Carta ao Leitor: A vacina da informação
Na crise da Covid-19, o pior passou, mas fica uma lição: a relevância do jornalismo de qualidade na defesa irrecorrível dos interesses da sociedade

Há exatos cinco anos, o Brasil foi apresentado ao primeiro caso registrado de covid-19 no país. Um homem de 61 anos que havia retornado a São Paulo de uma viagem de negócios à região da Lombardia, na Itália, começou a sentir sintomas como dor de garganta, febre baixa, dores musculares, tosse seca e coriza. Fragilizado, ainda assim participou de um almoço na residência de um dos filhos com cerca de trinta pessoas, entre amigos e parentes. A família, de descendentes de italianos, se abraçou e se beijou fartamente. A persistência dos sinais de que algo não estava bem o levou ao pronto-socorro do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. O resultado positivo foi confirmado em um dia — e o paciente zero encaminhado para casa, com a recomendação de isolamento total.
De lá para cá, o vírus respiratório matou, em todo o mundo, mais de 7 milhões de pessoas — das quais aos menos 715 000 apenas no Brasil, a segunda nação com mais óbitos, atrás dos Estados Unidos. Em maio de 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o “fim da emergência de saúde pública de importância internacional”. Era o marco de encerramento de uma era — embora os germes não respondam a decretos e continuem a se espalhar, em ritmo evidentemente menos agressivo, e agora com boa parte dos cidadãos imunizada. Na última semana, 67 pessoas morreram de covid-19 no Brasil.
Só foi possível reverter o drama e amenizar o pranto da tragédia graças a uma sucessão de boas posturas — a começar pela rigidez da quarentena, quando ainda era necessária, pelas medidas de prevenção e, sobretudo, pela incansável força-tarefa de cientistas que desenvolveram as vacinas. A memória tende a apagar os instantes ruins, mas é vital lembrar que, ao menos no início da crise sanitária, em 2020, havia no ar um vírus igualmente pernicioso: o do negacionismo. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump, em seu primeiro mandato, espalhava informação falsa: a doença teria sido “criada” nas bancadas do laboratório do Instituto de Virologia de Wuhan, na China. No Brasil, Jair Bolsonaro dizia existir apenas uma “gripezinha” e tratava de louvar um medicamento ineficaz, a cloroquina. Foi um tempo triste, e só escapamos dele porque a humanidade soube se abraçar ao conhecimento, munida de notícias reais, no avesso das lorotas. Nesse aspecto, VEJA teve papel relevante, e nos orgulhamos dos muitos prêmios de excelência recebidos ao longo da jornada. Entre 2020 e 2022, a revista fez 36 capas em torno da covid-19, além de dezenas de milhares de publicações no site e em nossas redes sociais — do ponto de vista da saúde, dos negócios e do cotidiano comportamental. O pior passou, mas fica uma lição: a relevância do jornalismo de qualidade na defesa irrecorrível dos interesses da sociedade.
Publicado em VEJA de 21 de fevereiro de 2025, edição nº 2932