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O que significa o fim do acordo nuclear entre EUA e Rússia

Expiração do Novo START deixa as duas maiores potências atômicas do mundo sem limites de arsenal; Moscou e Washington tentam negociar extensão

Por Júlia Sofia Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 5 fev 2026, 15h42 • Atualizado em 5 fev 2026, 18h05
  • Embora haja negociações em andamento, pela primeira vez em décadas, os Estados Unidos e a Rússia deixaram de estar submetidos a qualquer tratado que limite seus arsenais nucleares. O acordo conhecido como Novo START, que desde 2011 impunha tetos ao número de ogivas e mísseis de longo alcance das duas potências, expirou nesta quinta-feira, 5, sem que um novo mecanismo tenha, ao menos por ora, surgido em seu lugar.

    Especialistas e líderes internacionais alertam que o fim do pacto ocorre no pior momento possível, em meio à guerra na Ucrânia, à deterioração das relações entre Washington e Moscou e à rápida expansão do poder nuclear chinês.

    O que era o acordo?

    Assinado em 2010 pelos então presidentes americano e russo, Barack Obama e Dmitry Medvedev, o Novo START foi o último de uma série de acordos criados para conter a escalada nuclear herdada da Guerra Fria. O tratado limitava cada país a 1.550 ogivas nucleares estratégicas instaladas e a 700 lançadores de mísseis balísticos intercontinentais.

    Além dos limites numéricos, o acordo previa inspeções presenciais, troca regular de dados e mecanismos de verificação que buscavam garantir previsibilidade e reduzir o risco de erros de cálculo entre as duas maiores potências nucleares do planeta, responsáveis juntas por mais de 80% das ogivas existentes no mundo.

    Por que expirou?

    O tratado foi prorrogado por cinco anos em 2021, no início do governo Joe Biden, mas, pelas suas próprias regras, não podia ser estendido novamente.

    Diante do prazo de fevereiro de 2026, ainda havia margem política para um acordo sucessor, ou ao menos para uma prorrogação informal de seus limites. Em setembro do ano passado, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que estaria disposto a continuar respeitando os tetos do tratado por mais um ano, desde que os Estados Unidos fizessem o mesmo.

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    O líder americano, Donald Trump, chegou a classificar a proposta como “uma boa ideia”, mas seu governo não deu seguimento às negociações. Em declarações recentes, ele afirmou que prefere um novo acordo “melhor”, que inclua a China — algo que Pequim rejeita abertamente.

    Na prática, as condições para a manutenção do tratado já vinham se deteriorando desde 2020, quando inspeções foram suspensas por causa da pandemia. Em 2023, em meio à escalada de tensões provocada pela guerra na Ucrânia, a Rússia anunciou a suspensão de sua participação, interrompendo a troca de dados e o acesso de inspetores internacionais, mas assegurando que não ultrapassaria os limites de ogivas e lançadores. Os Estados Unidos responderam com medidas equivalentes.

    Apesar das limitações, o Novo START continuava sendo visto como um importante pilar de estabilidade e, mesmo após o ponto de inflexão em 2023, estimativas independentes indicam que ambos os países seguiram, em linhas gerais, respeitando os tetos estabelecidos.

    O que muda agora?

    Hoje, estima-se que a Rússia possua cerca de 5.459 ogivas nucleares e os Estados Unidos, 5.177, números muito superiores aos de qualquer outro país.

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    Sem o Novo START, Washington e Moscou ficam, na prática, livres para aumentar o número de ogivas instaladas e de sistemas de lançamento, sem qualquer obrigação legal de transparência ou verificação.

    Outro fator de preocupação é a China. Embora ainda esteja muito atrás das duas potências em termos absolutos, Pequim vem expandindo e modernizando seu arsenal nuclear no ritmo mais acelerado do mundo.

    Além disso, a Rússia desenvolveu novos sistemas nucleares que sequer estavam contemplados pelo escopo do tratado.

    Alerta da ONU

    O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, classificou o momento como “grave” e afirmou que o mundo entra em uma fase inédita e perigosa.

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    “Pela primeira vez em mais de 50 anos, não há limites vinculantes para os arsenais estratégicos das duas potências que concentram a maioria das armas nucleares do planeta”, disse, acrescentando que a dissolução do tratado “não poderia ocorrer em pior momento”, quando o risco do uso de bombas atômicas é, segundo ele, o mais alto em décadas.

    Guterres pediu que Estados Unidos e Rússia retornem “sem demora” à mesa de negociações e alertou que o colapso do acordo pode enfraquecer o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que será revisado ainda este ano. De acordo com o portal de notícias americano Axios, Washington e Moscou negociam uma forma de estender os termos do Novo START, às margens de conversas com ucranianos sobre a guerra no Leste Europeu em Abu Dhabi, nesta quinta.

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