‘Os EUA violam regras’, diz embaixador da China no Brasil sobre tarifas de Trump
Zhu Qingqiao vê colisão com normas da OMC em movimento que, segundo o diplomata, freia a inovação e já traz um novo arranjo de forças

À frente da embaixada da China no Brasil desde 2022, Zhu Qingqiao, de 56 anos, acumula uma jornada de mais de três décadas na diplomacia — período em que comandou representações no México e em Moçambique e afiou seu pendor para línguas. O português fluente ele já havia treinado em Brasília, onde teve duas passagens antes de assumir o posto de embaixador, justamente num momento em que o tabuleiro da geopolítica global anda trepidante e os chineses procuram aprofundar os laços com o país. De fala tranquila e terno irretocável, Zhu, que já apertou mãos de todos os matizes nos corredores do poder nacional, não escapou, na demorada entrevista que concedeu a VEJA, dos espinhosos temas da atualidade, disparando sem meias-palavras contra o afã protecionista do governo Donald Trump e reforçando que a China segue firme no jogo da inovação.
Qual a avaliação de Pequim sobre a política tarifária encabeçada pelo governo de Donald Trump? Essas ações tomadas por Washington são exemplos evidentes do unilateralismo e do hegemonismo que claramente violam as regras da Organização Mundial do Comércio, abalam a estabilidade das cadeias globais e impedem o desenvolvimento das economias, despertando apreensão e repúdio ao mesmo tempo. Para nós, guerras comerciais e tarifárias não têm vencedores. O que os Estados Unidos estão fazendo é exercer pressão de forma arbitrária sobre os outros países.
A China vai revidar sempre que os americanos baixarem uma nova leva de impostos? A ideia é responder, mas com medidas razoáveis e contidas, relacionadas a produtos e setores específicos, sem a intenção de afetar mais nações. A constante ameaça dos Estados Unidos de impor mais tarifas é uma tática irresponsável de transferência de culpa. Acusações de que a China tem uma parcela de responsabilidade pela entrada de fentanil em solo americano são inadequadas.
Acha que, no médio prazo, essa política será danosa à economia americana? Eles já estão sofrendo as consequências do seu protecionismo comercial. Os fatos demonstram, e continuarão a demonstrar, que a elevação dos impostos não deixará os Estados Unidos grandes novamente, mas apenas trará prejuízo ao país.
“Para nós, guerras comerciais e tarifárias não têm vencedores. O que os Estados Unidos estão fazendo é exercer pressão de forma arbitrária sobre os outros países, incluindo a China”
Para a China, essas medidas representam um freio ao crescimento? Estabelecemos para 2025 uma meta de crescimento igual à do ano passado, 5% do PIB. Uma marca que atingimos, aliás, superando dificuldades, inclusive sanções externas. A ideia é colocar para frente uma modernização ao estilo chinês da economia, que apresentou força para alcançar o planejado, mesmo em um contexto de avanço lento da riqueza global. A aposta é em consumo interno, valendo-nos dos atuais 400 milhões de chineses com renda média, e no incentivo a ciência e inovação.
Como contornar as crescentes restrições tecnológicas de americanos e europeus à indústria chinesa? A abertura é um acelerador do desenvolvimento tecnológico, e o isolamento, um obstáculo à inovação. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se tornaram potência global na área justamente por incorporar talentos e ideias do mundo todo. Mas hoje agem na contramão. Ampliam o conceito de segurança nacional, reprimem o avanço de empresas estrangeiras e vetam o intercâmbio de cientistas e pesquisadores, privando a China e outros países de seu legítimo direito ao progresso.
Essa é uma preocupação na China? Muros altos não podem anular o pensamento inovador. Os Estados Unidos acabarão isolando a si mesmos e fortalecendo ainda mais nossa determinação em encontrar nosso próprio caminho na resolução dos complexos desafios da humanidade.
Até que ponto faz sentido a acusação de que empresas chinesas como Huawei e TikTok trazem risco à segurança e à privacidade? Não faz sentido nenhum. Eles exageram a concepção de segurança e imprimem um viés político à troca na área da ciência, da tecnologia e do comércio. É um pretexto para inibir o crescimento das empresas chinesas. A China nunca exigiu, nem exigirá, que empresas ou indivíduos de fora lhes forneçam dados. O governo dos Estados Unidos não trouxeram até o momento qualquer evidência de que o TikTok ameace a segurança nacional. Neste caso, estão negando princípios básicos da economia de mercado que tanto dizem defender.
O retorno de Trump à Casa Branca pode acabar impulsionando outros blocos, como os Brics? Na verdade, independentemente de qualquer coisa, os Brics são um símbolo muito claro do nosso tempo, uma expressão dessa ascensão coletiva do Sul Global, desse rearranjo de forças do qual a China faz parte como país em desenvolvimento.
Do ponto de vista do intrincado tabuleiro da geopolítica, o quanto o Brasil interessa à China? Completamos com o Brasil meio século de relações diplomáticas no ano passado. E, quanto mais instável o mundo, mais preciosa se torna a cooperação entre os dois países. Nos últimos tempos, ela tem se expandido muito em áreas para além dos setores tradicionais.
Quais setores brasileiros mais atraem a China? Ampliamos de áreas como infraestrutura, energia elétrica e mineração para indústrias emergentes, o que abrange energia limpa, agricultura inteligente, tecnologia de telecomunicações e manufatura avançada. A China é uma das principais fontes de investimentos no Brasil e eles crescem em ritmo veloz. Do lado brasileiro, esperamos que estudem as políticas macroeconômicas e o desenvolvimento a longo prazo de nosso país para estreitarmos cada vez mais os laços.
Como Pequim pretende reverter a percepção de que a China oferece um ambiente imprevisível para os negócios, dadas as interferências do governo? Em sessão plenária no ano passado, o Comitê Central do Partido Comunista tomou a importante decisão de aprofundar a reforma que já empreendemos, exatamente para impulsionar a modernização, sempre ao estilo chinês. A ideia embutida aí é criar um ambiente ainda melhor para os negócios. Poucos países têm uma economia tão promissora, com plano de longo prazo, que é o que traz previsibilidade.
Então não falta transparência a Pequim? Não. Está tudo muito claro em relatórios do governo sobre as medidas que estamos tomando. Por isso, insisto em que é preciso estudar a política, tem que ir lá pessoalmente ver a estratégia de desenvolvimento chinês, para tirar dúvidas e dirimir preocupações muitas vezes sem fundamento.
A China avança nas tecnologias verdes, mas ainda depende da queima de carvão como combustível. O que é realista esperar desta transição no futuro próximo? A China é um país com generosas reservas de carvão, estimadas em cerca de 130 bilhões de toneladas — o equivalente a 13% do total mundial. Durante muitos e muitos anos, o carvão teve um papel central no consumo da energia do país, mas agora estamos em plena transição, dentro da meta de atingir o pico de emissões de carbono até 2030 e cair a partir daí, atingindo a neutralidade em mais três décadas. Já representamos mais de 40% de toda a capacidade de energia renovável globalmente.
Na área da inteligência artificial (IA), a China tem estofo tecnológico para ultrapassar os Estados Unidos? A China vem promovendo ativamente o desenvolvimento e a inovação da inteligência artificial, área à qual atribui grande importância. O país conta com mais de 4 500 empresas do setor, uma fatia de quase 15% do total no mundo. A estimativa é que, até 2030, a IA irá gerar um impacto econômico de 1,5 trilhão de dólares, catalisando mais fenômenos como o DeepSeek. Estamos no caminho para desenvolver uma nova geração de produtos inteligentes, como carros elétricos conectados à internet e computadores e smartphones com sofisticada inteligência artificial. Mas a ideia da China não é ultrapassar ninguém.
“Quanto mais instável o mundo, mais preciosa se torna a cooperação entre chineses e brasileiros. Nos últimos tempos, ela tem se expandido muito em setores para além dos tradicionais”
Pequim prevê uma série de lançamentos de foguetes e satélites neste ano, competindo com empresas como a Starlink, de Elon Musk. O espaço é a próxima fronteira? A exploração espacial é uma fronteira vital para o desenvolvimento tecnológico e da inovação, além de representar uma força motriz para a evolução da própria civilização. O programa espacial da China tem avançado rapidamente. Buscamos acompanhar as tendências globais do setor e servir ao sonho comum da humanidade de explorar o universo. Só espero que o espaço não se transforme em uma nova arena de confronto entre grandes potências.
As tratativas para o cessar-fogo na Ucrânia estão em andamento, e o ministro das Relações Exteriores chinês disse acreditar que “uma janela para a paz está se abrindo” a Kiev, ao mesmo tempo que defendeu uma “parceria sem limites” com Moscou. Qual é, afinal, a posição de seu país? Desde o primeiro dia, a China defendeu as negociações em busca de uma solução que leve à paz duradoura. A Rússia é o maior vizinho da China e os dois países constituem os principais mercados emergentes do planeta. Em paralelo, os chineses têm sido os maiores parceiros comerciais da Ucrânia. Neste cenário, continuaremos a manter uma posição objetiva e equilibrada em prol de um ponto-final na guerra.
Seu antecessor no cargo de embaixador teve atritos públicos com o governo Jair Bolsonaro, chegando a acusar um dos filhos do ex-presidente de “insultos maléficos” e de haver contraído um “vírus mental”. Na diplomacia, às vezes é preciso subir o tom? Não. A missão do diplomata é promover entendimento mútuo e recíproco entre os dois lados.
Passados cinco anos da pandemia, serviços de inteligência de países como Alemanha e Estados Unidos seguem afirmando que a covid-19 teve origem em um acidente de laboratório na cidade de Wuhan. Procede? A investigação sobre a origem do vírus da covid-19 é uma questão científica séria, e a China sempre adotou uma postura técnica e transparente aí, apoiando uma vasta apuração global. Convidamos até equipes de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) para realizar suas pesquisas em solo chinês. Atualmente, há cada vez mais evidências que apontam múltiplas origens do vírus pelo mundo — conclusão que conta com amplo reconhecimento da comunidade científica internacional. É preciso que toda essa politização da questão chegue a um fim e que as difamações cessem. Devemos respeitar os fatos longe dos preconceitos ideológicos.
Publicado em VEJA de 28 de março de 2025, edição nº 2937