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‘O Brasil vai mal’, diz Indermit Gill, economista-chefe do Banco Mundial

O indiano critica o aumento da dívida pública e afirma que os tarifaços impostos por Trump tornarão a vida dos países emergentes ainda mais difícil

Por Juliana Elias Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 7 mar 2025, 16h10 - Publicado em 7 mar 2025, 06h00

O economista indiano Indermit Gill não imaginava que o trabalho que publicou em 2007 com o colega Homi Kharas criaria uma espécie de hit econômico. Foi seu livro Um Renascimento do Leste Asiático: Ideias para o Crescimento Econômico que citou pela primeira vez a teoria da armadilha da renda média, um conceito com que o Brasil e um número grande de países se identificam. O diagnóstico é simples e poderoso: o grupo de nações que saiu da pobreza com relativa facilidade no século XX não conseguia mais, no século XXI, transitar da faixa do meio para a da renda alta. Em relatório recente, o Banco Mundial revisitou o tema e chegou a conclusões desanimadoras. A primeira é que foram poucos os países que conseguiram se livrar dessa armadilha nas últimas décadas. A segunda é que o cenário vai ficar ainda mais difícil — e o aumento do protecionismo no mundo, como as tarifas agressivas que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs sobre importações, responde em grande parte pelos novos obstáculos. Em entrevista a VEJA, Gill, que desde 2022 é o economista-chefe do Banco Mundial, falou sobre os impactos do tarifaço de Trump na economia global e explica por que considera a gestão econômica do Brasil uma das piores do mundo.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou novas tarifas sobre diversos produtos importados. Como isso afeta a economia global? O mundo viveu um regime de livre comércio muito forte por três décadas, até mais ou menos 2015, mas esse fluxo vem diminuindo e deve cair ainda mais. Falam muito dos Estados Unidos, mas não é só lá. Índia, Brasil, China, Canadá, Itália e Alemanha são só alguns dos que também aumentaram as medidas protecionistas nos últimos anos.

Qual será a consequência do aumento do protecionismo no mundo, em um movimento agora liderado por Trump? Uma das consequências é que vai ficar ainda mais difícil para países como o Brasil, que se mantiveram muito fechados quando o comércio internacional estava favorável, enriquecerem agora.

“Falam muito das tarifas dos Estados Unidos, mas não é só lá. Alemanha, Brasil, Canadá, China e Índia também aumentaram as medidas protecionistas nos últimos anos”

Os governos brasileiros resistem a uma abertura comercial maior pelo receio de que a indústria nacional sofra. É também o argumento de Trump. Qual sua opinião sobre essa política? É por essa ideia que muitas economias emergentes decidem pular direto para a fase de inovar, ou seja, de investir elas mesmas em pesquisa e desenvolvimento internamente, sem fazer antes o que chamo de infusão com outros países. Aí elas criam barreiras para proteger sua indústria da competição de fora. É um sentimento válido — ou seja, os países querem proteger os trabalhadores e as empresas de uma série de rupturas que virão se deixarem os negócios de fora entrar. Mas, ao fazer isso, a produtividade dessas nações só vai ficar cada vez menor em relação às outras. Na prática, elas estarão se afastando, e não se aproximando, do ponto em que serão realmente capazes de se abrir à competição sem sofrer algum tipo de disrupção.

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O que o Brasil poderia fazer para ser mais competitivo e crescer mais? Há alguns indicadores básicos de infusão. Um deles é quanto as exportações e importações representam do PIB, porque é por meio delas que as novas tecnologias entram no país. O segundo, da mesma maneira, são os investimentos estrangeiros diretos recebidos. O terceiro, por fim, é a troca de informações. O Brasil tem tido sucesso em atrair de volta seus empreendedores que deram certo no Vale do Silício? Eu diria que não. A Índia já foi muito ruim nisso e melhorou bastante. A China sempre foi ótima e está ficando ainda melhor. Há um evidente abismo entre o que o Brasil e os outros países estão fazendo, e isso deveria ser o suficiente, se não para mudar a cabeça do presidente Lula e dos outros, para pelo menos fazê-los abrir os olhos.

De que maneiras a abertura comercial ajuda os países a se desenvolverem? Os países que foram bem em superar a renda média foram aqueles que souberam se beneficiar do ambiente de livre comércio. A Coreia do Sul, o Chile e a Polônia são alguns deles. Eles trouxeram tecnologias de fora para dentro, pegaram emprestadas maneiras de produzir, receberam muito investimento estrangeiro. Foram aprender com quem já sabe em vez de tentar reinventar a roda, e é o comércio que permite tudo isso. A Coreia do Sul fez isso nos anos 1980 dando incentivos para as pessoas da Samsung irem para o Japão aprender a fazer televisões melhores, e não para tentarem descobrir sozinhas como fazê-las.

Ainda dá tempo para reproduzir esse modelo? Isso deveria ter sido feito nos anos 1980 e 1990. O Brasil é muito fechado até hoje. Claro que nunca é tarde para fazer a coisa certa. Se países como o Brasil se dispuserem a olhar para essas mudanças estruturais agora, pode ser que consigam um milagre e saiam da renda média.

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Que diagnóstico o senhor faz do Brasil atual? As taxas de crescimento dos países de renda média estão em evidente desaceleração, e eles ficaram mais distantes de se equipararem ao nível de renda dos mais ricos. A Índia, no ritmo atual, só deve alcançar os Estados Unidos em 75 anos — e, por alcançar, estamos falando só de chegar a 25% da renda per capita deles, porque somos realistas. Há outros em situação bem pior, como é o caso do Brasil. O Banco Mundial conta hoje 108 países de renda média, que são aqueles com PIB per capita entre 1 000 e 14 000 dólares. A renda do Brasil está hoje na faixa dos 9 000 dólares, ou algo como 15% em relação aos Estados Unidos. Se a economia brasileira continuar crescendo no mesmo ritmo das últimas duas décadas, ela vai andar para trás. Em quarenta anos, sua renda terá caído de 15% para 10% na comparação com os americanos.

O que está fazendo o país ficar para trás? Um grande problema é a produtividade, que, além de ser baixa, cresceu zero nas últimas décadas. O outro é que a proporção da dívida em relação ao PIB cresceu demais, e ela está sendo contraída em condições cada vez piores. Por causa disso, eu diria que, das grandes economias, o Brasil foi a mais mal gerida do mundo no ano passado.

Mas o PIB brasileiro cresceu relativamente bem em 2024. Não é um indicador de uma retomada? O.k., o PIB avançou 3%, mas, se está crescendo a essa taxa, o país deveria estar reduzindo a dívida, não se endividando ainda mais. O déficit brasileiro está acima dos 7% do PIB. É maior do que o de qualquer outra economia relevante. Isso é o resultado de um governo que está gastando muito mais do que os recursos que tem. Como consequência, o real está perdendo valor, e o PIB per capita brasileiro em dólares fica menor. Ou seja, é uma economia que diminui em relação às outras e fica ainda mais longe de onde deveria estar, caso queira chegar ao nível dos países de renda alta.

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Por que a dívida pública freia o crescimento? A dívida pública elevada implica altos custos com os juros. Então, uma grande parte dos impostos arrecadados está indo para pagá-los. Isso deixa menos dinheiro para infraestrutura, para escolas, e por aí vai. Um segundo canal é o da exclusão: conforme pega dinheiro emprestado dentro do país, o governo brasileiro deixa menos recursos disponíveis para o setor privado, que acaba perdendo espaço. O terceiro canal é o excesso de dívida. Uma dívida que começa a ficar insustentável leva o governo a dar calote ou, mesmo se não der, ele vai taxar mais em algum momento para pagar o que deve. O empresário já coloca isso na conta e corta investimentos.

“A proporção da dívida brasileira em relação ao PIB cresceu demais. Eu diria que, das grandes economias, o Brasil foi a mais mal gerida do mundo no ano passado”

Segundo o Banco Mundial, apenas 34 países, entre mais de 100, conseguiram sair da renda média nas últimas décadas. Por que essa é uma transição tão difícil? Em 1980, a renda média desses países, medida pelo PIB per capita, era equivalente a 6% da renda dos Estados Unidos. Hoje, quarenta anos depois, esse número está nos mesmos 6%. Essa é a armadilha da renda média. São países que foram muito bem entre os anos 1950 e 1970, quando chegaram à renda média. Depois, não saíram mais do lugar. Quer dizer, passar da renda baixa para a intermediária foi razoavelmente fácil. Sair da média e virar um país rico é algo bem mais difícil. Quando olhamos para o que está acontecendo, notamos que essa transição vai ficar ainda mais complexa.

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Quais os principais obstáculos? Muitos desses países estão com níveis de dívida muito altos. No caso do Brasil, como eu disse, o aumento foi enorme. Há também o desafio do envelhecimento da população. Na prática, significa uma proporção menor de trabalhadores e, para muitos, como o Brasil, é uma janela que está se fechando. Do lado externo, há dois outros problemas. O primeiro é que há hoje muita pressão sobre o uso dos recursos naturais. A Índia e o Brasil não vão ter o luxo de usar carvão, gerar energia ou explorar a terra como os países ricos fizeram no passado. E há um segundo elemento que é o fato de que a abertura comercial foi um fator determinante para os que conseguiram progredir, como a Coreia do Sul, mas essa também é uma janela que está se fechando.

Os emergentes que conseguiram chegar à renda alta são a exceção. O que eles tiveram em comum para conseguir? Chile, Uruguai e Panamá são alguns que foram bem. São países pequenos. Uma outra parte tem reservas enormes de óleo ou gás, como é o caso da Arábia Saudita ou do Bahrein. O Brasil até tem também, mas não o suficiente para enriquecer 200 milhões de pessoas. Há ainda os que não são exatamente um paraíso democrático, como Singapura e Hong Kong. São condições particulares e nenhuma funciona para o Brasil.

Quais são as semelhanças entre os países que não conseguem enriquecer? São economias pouco eficientes. Elas já investiram relativamente bastante em capital físico, como infraestrutura, e em capital humano, como em educação ou saúde. Nossas estimativas são de que a disponibilidade desses recursos por trabalhador, nesses países, seja o equivalente a 70% da dos Estados Unidos, só que a produtividade deles, que é o quanto cada trabalhador produz, é 20% a dos Estados Unidos. Quer dizer, se esses países tivessem a mesma eficiência dos americanos, deveriam ter, pelo menos, 70% da renda deles, mas estão bem longe disso.

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Como solucionar o problema? É preciso pensar em um novo ciclo de crescimento que dure mais do que um boom de commodities. Dez anos atrás, talvez tivesse sido mais fácil enriquecer, mas já era difícil. Nos próximos dez, será ainda mais desafiador.

Publicado em VEJA de 7 de março de 2025, edição nº 2934

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