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Protestos e troca de acusações marcam batalha eleitoral antecipada em Pernambuco

A governadora Raquel Lyra e o prefeito João Campos acirram a disputa, pontuada por pedidos de impeachment e ataques

Por Pedro Jordão Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 8 fev 2026, 08h00 •
  • Na segunda-feira 2, enquanto discursava na Assembleia Legislativa de Pernambuco na reabertura dos trabalhos do parlamento, a governadora Raquel Lyra (PSD) foi vaiada pela oposição, que entoava o grito “Raquel prometeu, não cumpriu”, em referência às 250 creches que disse que entregaria — a primeira ficou pronta no fim de 2025. No dia seguinte, foi a vez de o prefeito do Recife, João Campos (PSB), ser alvo de um barulhento protesto, com faixas e cartazes de “fora, João” em frente à Câmara Municipal enquanto era lido um pedido de impeachment contra ele por crime de responsabilidade. Os dois acontecimentos não são episódios isolados na política local recente, mas parte de uma batalha campal instaurada no cenário pré-eleitoral, com duras trocas de acusações entre os dois principais concorrentes ao governo do estado em outubro. A guerra, que já se desenrolava no Ministério Público e na Polícia Civil locais, chegou ao Supremo, em Brasília, e já bateu na Polícia Federal.

    Ex-aliados e membros de um mesmo partido no passado, o PSB, Raquel Lyra e João Campos vêm de famílias tradicionais (João Lyra, pai de Raquel, foi vice-governador de Eduardo Campos, pai de João), mas hoje polarizam a política local. A temperatura começou a subir em dezembro, quando Campos foi acusado de favorecer um candidato em concurso para procurador (maior salário do serviço público municipal, 30 mil reais), com o objetivo de agradar ao pai dele, o juiz Rildo Vieira da Silva, da Vara dos Crimes Contra a Administração Pública e a Ordem Tributária de Recife, que paralisara uma investigação do MP sobre contratos da prefeitura. O caso levou a oposição a pedir uma CPI — que não deve prosperar porque o prefeito tem maioria — e um processo de impeachment, rejeitado por 25 votos a 9 na terça 3. A investigação chegou a ser retomada pelo MP, mas foi interrompida de novo por decisão do ministro Gilmar Mendes, do STF. “Não sou contra investigação feita dentro da lei. Mas três secretárias da prefeitura se sentiram injustiçadas e, por conta própria, buscaram a Justiça”, afirma Campos. Além das secretárias, o MP queria acessar dados de mais dezenove funcionários da gestão municipal.

    EM ALTA - A pré-candidata do PSD: mais sete pontos desde agosto de 2025 e distância da disputa nacional
    EM ALTA – A pré-candidata do PSD: mais sete pontos desde agosto de 2025 e distância da disputa nacional (@raquellyraoficial/Instagram)

    O troco veio rápido. Logo após o pedido de impeachment de Campos, um deputado aliado fez a mesma coisa em relação a Raquel, desta vez na Assembleia, apontando falta de fiscalização estadual obrigatória na empresa de ônibus intermunicipais do pai dela, a Logo Caruaruense, que foi acusada em relatório de órgão estadual (EPTI) de circular com vistorias vencidas e documentação irregular. Fontes ligadas à governadora alegam que o problema é anterior à gestão dela e que o transporte intermunicipal estava sucateado há anos e só teve atenção devida agora, inclusive com a elaboração do relatório.

    Em meio a tudo isso, eclodiu um rumoroso caso de espionagem. Campos e aliados acusaram a governadora de usar a Polícia Civil para espionar secretários municipais. De agosto a outubro de 2025, um grupo de policiais monitorou os trajetos de um carro locado pela prefeitura, mas sem qualquer registro formal da ação na Justiça ou no próprio órgão. A Secretaria de Defesa Social alega que era uma investigação preliminar aberta após denúncias anônimas de recebimento de propina por agentes da prefeitura, mas que isso não se confirmou e a ação foi arquivada. “O governo construiu uma polícia paralela, com a cúpula da inteligência da Polícia Civil, para fazer arapongagem”, diz Campos. O caso também foi parar no STF, e Gilmar mandou a PF investigar.

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    TENSO - Protesto em frente à Câmara Municipal: os dois lados tentaram abrir processos para afastar o adversário
    TENSO - Protesto em frente à Câmara Municipal: os dois lados tentaram abrir processos para afastar o adversário (@mikaelgringope/Instagram)

    Os ataques mútuos aumentam de intensidade conforme vai se acirrando a disputa pelo governo. De acordo com o Paraná Pesquisas, de agosto a dezembro de 2025, Campos recuou de 57% para 53,1% nas intenções de voto, enquanto Raquel foi de 24,2% para 31%. “A tendência é que tenhamos uma campanha muito dura”, avalia o cientista político Adriano Oliveira, da UFPE. Uma das chaves da disputa está na formação de chapas, hoje sem clareza nenhuma. Mais próximo de Lula, Campos se movimenta para cacifar o PSB nacionalmente e apoiar a reeleição de Lula (o vice, Geraldo Alckmin, é do partido), enquanto espera apoio total do petista. Já Raquel, filiada a um partido que tem três presidenciáveis de oposição (Ratinho Jr., Eduardo Leite e Ronaldo Caiado), não garante palanque a nenhum deles. Não só isso: faz elogios e participa frequentemente de eventos com Lula, de quem espera distanciamento da disputa local — pernambucano, o petista é o maior cabo eleitoral do estado, além de seu governo ter seis ministros de Pernambuco, um recorde na federação. “Em 2022, Raquel teve a postura de se isolar da polarização nacional e, ao longo do mandato, vem se mostrando focada nas questões locais”, diz a cientista política Priscila Lapa, da UFPE.

    Historicamente, Pernambuco teve a sua identidade construída por grandes confrontos. Entre eles estão a Revolução Pernambucana, a Confederação do Equador, a Guerra dos Cabanos, a Revolução Praieira e a campanha da expulsão holandesa, que resultou na Batalha dos Guararapes, marco fundador do Exército brasileiro. Guardadas as devidas proporções, o estado ensaia nova batalha acirrada — desta vez nas urnas. O enfrentamento já começou.

    Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981

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