O eterno conflito entre Lula e os caciques do PT
Partido acumula histórico de tentativas de interferência na formação de palanques nos estados como as que se desenham na Bahia e no Ceará em 2026
Como mostra reportagem de VEJA em sua última edição, a simples possibilidade de o PT perder a hegemonia em redutos nordestinos resultou na elaboração de planos de contingência para, se houver necessidade, escalar ministros estratégicos do governo para disputar os Executivos da Bahia e do Ceará.
A movimentação, por ora restrita ao campo da teoria, tem potencial para abrir novos capítulos no extenso histórico de contendas entre o comando nacional do PT, sempre alinhado aos desígnios de Lula, e caciques do partido nos estados.
Muitas vezes, correligionários do presidente se recusam a baixar a cabeça para as tentativas de interferência nos arranjos locais. Da mesma forma, o medidor de sucesso de Lula para determinar se uma intervenção foi bem sucedida será, via de regra, seu próprio êxito nas urnas, o que nem sempre coincide com a vitória eleitoral dos nomes impostos a lideranças locais.
O próprio diretório da Bahia, estado governado desde 2007 pela sigla, acumula casos de resistência a tentativas de ingerência da cúpula petista em Brasília.
Em uma situação muito parecida com a atual, Lula insistia, em 2022, para Jaques Wagner voltar a disputar a eleição ao Palácio de Ondina.
O senador bancou a escolha do até então desconhecido secretário estadual da Educação, Jerônimo Rodrigues, que reverteu uma superioridade abismal do ex-prefeito de Salvador ACM Neto nas pesquisas e elegeu-se governador.
Já em São Paulo, Lula mandou Fernando Haddad para o sacrifício contra Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ele sabia que o hoje ministro da Fazenda reunia chances quase nulas de chegar ao Palácio dos Bandeirantes, mas se aproveitou da extensão da disputa ao segundo turno para seguir sua própria campanha presidencial no maior colégio eleitoral do país, recuperando votos decisivos para derrotar Jair Bolsonaro no plano nacional.
Quatro anos antes, em 2018, a então presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, queria encaixar Lídice da Mata (PSB) na chapa de Rui Costa, que, à época, buscava mais quatro anos na chefia do Executivo baiano. Jaques Wagner bateu o pé e o candidato ao Senado naquela vaga foi Angelo Coronel (PSD), que acabou eleito.
No mesmo ano, o então governador do Ceará Camilo Santana, hoje ministro da Educação, peitou a demanda de Gleisi para acomodar José Pimentel em sua chapa para o Senado e, em nome de alianças locais, deu o posto a Eunício Oliveira (MDB). O emedebista ficou em terceiro lugar, perdendo a segunda vaga para Eduardo Girão por cerca de 12.000 votos.
Outro climão do PT nacional com o diretório da Bahia se deu em torno do desejo de Lula, em 2014, de emplacar o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli como candidato do partido a governador do estado, depois de oito anos de mandato de Jaques Wagner. O então governador não aceitou a intervenção e lançou Rui Costa para ser seu sucessor.
Em mais um caso traumático, Lula impediu Olivio Dutra de concorrer à reeleição para o governo do Rio Grande do Sul em 2002, impondo a candidatura de Tarso Genro. O substituto petista foi derrotado por Germano Rigotto (MDB).






