Trump abre caçada implacável aos imigrantes – e sobra para o Brasil
O alvo declarado das batidas policiais são pessoas com ficha criminal, mas quem estiver por perto, sem documentos, cai na rede

Entre o cipoal de decretos que o presidente Donald Trump assinou nestes primeiros dias de governo, os que falam mais diretamente ao grande público americano são os que se abatem como um tsunami sobre os 11 milhões de imigrantes ilegais vivendo nos Estados Unidos. Cada vez que agentes da ICE, a temida polícia de imigração, e do Departamento de Segurança Interna batem na porta de uma casa e saem com pessoas algemadas, a ação é apoiada, segundo as pesquisas, por quase 60% da população — incluindo 54% dos latinos e 44% dos democratas —, temerosa dos efeitos da “invasão” durante o governo Joe Biden, que permitiu a entrada de “milhões e milhões e milhões de criminosos”, conforme o mantra exagerado de Trump — mas que, de tão repetido, adquiriu tom de verdade incontestável. E vídeos não faltam, em Chicago, Miami, Nova York e outras “cidades santuários”, divulgados pelos próprios órgãos para comprovar seu empenho em prol da esperada “maior deportação em massa da história do país”.

Depois de estabelecer emergência nacional na fronteira sul e fechá-la completamente, depois de chegar ao cúmulo de ordenar a permanência em terra de aviões em outros países, prontos para decolar com estrangeiros devidamente documentados e esperando o embarque para visitar parentes nos Estados Unidos, uma avalanche de batidas policiais, com colaboração do FBI e da DEA, a agência antidrogas, prendeu mais de 2 000 pessoas em dois dias, inclusive gente abrigada em escolas e igrejas, intocáveis durante a gestão de Biden. Foi pouco: a ordem vinda de Washington é prender entre 1 500 e 1 600 pessoas por dia, um número que deve aumentar gradativamente e alcançar 1 milhão por ano. O clima de medo se acentuou com cartazes e mensagens na TV pedindo que a população denuncie imigrantes suspeitos e com o anúncio de que Guantánamo, famosa pela brutalidade contra os alvos da guerra ao terror de George W. Bush após o 11 de Setembro, será usada para deter 30 000 ilegais. O alvo declarado das operações é gente irregular com ficha criminal, mas cai na rede qualquer indivíduo indocumentado nas imediações. ONGs do setor relatam que adultos estão faltando ao trabalho e proibindo os filhos de ir ao colégio por receio de serem detidos a qualquer momento. “Há uma clara espetacularização do processo, para dar o recado de que o cerco se fechou”, diz Fabiane Verçosa, professora de direito internacional na FGV Rio.
No meio da escalada das operações policiais, o governo baixou regras draconianas em outras duas áreas. Na Gestão de Concessões e Financiamento, que atende a população de baixa renda e cobre o Medicare, maior programa de saúde pública, ordenou o congelamento de todos os repasses até segunda ordem (a Casa Branca voltou atrás, depois de um juiz bloquear a medida). Em todas as instâncias do governo e das Forças Armadas, aboliu integralmente as iniciativas DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) — a sigla virou uma espécie de palavrão na esfera federal.
Mas nada disso se compara à caçada implacável aos imigrantes. Segundo Tom Homan, ex-chefe da ICE que Trump apontou como seu “czar da fronteira”, as batidas policiais estão só começando. “Haverá mais prisões em todo o país”, alertou em visita a Chicago para acompanhar as operações, ao lado de Emil Bove, chefe interino do Departamento de Justiça que ordenou que qualquer funcionário público ou policial que se recuse a cumprir as novas regras do cerco aos ilegais seja afastado e processado. Algumas entidades entraram com ação judicial, por exemplo, contra as batidas nas igrejas e o decreto que anula a concessão automática de cidadania americana a filhos de estrangeiros em situação irregular, um flagrante desrespeito da 14ª Emenda à Constituição — neste caso, o decreto acabou se tornando outra medida congelada temporariamente por um juiz. Em outra frente, manifestantes saíram às ruas contra as medidas de Trump no Kentucky, em Illinois e até no vermelho Texas, mas a reação, até agora, é um grão de areia no vendaval trumpista anti-imigração.

A partida dos primeiros voos de deportados em direção a seus países de origem na América Latina reforçou a mensagem — muito embora, neste caso, se tratasse de pessoas com a ordem de deportação assinada ainda no governo Biden. Na sexta 24, dois aviões militares C-17 transportaram 265 pessoas de volta à Guatemala, e mais de 4 000 mexicanos já foram obrigados a retornar. A decolagem mais barulhenta foi a que tomou a direção da Colômbia — o presidente Gustavo Petro proibiu seu pouso com uma leva de expulsos, exigindo tratamento respeitoso. Trump, na mesma hora, impôs tarifas de 25% a todos os produtos colombianos. Petro ainda ensaiou revidar, mas em menos de 24 horas mordeu a língua, baixou a cabeça e deu o caso por encerrado. “Ficou comprovado que Trump usará a pressão econômica, por meio de taxas, como ferramenta de intimidação para conseguir o que deseja”, afirma Erin Corcoran, professora de direito migratório da Universidade de Notre Dame.
Como se previa, sobrou também para o Brasil. Um grupo de 88 imigrantes viajou algemado em um avião americano que pousou em Minas Gerais, situação que o governo Lula qualificou de “degradante”. Lula chamou ao Palácio do Planalto seis ministros, incluindo Mauro Vieira, das Relações Exteriores, bem como representantes das Forças Armadas e da Polícia Federal, para consultas. O Itamaraty avalia como lidar com a situação sem criar uma crise diplomática. “A maioria dos países, incluindo o Brasil, não será capaz de enfrentar as ameaças de Trump”, alerta Niels Frenzen, da escola de direito da Universidade do Sul da Califórnia. A Casa Branca iniciou tratativas com o governo de El Salvador para terceirizar o destino dos deportados “difíceis”.

A política radical de Trump, se levada adiante no mesmo ritmo, pode ter consequências para a economia americana. De acordo com o Departamento de Segurança Interna, a população ilegal representa quase 5% da força de trabalho, compreendendo parcelas expressivas na agricultura, na construção civil, no lazer e na hospitalidade, onde a súbita e significativa escassez de mão de obra deve aumentar custos. O respeitado Peterson Institute for International Economics ressalta que essa alta, repassada aos consumidores, talvez resulte em uma disparada de nove pontos percentuais na inflação até 2028. Sem falar no impacto da megadeportação nas contas públicas — mobilizar os recursos para prender, processar e, finalmente, deportar 1 milhão de imigrantes por ano até expulsar todos eles, como antecipa o novo presidente, custará 968 bilhões de dólares ao longo de uma década. “Há ainda os custos indiretos, como a queda da arrecadação de impostos e a redução da produtividade”, diz Julia Gelatt, especialista em política de imigração do Migration Policy Institute.
Por ora, esses argumentos não encontram um grande eco no país. Em lua de mel com a maior parte do eleitorado de um país que foi construído e deve grande parte de sua prosperidade à mão de obra que veio de fora, Trump surfa na crescente rejeição aos imigrantes — dentro da onda impulsionada pelo senso comum cheio de irracionalidade, no qual os forasteiros são vistos como reles ladrões de empregos dos trabalhadores americanos e oportunistas que se aproveitam de serviços públicos, mesmo sem contribuir com impostos. Esse tipo de sentimento não toma corpo apenas nos Estados Unidos, diga-se. Por isso, ele não cansa de repetir: a ordem é prender todo mundo. Custe o que custar.
Publicado em VEJA de 31 de janeiro de 2025, edição nº 2929