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ONU expressa preocupação com ataque dos EUA na Venezuela e cita ‘precedente perigoso’ 

Operação americana, que levou à captura do presidente Nicolás Maduro, ocorreu nas primeiras horas deste sábado em Caracas e arredores

Por Caio Saad Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 jan 2026, 12h10 • Atualizado em 3 jan 2026, 12h26
  • O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, está profundamente preocupado com ataques dos Estados Unidos contra a Venezuela, que criam um “precedente perigoso”, disse um porta-voz neste sábado, 3.

    “O secretário-geral enfatiza a importância do pleno respeito – por todos – ao direito internacional, incluindo à Carta da ONU. Ele está profundamente preocupado com o fato de as normas do direito internacional não estarem sendo respeitadas”, disse o porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric.

    Os ataques americanos, que levaram à captura do presidente Nicolás Maduro, ocorreram nas primeiras horas deste sábado em Caracas e arredores. Autoridades venezuelanas também relataram ataques a alvos nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira.

    Pouco antes das 2h da manhã, horário local, as primeiras explosões foram ouvidas sobre Caracas, juntamente com o som de aeronaves sobrevoando a capital, segundo relatos do New York Times. Bombardeios aéreos foram relatados em Fuerte Tiuna, a principal base militar de Caracas, localizada ao sul da cidade, que ficou completamente sem energia. Ataques também ocorreram no Quartel de la Montaña e na Base Aérea de La Carlota.

    Em uma curta entrevista ao jornal The New York Times, Trump afirmou que a operação foi “brilhante”: “Planejamento bem-feito e tropas e pessoas excelentes, excelentes”, disse Trump. “Foi uma operação brilhante, na verdade.”

    Segundo reportagem da emissora americana CNN, Maduro e a primeira-dama Cilia Flores foram arrastados do quarto em que estavam por militares americanos durante a madrugada. À agência de notícias Associated Press, o líder do partido governista venezuelano, Nahum Fernández, disse que ambos estavam na residência dentro do complexo militar do Forte Tiuana.

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    A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou que Caracas não sabe o paradeiro de Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. Em pronunciamento à rede pública VTV, Rodríguez exigiu “prova de vida imediata do governo do presidente Donald Trump sobre as vidas do presidente Maduro e da primeira-dama”.

    Em entrevista à Fox News, Trump afirmou que Maduro está a bordo do navio de guerra americano Iwo Jima e segue para Nova York, onde será julgado. Mais cedo, a secretária de Justiça dos Estados Unidos, Pam Bondi, afirmou que o presidente da Venezuela “em breve enfrentará a força total da Justiça americana, em solo americano e em tribunal americano”.

    Em publicação nas redes sociais, Bondi citou a acusação contra Maduro, indiciado pelo Distrito Sul de Nova York em 2020 por crimes de “Conspiração para o Narcoterrorismo, Conspiração para Importação de Cocaína, Posse de Metralhadoras e Dispositivos Destrutivos e Conspiração para Possuir Metralhadoras e Dispositivos Destrutivos contra os Estados Unidos”.

    Na época, ainda durante o primeiro mandato de Donald Trump, o Departamento de Justiça acusou, em diversas denúncias, Maduro de ter transformado a Venezuela em uma organização criminosa a serviço de narcotraficantes e grupos terroristas, enquanto ele e seus aliados desviavam bilhões do país sul-americano.

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    A divulgação coordenada das denúncias contra 14 autoridades e indivíduos ligados ao governo, e as recompensas de US$ 55 milhões por Maduro e outros quatro, atacaram todos os pilares do que o então secretário de Justiça William Barr chamou de “regime venezuelano corrupto”, incluindo o judiciário dominado por Maduro e as poderosas forças armadas.

    Uma das denúncias, apresentada por promotores de Nova York, acusava Maduro e o líder do partido socialista Diosdado Cabello, chefe da assembleia constituinte, de conspirarem com rebeldes colombianos e membros das forças armadas “para inundar os Estados Unidos com cocaína” e usar o narcotráfico como uma “arma contra os Estados Unidos”.

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    Escalada de tensão

    No final de outubro, Trump revelou que havia autorizado a CIA a conduzir operações secretas dentro da Venezuela, aumentando as especulações em Caracas de que Washington queria derrubar Nicolás Maduro. Fontes próximas à Casa Branca afirmam que o Pentágono apresentou a Trump diferentes opções, incluindo ataques a instalações militares venezuelanas — como pistas de pouso — sob a justificativa de vínculos entre setores das Forças Armadas e o narcotráfico.

    Os EUA acusam Maduro de liderar o Cartel de los Soles — designado como organização terrorista estrangeira em novembro — e oferecem uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levem à captura do chefe do regime chavista. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, também foi acusado por Trump de ser “líder do tráfico de drogas” e “bandido”. Em paralelo, intensificam-se os ataques a barcos de Organizações Terroristas Designadas, como define o governo americano, no Caribe e no Pacífico. Ao menos 83 tripulantes foram mortos.

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    Em novembro, militares americanos de alto escalão apresentaram opções de operações contra Caracas a Trump. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, e outros oficiais entregaram planos atualizados, que incluíam ataques por terra. Segundo a emissora CBS News, a comunidade de Inteligência dos EUA contribuiu com o fornecimento de informações para as possíveis ofensivas na Venezuela, que variam em intensidade.

    O planejamento militar ocorre em meio à crescente mobilização militar americana na América Latina e ao aumento das expectativas de uma possível ampliação das operações na região, em atos considerados “execuções extrajudiciais” pela Organização das Nações Unidas (ONU). Além do porta-aviões, destróieres com mísseis guiados, caças F-35, um submarino nuclear e cerca de 6.500 soldados foram despachados para o Caribe, enquanto Trump intensifica o jogo de quem pisca primeiro com o governo venezuelano.

    Os incidentes geraram alarme entre alguns juristas e legisladores democratas, que denunciaram os casos como violações do direito internacional. Em contrapartida, Trump argumentou que os EUA já estão envolvidos em uma guerra com grupos narcoterroristas da Venezuela, o que torna os ataques legítimos. Autoridades afirmaram ainda que disparos letais são necessários porque ações tradicionais para prender os tripulantes e apreender as cargas ilícitas falharam em conter o fluxo de narcóticos em direção ao país.

    Dados das Nações Unidas enfraquecem o discurso de caça às drogas. O Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 indica que o fentanil — principal responsável pelas overdoses nos EUA — tem origem no México, e não na Venezuela, que praticamente não participa da produção ou do contrabando do opioide para o país. O documento também aponta que as drogas mais usadas pelos americanos não têm origem na Venezuela — a cocaína, por exemplo, é consumida por cerca de 2% da população e vem majoritariamente de Colômbia, Bolívia e Peru.

    Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada no mês passado revelou que apenas 29% dos americanos apoiam o uso das Forças Armadas dos Estados Unidos para matar suspeitos de narcotráfico, sem o devido processo judicial, uma crítica às ações de Trump. Em um sinal de divisão entre os apoiadores do presidente, 27% dos republicanos entrevistados se opuseram à prática, enquanto 58% a apoiaram e o restante não tinha opinião formada. No Partido Democrata, cerca de 75% dos eleitores são contra as operações, e 10% a favor.

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