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Adolescência: qual a responsabilidade das escolas na saúde mental dos jovens?

Série da Netflix evidenciou um abismo entre o mundo das crianças e o dos adultos

Por Luiz Paulo Souza Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 25 mar 2025, 20h44 - Publicado em 25 mar 2025, 19h44

Quem assiste aos primeiros minutos de Adolescência, nova minissérie da Netflix, imagina que se trata de um thriller de injustiça e fica aguardando por um plot twist que vá inocentar o personagem principal. Os idealizadores, no entanto, surpreendem – e dão um grande susto nos adultos.

Sem julgamentos ou vitimismo, o drama visa retratar o caso de um adolescente tímido e doce que, sim, foi capaz de assassinar cruelmente uma colega de escola. 

A surpresa dos pais, professores e profissionais de saúde não foi despropositada. Diferentemente do que costuma ser retratado, Jamie Miller não vem de uma família desestruturada, de uma escola sem recursos ou de periferias esquecidas. Muito pelo contrário. Os pais são carinhosos, em casa não falta nada, e a escola…bom, não parece muito diferente de qualquer outra. O que levaria, então, a um desfecho tão trágico?

A resposta, muito mais complexa do que parece, está no imenso abismo entre as diferentes gerações – prato cheio para isolamento, dificuldade de comunicação e uma perigosa inabilidade de detectar um preocupante sofrimento mental. “É uma série que gerou medo principalmente porque, quando vemos um caso como esse, nos perguntamos ‘o que é que eu não estou vendo’”, explica Leticia Lyle, cofundadora da Camino Education e diretora da Camino School. “A obra expõe a falácia de que se a gente acha que está tudo bem, está, de fato, tudo bem.”

A série provocou discussão entre pais e professores, mas isso não é exclusividade da Camino. Entre os familiares dos alunos matriculados no colégio Santa Cruz, onde no últimos mês quatro alunos foram expulsos após um episódio dramático de bullying, o assunto também foi recorrente. 

O que as escolas podem fazer?

Não foi por acaso que o criador Stephen Graham escolheu a escola e o quarto do garoto como locais centrais da tragédia. Em entrevista a veículos internacionais, ele relata que teve a ideia para série após ver uma notícia de assassinato em uma escola, o que o levou a descobrir que esse tipo de episódio era mais recorrente no Reino Unido do que ele gostaria de admitir. 

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E há uma explicação para isso. A escola é o principal cenário dos primeiros episódios de bullying, afeitos a plantar uma semente de isolamento e baixa autoestima. No quarto, por outro lado, onde os jovens ficam mergulhados nas redes sociais, eles não apenas vivem a continuidade das agressões, mas têm contato com adultos prontos para plantarem ideias preconceituosas e misóginas, que parecem justificar sua própria solidão. 

“O ambiente escolar e o círculo de amigos parecem ter contribuído bastante para o fato, já que ele faz parte do que se chama atualmente de “Incel” (acrônimo para celibato involuntário),  que se refere a jovens do sexo masculino que ficam extremante frustrados e culpam as mulheres e a sociedade pela falta de experiências sexuais”, explica o psiquiatra Rodrigo Bressan, presidente do Instituto Ame Sua Mente, que tem como foco a saúde mental dos adolescentes. “O fato desses comportamentos ocorrerem predominantemente na vida virtual faz com que eles passem despercebidos pelos pais e educadores. Por não serem vistos, esses fenômenos crescem sem ser trabalhados adequadamente por adultos.”

O que as escolas podem fazer, então? A resposta, segundo os especialistas ouvidos, está no acolhimento e na construção de uma capacidade aprimorada de lidar com conflitos. “É preciso ouvir os alunos, discutir o que acontece nas redes sociais, ter espaços abertos para diálogo e trazer os pais para dentro do ambiente escolar”, diz João Pedro Wanderley, psiquiatra do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

Ele afirma ainda que outras estratégias de saúde mental também são importantes. Enquanto os esportes podem ser um ambiente de socialização, respeito e construção de autoestima, a presença de psicoterapeutas nas instituições também é primordial. E não é que todo aluno precise de terapia, mas, com um profissional treinado, é possível identificar aqueles passando por problemas que necessitem de ajuda especializada – tanto entre os alunos, quanto entre o corpo de professores. 

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Lyle concorda com a necessidade de ter espaços abertos para o diálogo e para a importante proximidade entre a escola e os familiares, mas ela ainda destaca experiências que tiveram resultado positivo na Camino e que podem ser incorporadas por outras instituições:

  • Gestão de crises: ter um grupo especializado nisso possibilita a compreensão da dinâmica por trás das desavenças e a implementação de projetos educacionais individuais ou coletivos que visem discutir problemas sérios mais amplamente;
  • Não estigmatizar: é necessário que os profissionais não transformem problemas em rótulos, evitando chamar alunos que cometeram atos de preconceito de misóginos ou racistas, por exemplo, o que pode fazer com que elas acreditem que a mudança não é possível;
  • Dar agência aos alunos: além de discutir o problema, é preciso estimular os alunos a serem protagonistas das transformações, seja mudando os próprios hábitos, seja instruindo os colegas; 

Qual o papel dos outros atores?

Embora a atuação escolar possa ter um papel fundamental no bem-estar e no desenvolvimento dos alunos, é uma unanimidade entre os especialistas que essa responsabilidade deve ser compartilhada. 

Os pais têm um papel fundamental e que tem início muito antes da adolescência. Além de proporcionarem uma boa infraestrutura, é preciso estabelecer uma relação de confiança e autoridade – algo que pode ser muito benéfico, mesmo que o jovem apresente resistência. 

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Os psicólogos afirmam que, apesar do bullying ser algo que sempre existiu, o problema hoje é que os jovens não aprendem a lidar com esses conflitos – por um lado, há uma superproteção por parte dos pais, por outro a continuação do conflito em ambientes virtuais, o que faz com que o problema ganha outras dimensões. 

A proximidade com a escola pode ajudar a lidar com esses problemas, enquanto fica a cargo dos pais prestar atenção nos filhos para perceber sinais de inibição ou mudanças de comportamento. “Adolescentes podem ter uma necessidade maior de privacidade, mas os pais não devem ter medo de incomodar, de perguntar como estão as coisas e de estar atento às redes sociais, deixando um espaço aberto para que eles compartilhem problemas que estejam vivendo”, afirma Manuela Moura, psicóloga de família e professora da Universidade Federal da Bahia. “Que a insistência sublinhe um desejo pelo laço.”

Lyle propõe ainda uma outra discussão. “Essas crianças estão em um mundo virtual muito pouco regulamentado, fazendo o que quiserem e sujeitas a um algoritmo que poderia ser mais responsável”, afirma. “A saúde mental dos adolescentes é uma questão de saúde pública e essa discussão é necessária para que deixemos de culpabilizar apenas as famílias. Isso é uma questão de todos, que deve envolver toda a sociedade. Precisamos pensar sobre isso.”

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