Afastamento do presidente da Alerj antecipa disputa pelo governo do Rio
A derrocada de Bacellar foi imediatamente acompanhada da movimentação de novas peças no tabuleiro da política fluminense
Nas últimas décadas, a política do Rio de Janeiro não se cansou de dar mostras de uma lamentável capacidade de produzir situações inusitadas e pouco republicanas. Nada menos que cinco governadores acabaram presos e um afastado do cargo, desencadeando um frenético troca-troca de cadeiras embalado por complexos jogos sucessórios. Nenhum xadrez, no entanto, se revelou tão intrincado quanto o que se apresenta agora, após o afastamento do todo-poderoso presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar (União Brasil). Acusado de vazar informações sobre uma operação policial que investigava o deletério elo entre a política e o tráfico para seu principal alvo — o ex-deputado Thiego Santos Silva, conhecido como TH Joias —, o então mandachuva da Alerj chegou a ser preso, mas foi liberado menos de uma semana depois por decisão de 42 de seus 69 colegas de Casa. Por determinação de Alexandre de Moraes, à frente do processo no STF, ele seguirá longe do vistoso cargo e terá de usar tornozeleira eletrônica, além de estar impedido de fazer contato com os demais investigados.
A derrocada de Bacellar foi imediatamente acompanhada da movimentação de novas peças no tabuleiro da política fluminense, já de olho na mais cobiçada cadeira do estado, em 2026. As discussões em torno da sucessão de Castro foram antecipadas por ele próprio, que, cumpridos dois mandatos e sem poder se reeleger, pretende se lançar a uma das duas vagas em disputa no Senado e tem de entregar o cargo até abril do ano que vem, conforme define a lei eleitoral. Um detalhe nada desprezível, porém, nubla o horizonte: o Rio não tem hoje vice-governador, já que o ex-dono do posto, Thiago Pampolha, foi nomeado para o Tribunal de Contas do Estado justamente com o objetivo de abrir caminho para Bacellar — o próximo na linha sucessória. Ele teria assim a caneta na mão e boas condições de brigar nas urnas para manter o cargo.
Mas tudo se embaralhou desde então. Se à época o presidente da Alerj era aliado de Castro e contava com o apoio do clã Bolsonaro, o vento virou quando ele decidiu, sem consultar ninguém, demitir um secretário durante breve temporada no comando do Palácio Guanabara, em meio a uma viagem do governador. O episódio rachou o campo conservador, e Castro cogitou inclusive cumprir o mandato até o fim, só para não ceder a vaga para o agora desafeto. “Não contávamos que o impasse fosse resolvido pela PF”, reconhece um cacique do PL, que até pouco tempo atrás quebrava a cabeça para arquitetar uma saída salomônica para a querela.
Epicentro do terremoto que chacoalha as placas tectônicas da política local, a Alerj detém a chave para equacionar a crise. Isso porque a peculiar situação obrigará o próximo mandatário, seja ele quem for, a passar pelo escrutínio dos deputados, em votação indireta. Com o presidente da Casa afastado, quem assume o cargo em caso de vacância é o presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto, o quarto na hierarquia do poder. Uma vez empossado, ele protocolarmente terá de convocar o pleito. A ordem que emana do Guanabara agora é para a base aliada preservar a institucionalidade e atuar para garantir que o escolhido seja alguém da confiança do chefe do Executivo. E um nome já desponta na corrida — Nicola Miccione, o chefe da Casa Civil. Discreto, fiel e de perfil técnico, ele é tido como um quadro capaz de dar continuidade à gestão, sem solavancos que desagradem o governador e sua turma. “Nicola já até encomendou o terno”, brinca Washington Reis, o ex-secretário de Transportes despachado por Bacellar, dando como certa a indicação do correligionário.
Por trás das cortinas, contudo, deputados do mesmo PL do governador já fizeram chegar a seus ouvidos que não estão dispostos a escolher um quadro com baixo capital eleitoral, que nunca disputou cargo público e teria escassas chances de emplacar na eleição para valer, em outubro. Diversos nomes referendados pelas urnas buscam a unção dos caciques do PL. Antes da prisão que abalou os alicerces da Assembleia, Castro e o deputado federal Altineu Côrtes, presidente estadual da sigla, se reuniram com lideranças para debater o tema. Entre os presentes estavam Marcelo Delaroli, o prefeito de Itaboraí, na região metropolitana, e Douglas Ruas, secretário de Cidades, dois dos mais votados no Rio. Indagados sobre a possibilidade de serem indicados, o primeiro se mostrou disponível, mas pregou cautela, e o segundo externou o desejo de continuar deputado e assumir a presidência da Alerj.
No caldo das especulações, expoentes de outras legendas emergem nas rodas de conversa. Um deles é o deputado federal Doutor Luizinho (PP), que vinha costurando uma candidatura única à direita para fazer frente ao prefeito carioca Eduardo Paes (PSD), o favorito nas pesquisas, mas tem dito a interlocutores que prefere a reeleição e sonha com a presidência da Câmara dos Deputados, em 2027. Outro nome ventilado é o do ex-integrante do Bope Rodrigo Pimentel, conhecido por inspirar o personagem Capitão Nascimento no filme Tropa de Elite. Embora admita sondagens de siglas de direita, por ora ele nega a disposição de entrar no páreo. Em meio às indefinições, uma coisa parece certa: é Castro quem deve dar a palavra final. Antes enfraquecido, ele recobrou terreno em razão de operações contra o crime organizado que alavancaram sua popularidade. Como os meses até o pleito são uma vida na política, muita água ainda há de rolar na dança das cadeiras fluminense.
Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2025, edição nº 2974






