Carta ao Leitor: Forças dominantes
Na teoria, a terceira via é promissora. Na prática, ela suga estrelas que tentam ter luz própria fora do campo magnético da polarização
Na teoria, a terceira via existe — e é promissora. Os favoritos Lula e Flávio Bolsonaro enfrentam rejeição da maior parte dos brasileiros e fatia considerável da população se declara farta da radicalização entre direita e esquerda. Na prática, porém, a via alternativa mais se parece com um buraco negro político, que suga estrelas que tentam ter luz própria fora do campo magnético da polarização, tema abordado em diversas reportagens de capa de VEJA. O pleito de 2022 já havia mostrado com clareza o fenômeno. Na ocasião, nada menos que onze nomes se apresentaram tentando preencher o espaço. Um deles foi o do apresentador global Luciano Huck. No PSDB, João Doria venceu as prévias do partido e abandonou o governo de São Paulo para iniciar campanha, mas acabou sendo obrigado a abortar a empreitada logo depois, por falta de apoio. Quem tentou ocupar esse lugar foi a senadora Simone Tebet, então no MDB, que obteve apenas 4,16% dos votos no primeiro turno.
Nas eleições deste ano, Gilberto Kassab, presidente do PSD, elevou a um patamar inédito o investimento na terceira via feito por uma só sigla, apresentando como postulantes os governadores Eduardo Leite (Rio Grande do Sul), Ratinho Junior (Paraná) e Ronaldo Caiado (Goiás). O movimento chamou atenção, visto que Kassab é tido como um dos políticos mais hábeis nos bastidores e dos mais inteligentes na avaliação de cenários futuros. Dentro dessa mística criada a respeito dos poderes quase sobrenaturais do cacique partidário (um exagero evidente), a aposta tripla indicaria finalmente a viabilidade de ascensão de alguém do chamado centro democrático na corrida ao Palácio do Planalto.
Ocorre que as notícias recentes sobre o plano não são nada animadoras. Ratinho Junior era considerado o nome mais promissor do trio. É um dos governadores mais bem avaliados do país, pega carona na popularidade do pai, o apresentador Ratinho, e vinha pontuando bem melhor que Caiado e Leite nas pesquisas. De forma surpreendente, depois de se declarar disponível para enfrentar a campanha e às vésperas do anúncio oficial da candidatura, ele desistiu de concorrer. Reportagem desta edição revela os bastidores da decisão e analisa as barreiras que hoje parecem quase intransponíveis para a viabilidade de uma terceira via, em meio a um período eleitoral marcado pelos confrontos entre as duas maiores lideranças populares da história recente do Brasil, Lula e Jair Bolsonaro (como se sabe, o ex-presidente, que está preso, será representado agora nas urnas pelo filho Zero Um). Tudo indica que teremos neste ano a terceira edição da disputa entre essas duas grandes forças políticas.
Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988





