‘Redefinimos a visão da obesidade’, diz ‘pai’ do Ozempic
O CEO do laboratório Novo Nordisk fala sobre as novas linhas de pesquisa para remédios contra doenças como o Alzheimer

A história da indústria farmacêutica — e a da própria sociedade — pode ser contada por meio dos medicamentos que mudaram paradigmas de tratamento, encheram os cofres das empresas e provocaram comoção do público. O antidepressivo Prozac, lançado nos anos 1980, e o comprimido para impotência sexual Viagra, comercializado a partir da década de 1990, integram essa seleta lista de divisores de água. No século XXI, um dos candidatos a virar um marco desse tipo é o Ozempic, que tem como princípio ativo a semaglutida e foi desenvolvido pelo laboratório dinamarquês Novo Nordisk. Indicado para o controle do diabetes, ele virou sonho de consumo quando se descobriu seu poder contra a obesidade. Pudera: com injeções semanais da droga, que ganhou uma versão para o excesso de peso, pacientes conseguem enxugar em mais de 15% os quilos corporais num prazo relativamente curto de tempo. Não à toa, a Novo Nordisk se tornou o segundo maior laboratório do mundo em valor de mercado — só atrás da concorrente Eli Lilly —, registrando um crescimento de 30% no último trimestre de 2024. No comando dessa operação avaliada em 260 bilhões de dólares está o dinamarquês Lars Fruergaard Jørgensen, de 58 anos, no grupo desde 1991. Da sede da centenária companhia, ele concedeu entrevista exclusiva a VEJA, em que examina os progressos da nova geração de terapias para obesidade e outras doenças.
Quais lições sua companhia tirou do sucesso do Ozempic? É interessante notar como todos nós somos impactados pela nossa própria experiência e pelos nossos vieses. Quando lançamos o primeiro remédio para obesidade, a liraglutida, e ele se tornou o principal medicamento nesse contexto, ainda estávamos vivenciando um processo de construção gradual. Mas, com a semaglutida, o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, pela primeira vez na história começamos a ver um grande número de pacientes se mobilizando e buscando atendimento.
Em que momento vocês perceberam que estavam diante de um remédio com potencial revolucionário? Antes da semaglutida, havíamos colocado no mercado uma medicação para diabetes que também tinha efeito na redução do peso. Nessa primeira experiência, não tivemos uma perda de peso tão expressiva. Então continuamos pesquisando e trabalhando. E a grande revolução veio com a semaglutida, quando enxergamos seu potencial de emagrecimento.
Qual foi o impacto disso na medicina? Essa descoberta redefiniu completamente a visão da obesidade como uma doença que poderia ser tratada com medicamentos eficazes. Daquele momento em diante vivemos uma jornada de crescimento muito agressiva, que também atraiu bastante concorrência. Nós abrimos caminho a um novo entendimento sobre o controle do excesso de peso e a uma grande oportunidade comercial.
“Houve uma demanda enorme por essa medicação. Talvez não tenhamos investido o suficiente para esclarecer os riscos. Estamos dando total atenção a isso agora”
No início, houve alguma resistência por parte dos médicos? Cada vez mais eles passaram a prescrever o tratamento, assim como as fontes pagadoras tornaram-se dispostas a custeá-lo. Então, o que defendíamos por tanto tempo de repente aconteceu. Agora éramos capazes de propiciar uma redução de bem mais do que 10% no peso corporal e inclusive conferir proteção cardiovascular aos pacientes.
De cunho negativo, a expressão “rosto de Ozempic” passou a ser usada para criticar a cultura deslumbrada em torno dessa terapia de emagrecimento, o que gerou excessos no uso do medicamento. Como a Novo Nordisk lida com esse efeito colateral, em termos de imagem? De fato, houve um crescimento impressionante na demanda. Então talvez não tenhamos investido o suficiente nessa frente de esclarecer e ponderar os riscos, algo para o qual temos direcionado muita atenção agora. Isso também aconteceu com nosso principal concorrente (o laboratório Eli Lilly). Mas é fácil falar em retrospectiva. Então talvez seja uma situação esperada para esse mercado. A partir do momento em que conhecemos e assumimos os riscos envolvidos, podemos alocar investimentos nessa direção.
Quais os projetos da Novo Nordisk para novos medicamentos voltados à obesidade? Eu diria que já temos uma forte posição no mercado de tratamentos para obesidade. E vamos continuar evoluindo. Estamos investindo bastante em medicamentos que combinam princípios ativos e poderão ter resultados clínicos melhores do que o uso de uma molécula sozinha. Estamos animados com o que poderemos conseguir com essa nova geração.
O novo governo Trump, com seu plano Make America Healthy Again (“faça os Estados Unidos saudáveis de novo”), se diz comprometido a combater a “epidemia” de obesidade, mas questiona o papel das drogas para perda de peso. O que tem a dizer sobre essa posição? Também temos, em grande medida, essa aspiração de tornar os Estados Unidos saudáveis de novo. Muitas das declarações recentes vão ao encontro da nossa agenda. Por exemplo, sabemos da importância de um olhar para a obesidade desde a infância e temos vários projetos focados na prevenção do problema. É muito mais difícil tratar a obesidade e mudar o peso corporal em alguém que já cresceu. O ideal é intervir mais cedo, investindo em prevenção. Até porque os sistemas de saúde não têm capacidade de comprar e fornecer remédios a tantas pessoas acima do peso.
Políticas mais efetivas de prevenção são capazes de resolver a epidemia de obesidade? Precisamos reconhecer que, para alguns indivíduos que se encontram em estado mais crítico, não é possível esperar: eles precisarão de tratamento. Se evitarmos a obesidade em larga escala, conseguiremos ter a capacidade de tratar a parcela que realmente precisa de remédios. Estamos comprometidos com esse objetivo de abordar um desafio tão significativo, capaz de prejudicar a qualidade de vida e a produtividade de tantas pessoas, sem falar em seus impactos na força de trabalho e nos gastos do sistema de saúde.
O Brasil se tornou um dos cinco principais mercados de atuação para a Novo Nordisk. Quais os planos da companhia para o país? Sim, o Brasil é um dos mercados-chave para nós. Eu diria que é um dos poucos lugares no mundo em que temos nossa cadeia de valores completa. Fazemos pesquisa e desenvolvimento, fabricamos produtos, temos uma operação de exportação significativa. É um dos mercados em que mais investimos.
Medicamentos de última geração, como a semaglutida, são caros demais para grande parte da população brasileira. Como manter os investimentos da empresa por aqui, dentro desse contexto? O que nós queremos é estabelecer parcerias com os governos para garantir que nossos medicamentos sejam usados da maneira correta e possamos prevenir doenças no longo prazo. Nossa visão se baseia em fortalecer a resiliência da saúde da população. E, ao apoiar a economia local e criar empregos, contribuímos para sustentar também um ecossistema mais forte, onde todo mundo tem a ganhar.
Há 100 anos, a Novo Nordisk ajudou a reescrever a história do diabetes com o desenvolvimento das insulinas. Agora está buscando mudar a história da obesidade. O que virá a seguir? Bem, é nessa linha que expandimos a companhia. Quando começamos a trabalhar mais fortemente com diabetes tipo 2 e obesidade, também abrimos oportunidades de oferecer benefícios com nossas medicações a outras doenças, como as cardiovasculares, as renais e as hepáticas. Sabemos que nossos produtos têm um perfil mais robusto de prevenção a problemas cardíacos, por exemplo. Então estreitamos o contato com os cardiologistas a fim de construir um portfólio nessa seara.
Há mais projetos nessa linha? Raciocínio semelhante nos move em direção à doença hepática gordurosa não alcoólica (popularmente chamada de gordura no fígado, ela afeta cerca de 30% da população e pode levar o órgão à falência). Estamos conseguindo criar pontes a partir das novas indicações dos nossos remédios e já começamos a desenvolver moléculas em torno dessas propostas.
Quais as outras principais linhas de pesquisa do laboratório? Temos uma linha de estudo voltada a doenças raras. Com projetos de tratamento muito interessantes para controlar condições difíceis e por vezes dolorosas, como a hemofilia e a anemia falciforme (distúrbios genéticos do sangue que podem provocar sangramentos, no primeiro caso, e anemia e dores pelo corpo, no segundo). Então, muito além dos campos do diabetes e da obesidade, projetamos um futuro de forte crescimento para terapias voltadas a doenças raras.
“Se evitarmos a obesidade em larga escala com políticas de prevenção, conseguiremos ter a capacidade de tratar a parcela que realmente precisa de remédios”
Um dos grandes desafios de saúde pública hoje — e ainda carente de boas opções terapêuticas — é a doença de Alzheimer. Vocês investigam a própria semaglutida também para essa condição. O que podemos esperar por aí? Aguardamos para o fim deste ano a leitura da fase final de estudos clínicos com a semaglutida no tratamento do Alzheimer. Quando você olha para o desenvolvimento de terapias para essa doença, vê um campo difícil, de alto risco, com muitas iniciativas falhando.
Mas há esperança de sucesso? Sim. A semaglutida tem um efeito anti-inflamatório, capaz de melhorar o fluxo sanguíneo para o cérebro. Sabemos que o diabetes tipo 2, a obesidade e a doença cardiovascular tornam as artérias, inclusive os pequenos vasos cerebrais, mais rígidas. Nossa expectativa é que, ao estimular o fluxo sanguíneo também para o cérebro, possamos desacelerar a progressão da doença de Alzheimer.
Seria outro momento divisor de águas para vocês e o mundo? Se pudermos demonstrar isso nos estudos, seria realmente emocionante. Veja, meu pai tem diabetes e acabou de ser diagnosticado com Alzheimer ainda em fase inicial. Percebo no dia a dia como sua função cognitiva é impactada pela doença. Agora ele está tomando semaglutida, e eu torço para que consigamos frear a evolução do quadro. Ver pessoas mais velhas com o diagnóstico de Alzheimer e outras demências é realmente devastador.
Publicado em VEJA de 14 de março de 2025, edição nº 2935