirem em criptomoedas, com manuais que descreviam em detalhes como estabelecer confiança e se aproveitar dos pontos fracos dos alvos.

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Ao invés de depositarem suas economias em investimentos lucrativos, porém, o dinheiro entrava numa conta controlada pelos criminosos. Assim que se alcançava uma determinada soma, as contas eram zeradas. Esse tipo de golpe online é apelidado pig butchering (abate de porcos). Os manuais distribuídos à chegada no centro descreviam em detalhes como estabelecer confiança e se aproveitar dos pontos fracos dos alvos.

Havia metas semanais de quanto dinheiro deveriam arrecadar ou de “clientes” para entrar em contato. Quem não alcançava essas metas, era punido: ficava sem almoço, era espancado, ou forçado a ficar horas de pé, segundo a DW.

Máfia chinesa

Ainda segundo a investigação da DW, os crachás nos uniformes dos guardas levava as insígnias da Força de Guarda de Fronteira, um grupo de ex-rebeldes que deixou de combater a junta militar birmanesa uma década atrás, em troca do controle total sobre seus territórios. Os soldados policiam a KK Park, mas os chefes da operação são chineses.

O esquema de pagamentos funcionava assim: a trilha de pagamentos de diversas vítimas de fraude leva até as carteiras de criptomoedas usadas pela KK Park para coletar as economias dos defraudados. De lá, o dinheiro é distribuído por outras carteiras que funcionam como contas digitais para armazenar criptos.

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Uma delas foi aberta por Wang Yi Cheng, um empresário chinês residente na Tailândia. Ele recebeu dezenas de milhares de dólares em criptomoedas de carteiras usadas pelo KK Park, e integra uma rede maior, de empresários chineses no exterior, que inclui um notório chefão da máfia chinesa, Wan Kuok Koi, conhecido como “Broken Tooth”.

Ex-líder da tríade 14K, depois de passar mais de dez anos na prisão por atividades criminosas em Macau, ele fundou em 2018 a World Hongmen History and Culture Association. Nesse ínterim ela foi submetida a sanções pelos Estados Unidos, devido a seu envolvimento com o crime organizado.

A Hongmen também promove a ambiciosa “Nova Rota da Seda”, ou Iniciativa do Cinturão e Rota, um projeto de infraestrutura trilionário que visa integrar a China ainda mais à economia global por meio de investimentos em infraestrutura mundo afora. O terreno em que foi construída a KK Park está relacionada à iniciativa: relatórios do governo falavam em projetos de construção em suas proximidades, embora mais tarde Pequim tenha se distanciado, devido às alegações de fraude.

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