PF faz acareação entre Vorcaro e ex-presidente do BRB no caso Master
Conglomerado Master detinha 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais do Sistema Financeiro Nacional
A delegada da Polícia Federal responsável pelo caso do Banco Master Janaína Palazzo convocou para a noite desta terça-feira, 30, uma acareação entre o dono da instituição financeira liquidada Daniel Vorcaro e o ex-presidente do Banco de Brasília, o BRB, Paulo Henrique Costa. Depois de quase sete horas de oitivas feitas separadamente em um anexo do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, a policial decidiu explorar o que considerou contradições entre ambos. De acordo com interlocutores com acesso aos depoimentos de hoje, foram feitas apenas três perguntas no confronto de versões entre os dois investigados.
Começaram pouco depois das 14 horas os depoimentos de Vorcaro, dono do Master, do ex-presidente do Banco de Brasília e do diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos. Vorcaro chegou ao STF ainda de manhã acompanhado por um advogado. As oitivas terminaram na noite desta terça, e Aquino foi dispensado do procedimento de acareação.
Os depoimentos foram presenciais e atenderam a uma determinação do ministro Dias Toffoli, relator do inquérito que apura suspeitas de irregularidades na gestão do Master e na tentativa de venda da instituição financeira para o BRB. O Banco Central não autorizou o negócio e decretou em novembro a liquidação do Master, situação extrema em que os contratos são suspensos, os créditos têm o vencimento antecipado e um liquidante é chamado para vender ativos para pagar credores lesados.
De acordo com o Banco Central, o chamado Conglomerado Master detinha 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais do Sistema Financeiro Nacional.
Segundo as investigações sobre o caso, o BC identificou um fluxo atípico de recursos no valor de 12,2 bilhões de reais do BRB para o banco de Vorcaro nos primeiros meses do ano. O episódio acendeu um sinal de alerta junto à autoridade monetária, que passou a exigir informações das duas instituições. Com o avanço das apurações, descobriram-se indícios de cessão irregular de créditos e escrituração contábil com evidências de fraude. Para o juiz Ricardo Leite, que chegou a decretar a prisão de Daniel Vorcaro em novembro, “as demonstrações financeiras e contábeis não refletiam com fidedignidade e clareza a real situação econômico-financeira da instituição”, o que abre caminho para acusações de crimes contra o sistema financeiro nacional.
Conforme a Polícia Federal, “a hipótese investigativa levantada é a de que a solução do Grupo Master para aportar recursos muito superiores à sua produção histórica e que fossem capazes de cobrir o rombo de 12 bilhões consistiu em se associar, ilicitamente, a uma Sociedade de Crédito Direto com o objetivo de inflar seu patrimônio artificialmente por meio da aquisição de carteiras de créditos inexistentes e revendê-las ao BRB”. Foi o elemento que faltava para a deflagração da Operação Compliance Zero, que apura uma das maiores fraudes financeiras da história do país, ancorada em uma carteira bilionária de créditos podres ou fictícios.
Ainda de acordo com as investigações, o Master emitia CDBs e outros títulos com taxas acima do mercado para captar clientes e se financiar – só no início deste ano, essas operações já superavam a casa dos 50 bilhões de reais. Na sequência, o banco anunciava que o dinheiro seria aplicado em operações de crédito. O problema, concluiu a PF, é que ao menos 12 bilhões de reais não possuíam lastro ou estavam vinculados a papeis podres.
Entre críticos do governo, Vorcaro é conhecido por seus laços com o Centrão, dada sua proximidade com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), com o senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI), com o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) e com o presidente do União Brasil, Antônio Rueda. Nogueira, por exemplo, é padrinho de um projeto que ampliava para 1 milhão de reais o valor da indenização paga pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para portadores de CDBs de bancos com dificuldades em honrar seus compromissos, proposta que, aos olhos de hoje, cairia como uma luva para o Master. Desde que foi criado, em 1995, o FGC já cobriu a quebra que 40 bancos, mas o aporte para tapar o rombo do Master é projetado como o maior da história do país.





