Premiê do Canadá diz que tempo de bons laços com EUA ‘acabou’ ao criticar tarifaço de Trump
Mark Carney fala em mudança permanente na relação após Washington anunciar taxa de 25% sobre carros importados, suas críticas ecoadas pelo mundo

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, declarou nesta sexta-feira, 28, que a era de laços profundos com os Estados Unidos “acabou”, em resposta ao anúncio do presidente Donald Trump acerca de imposição de tarifas de 25% a todos os automóveis importados por seu país. Os governos de Tóquio a Berlim e Paris ecoaram as duras críticas de Carney, afirmando que a medida protecionista será prejudicial inclusive a Washington. Alguns ameaçaram ações retaliatórias.
O líder canadense, em meio a campanha eleitoral, afirmou que Trump alterou permanentemente as relações entre as nações vizinhas e que, independentemente de quaisquer acordos comerciais futuros, não haveria “retorno”.
“O antigo relacionamento que tínhamos com os Estados Unidos com base no aprofundamento da integração de nossas economias e na cooperação militar e de segurança rigorosa acabou”, disse ele a repórteres.
Retaliação e guerra comercial
Carney chamou a taxação dos automóveis importados de “injustificada” e disse que tais medidas violam os pactos existentes entre os países. O Canadá, junto ao México, faz parte dos acordos de livre comércio USMCA, de 2020, e seu antecessor, o NAFTA, o que fez dos dois países os principais parceiros de negócios dos Estados Unidos – representando quase 30% do fluxo comercial americano.
O premiê deve conversar com governadores e líderes empresariais nesta sexta-feira para discutir uma resposta coordenada ao tarifaço, com medidas retaliatórias esperadas para a próxima semana. “Nossa resposta a essas últimas tarifas é lutar, proteger e construir”, disse Carney. “Combateremos as tarifas dos Estados Unidos com ações comerciais retaliatórias próprias que terão impacto máximo nos Estados Unidos e impactos mínimos aqui no Canadá.”
Uma opção para o Canadá é colocar impostos especiais de consumo sobre as exportações de petróleo, potássio e outras commodities. “Nada está fora de questão para defender nossos trabalhadores e nosso país”, afirmou Carney.
Tarifas sobre automóveis
Trump anunciou na quarta-feira que, a partir de 3 de abril, vai entrar em vigor uma tarifa de 25% sobre automóveis e peças de carros importados pelos Estados Unidos, uma medida que, segundo especialistas, vai reduzir a produção, aumentar preços e alimentar uma guerra comercial global.
Os americanos importaram quase US$ 475 bilhões em carros no ano passado, principalmente do México, Japão, Coreia do Sul, Canadá e Alemanha. Sozinhas, as montadoras europeias venderam mais de 750 mil veículos para Washington.
Reação global
O presidente da França, Emmanuel Macron, informou na quinta-feira que havia conversado com Trump e dito que tarifas não são uma boa ideia. Elas “interrompem as cadeias de valor, criam um efeito inflacionário e destroem empregos. Então não é bom para as economias dos Estados Unidos ou da Europa”, disse ele.
Macron acrescentou que Paris se coordenaria com a União Europeia para fazer Trump reconsiderar. Autoridades em Berlim também enfatizaram que o bloco europeu defende o livre comércio como a base da prosperidade regional.
Sem rodeios, o chanceler da Alemanha, Olaf Scholz (talvez com a língua solta porque deixará o cargo em breve), disse que Trump está errado e que Washington parece ter “escolhido um caminho em cujo fim estão apenas perdedores, já que tarifas e isolamento prejudicam a prosperidade, para todos”.
O ministro das Finanças da França, Eric Lombard, chamou de “notícias muito ruins” o anúncio sobre a nova onda de tarifas e disse que a União Europeia seria forçada a aumentar suas próprias taxas. Seu colega alemão, Robert Habeck, prometeu uma “resposta firme” do bloco. “Não aceitaremos isso deitados”, sublinhou ele.
O primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, falou em abordar os Estados Unidos com bom senso, mas “não de joelhos”. Já a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, descreveu o tarifaço dos carros como “ruim para as empresas, pior para os consumidores”. Ela disse que o bloco continuaria a buscar soluções negociadas enquanto protegia seus interesses econômicos.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, afirmou que as tarifas são “muito preocupantes” e que seu governo será “pragmático e lúcido” em resposta. O Reino Unido “não quer uma guerra comercial, mas é importante mantermos todas as opções na mesa”, ponderou.
O primeiro-ministro japonês, Shigeru Ishiba, disse que Tóquio estava colocando “todas as opções na mesa”. O Japão “faz a maior quantidade de investimento para os Estados Unidos, então nos perguntamos se faz sentido para (Washington) aplicar tarifas uniformes a todos os países”, questionou.
O Ministério das Relações Exteriores da China acusou os americanos de violarem as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). “O desenvolvimento e a prosperidade de nenhum país são alcançados pela imposição de tarifas”, disse o porta-voz Guo Jiakun.