A redenção da reposição hormonal na menopausa
Estudo gigantesco corrobora a segurança da terapia: ela não aumenta risco de mortes e doenças quando bem indicada
Depois de anos numa espécie de berlinda, despertando receio entre médicos e medo entre pacientes, a reposição hormonal na menopausa entra numa fase de redenção. É o que endossa um estudo com mais de 800 000 mulheres dinamarquesas ao concluir que os hormônios não aumentam o risco de mortes e problemas de saúde graves quando indicados adequadamente.
Os resultados da pesquisa, publicada no The British Medical Journal, corroboram o que as principais diretrizes internacionais já recomendam hoje para mulheres que entraram na menopausa e apresentam sintomas moderados a graves dessa fase – ondas de calor, insônia, névoa mental, transtornos de humor… – e não possuem contraindicações médicas.
A reposição hormonal foi colocada em xeque a partir de 2002 quando um estudo americano apontou uma relação do tratamento com o maior risco de doenças cardiovasculares, trombose e câncer. Contudo, análises posteriores revelaram que o trabalho continha falhas importantes e foi mal interpretado.
Pesquisas subsequentes vêm mostrando, desde então, que, quando bem indicada e administrada sob orientação médica, a reposição de estrogênio isolada ou combinada é segura e vantajosa quando se respeitam os critérios consensuais de prescrição.
A pesquisa dinamarquesa, baseada em dados de nada mais, nada menos do que 876 805 mulheres, acompanhadas por um período médio de quase 15 anos, chancela a segurança da estratégia, mostrando, em primeiro lugar, que ela não aumenta a taxa de mortalidade das pacientes que fazem ou fizeram uso.
Os cientistas, liderados pela Universidade de Copenhague, buscaram mulheres nascidas entre 1950 e 1977 que chegaram aos 45 anos. Elas foram monitoradas a partir dessa idade até julho de 2023 – cerca de 14 a 15 anos cada. A duração média do uso de hormônios foi de 1,7 ano.
Foram excluídas da análise aquelas com contraindicações formais da terapia hormonal, caso de histórico de trombose, câncer de mama, ovário ou útero e problemas no fígado, bem como aquelas que já realizaram previamente o tratamento em função de uma cirurgia para remoção dos ovários.
Das mais de 800 000 dinamarquesas incluídas na investigação, 104 086 mulheres receberam a prescrição de reposição hormonal no início da menopausa e, ao todo, 47 594 participantes morreram (a despeito de tomar ou não a medicação).
Foram considerados na análise fatores de influência que podiam interferir no desfecho de cada paciente, caso de idade, nível educacional, presença de doenças crônicas como diabetes e hipertensão e número de filhos.
Sem considerar esses aspectos, o risco de morte por todas as causas foi superior entre as mulheres com uso prévio ou atual da terapia na menopausa, no comparativo com quem nunca utilizou a reposição. Mas, ao se levar em conta os fatores de influência – o que permite obter uma visão mais controlada do impacto da reposição -, não foi observada diferença significativa na mortalidade.
O estudo não encontrou aumento no risco de morte sob o uso de hormônios mesmo entre aquelas mulheres que o utilizaram por dez anos ou mais. Tampouco houve diferenças importantes na incidência das causas de morte (infarto, AVC, câncer…).
Embora pesquisas observacionais como esta não possam sustentar diretamente uma relação de causa e efeito, a robustez da população avaliada soma evidências sobre os reais riscos e benefícios da terapia de reposição hormonal.
Em resumo, o que a equipe dinamarquesa concluiu é que, seguindo as diretrizes atuais (e considerando o período de entrada na menopausa e as contraindicações existentes em cada mulher), a terapia pode ser uma ferramenta segura e bem-vinda à qualidade de vida.
Em consonância com esses achados, a agência regulatória americana, a FDA, anunciou que as advertências de risco para doenças do coração, câncer e demência que vinham sendo obrigatórias nas embalagens dos produtos usados na reposição hormonal nos Estados Unidos não serão mais necessárias.





