Por que região do Donbas é peça-chave para negociações entre Rússia e Ucrânia
Com grande população russófona, Donetsk e Luhansk são desejados por Vladimir Putin há mais de uma década

Após reuniões no Alasca e em Washington, negociações para o fim da guerra na Ucrânia estão mais abertas do que nunca. A possibilidade de paz, no entanto, passa pelo destino de um território chave para entender o conflito: o Donbas. O presidente russo, Vladimir Putin, exige que tropas ucranianas se retirem totalmente de Donetsk e Luhansk — as duas regiões que compõe o território — para uma eventual trégua.
A proposta é constantemente rejeitada pelo presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Ceder o território é visto como entregar de bandeja aos russos uma plataforma para realizar incursões no centro do país. A negativa encontra eco na opinião pública: aproximadamente 75% dos ucranianos discordam da possibilidade de ceder qualquer território nacional a Moscou, de acordo com o Instituto Internacional de Sociologia de Kiev.
Nesse momento, a Rússia domina cerca de 88% do Donbas (mais de 46 mil km²), incluindo a totalidade de Luhansk e três quartos de Donetsk. No entanto, Kiev detém o controle das cidades de Kostiantynivka e Pokrovsk, consideradas cruciais para impedir o avanço russo, e de inúmeras posições fortificadas ao longo da linha de frente.
Durante encontro com o presidente americano, Donald Trump, Putin teria dito que interromperia seus avanços, congelando a linha de frente em sua configuração atual: atualmente, a Rússia controla 19% da Ucrânia, incluindo toda a Crimeia, toda Luhansk, mais de 70% das regiões de Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson, e partes das regiões de Kharkiv, Sumy, Mykolaiv e Dnipropetrovsk. Na semana passada, tropas russas avançaram 16 quilômetros em território ucraniano, em uma ofensiva relâmpago que aumentou a pressão militar sobre Kiev.
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Localizado no extremo-leste ucraniano, o Donbas é o coração industrial da Ucrânia, rico em carvão e indústria pesada. O território tem sido alvo de Putin desde a década passada, quando movimentos separatistas foram armados e financiados pela Rússia em uma articulação que levou à invasão militar de 2022. Na época, Moscou justificou a ofensiva declarando que se tratava de uma tentativa de “libertar” a região e proteger russos étnicos de um suposto genocídio por parte de Kiev, uma vez que a intensa migração decorrente do período soviético tornou o Donbas uma das regiões mais russófonas do país.
Diferente da região ocupada da Crimeia, que tem uma profunda ligação com a identidade russa, Moscou tentou por anos influenciar a opinião pública para formar um elo com o Donbas, mas sem grande sucesso até a invasão. Se no início do conflito somente um quarto dos russos apoiava a incorporação de Donetsk e Luhansk à federação, pesquisas atuais apontam que a maioria da população defende a anexação dos territórios.