Covid-19, cinco anos depois: os legados positivos e as lições ainda ignoradas
A ciência, a colaboração e a solidariedade ficaram — mas a necessidade de combate ao vírus do negacionismo ainda é urgente

Pareciam cenas de um filme de futuro improvável. Nos derradeiros dias de 2019 e início de 2020, começavam a chegar notícias e imagens das vítimas de uma doença misteriosa em uma terra distante. Ainda sem identidade definida, o vírus que eclodira na China ultrapassava fronteiras e continentes, deixando um rastro de infecções, mortes e incertezas. A vida seguia, no entanto, entre os brasileiros, que celebravam o Carnaval. Até que a assustadora realidade batesse à porta, na Quarta-feira de Cinzas: em 26 de fevereiro, há exatos cinco anos, tão longe e tão perto, confirmava-se o primeiro caso no Brasil de um paciente com a moléstia que ficaria conhecida como covid-19 — era um homem que viera da Itália, internado no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Nos meses que se seguiram, o país compartilharia com o resto do planeta os sintomas sufocantes, o medo dos outros, as dores psíquicas e sociais e o luto sem despedidas da pandemia.
Meia década depois da maior crise de saúde pública desde a Gripe Espanhola de 1918, a batalha contra o novo coronavírus entrega um legado ambivalente, em que inovações científicas em tempo recorde convivem com ondas de negacionismo e fake news. É um capítulo da história que deveria estar imune ao esquecimento, no mínimo para prestar o devido respeito aos mais de 7 milhões de vítimas pelo mundo, 715 000 delas brasileiras, sem falar nas pessoas que encaram ainda hoje as sequelas da doença e nos profissionais que se dedicaram, dos bastidores em laboratórios à linha de frente dos hospitais, a salvar vidas. Porém, pouco tempo depois de a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter decretado o fim do estado de emergência sanitária, em maio de 2023, cidadãos comuns e autoridades já se esforçavam, em estranha velocidade, por declarar a covid-19, suas lições e efeitos, como página virada.
Não pode ser assim. Revisitar personagens simbólicos que protagonizaram cenas públicas e privadas de uma era sob o jugo do vírus Sars-CoV-2 tem efeito didático: expõe a importância de evitar a armadilha dos que fazem tábula rasa de um fenômeno que, mais cedo ou mais tarde, poderá voltar a nos assombrar. Da primeira brasileira vacinada a médicos que enfrentaram a morte literalmente de perto, sobressai, nos relatos, um misto de louvor aos avanços da medicina — simbolizados por uma nova geração de vacinas — e de decepção com a falta de cooperação global e a desvalorização da ciência, algo materializado pela recente saída dos Estados Unidos e da Argentina da OMS.
Alçada a pandemia em 11 de março de 2020, a covid-19 escancarou fragilidades individuais e coletivas e desafiou homens e mulheres a buscar respostas e soluções diante do desconhecido. Poucas vezes, na aventura humana, tantos pesquisadores, universidades e indústrias farmacêuticas se uniram em prol de uma saída. E foi uma corrida contra o relógio. Havia casos assintomáticos da infecção, mas também outros, de pessoas que estavam bem e, de repente, evoluíam para um estado grave e letal — e terminavam o dia dentro de sacos para não contaminar quem estivesse ao redor. Em meio às dúvidas sobre as medidas preventivas mais adequadas e eficazes, como o uso de máscaras, famílias se infectavam e morriam, não raro em casa. Era cenário de guerra, com falta de leitos nos hospitais e caixões nas ruas, que se espraiou por China, EUA, Itália e Equador. O Brasil não foi poupado.

Em um jogo de tudo ou nada, centros de estudo ao redor do globo se aliaram para trocar informações e ideias sobre o novo patógeno. No Brasil, apenas dois dias depois da confirmação do paciente zero, deu-se o sequenciamento do genoma viral do microrganismo. Uma das responsáveis pelo trabalho de detetive, a médica Ester Sabino, professora da USP, se preparava para estudar uma outra doença quando a catástrofe explodiu. “Estava tudo pronto em nosso laboratório porque achávamos que haveria uma grande epidemia de dengue em 2020”, diz. “Por isso, conseguimos sequenciar rapidamente aquele novo vírus”. As descobertas se somaram às de outros milhares de cientistas em plataformas abertas na internet que propulsionaram o desenvolvimento de testes, remédios e imunizantes.
Desde o princípio, sabia-se que a confecção de uma vacina seria decisiva para impedir mortes e, aos poucos, achatar a curva pandêmica. Enquanto uma fórmula segura e eficaz não vinha à tona, restou à humanidade se engajar no isolamento social. Nascia a era das lives diárias e do home office. Em casa, o público que antes lotava estádios conheceu a residência de artistas favoritos. Um dia era a cantora Ivete Sangalo cantando e pulando de pijama, em outro uma emblemática apresentação de You Can’t Always Get What You Want com cada integrante da banda Rolling Stones tocando em quadrado virtual, porque nem sempre podemos ter tudo o que queremos. Fechados fisicamente, escolas e escritórios migraram para o ambiente digital, assim como os encontros familiares, que se estenderam às janelas dos carros e ao icônico abraço numa trama de plásticos entre netos e avós. Era o “novo normal”.

Vivia-se à busca de algum consolo, de mãos dadas com a tecnologia, atalho para humanizar dolorosas partidas. O pneumologista Artur Codeço, que atuou no hospital de campanha erguido no Estádio do Pacaembu, na capital paulista, testemunhou experiências inimagináveis. “Prestes a intubar o paciente, fazíamos videoconferências com os parentes”, recorda. “Alguns diziam que ia ficar tudo bem, outros pediam para a família seguir a vida, e também tinha aquele que avisava: ‘Olha, tal coisa está naquela gaveta’.” Diretor médico de Cuidado Integrado e Acessível do Einstein, Codeço convivia com a morte e o temor da contaminação enquanto aguardava a chegada do segundo filho. Agora brinda a conquista da telemedicina, que enfim foi regulamentada depois da tragédia, ao mesmo tempo que guarda a memória das perdas, inclusive a de um tio no Rio de Janeiro que ele acompanhou a distância. “A pandemia ensinou que nada é mais importante do que a nossa saúde”, afirma.
Sobreviver aos episódios críticos em UTIs era algo festejado como um milagre a ser compartilhado nas redes sociais. Hoje com 92 anos, a cirurgiã Angelita Habr-Gama, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, foi uma dessas pessoas que se salvaram após uma temporada de desafios dentro de um hospital. Logo no início da pandemia, ela havia retornado de um congresso em Israel com tosse e mal-estar. O quadro progrediu para falta de ar, e Angelita foi levada às pressas para a unidade de terapia intensiva. “Fiquei intubada por 52 dias e tiveram de fazer um corte na minha traqueia para que eu pudesse respirar”, lembra. “Dormi com a sensação de que ia morrer. É como se fosse um período que desapareceu da minha vida.” Seu despertar era aguardado com ansiedade pelo marido e pela equipe que a acompanhava. “Tive a sensação de renascer”, diz. De volta ao trabalho, a professora deparou com o negacionismo científico, mas nunca desanimou: “Sempre existe oposição ao conhecimento, mesmo que ele seja extraordinário.”

Havia um cabo de guerra em curso. De um lado, os defensores da ciência lutavam para estancar a propagação do vírus clamando pelo distanciamento e o uso de máscaras e, depois, pela adesão às vacinas. Do outro, políticos, profetas de jaleco e influenciadores propagavam, na velocidade da internet, falsos tratamentos — do kit covid de vitaminas à cloroquina — e difamavam os imunizantes tão logo eles chegavam. Governantes encamparam o desserviço e o caos. De Donald Trump, hoje de volta à Casa Branca com seus asseclas antivacina, a Jair Bolsonaro, que chamou a doença de “gripezinha”, imitou pacientes agonizando com falta de ar e atrasou o início da vacinação no país — sandices inaceitáveis pelas quais ainda não foi julgado.
Como uma dose de esperança em meio ao pânico, em 17 de janeiro de 2021, uma enfermeira com o diagnóstico de diabetes e hipertensão se tornou a primeira pessoa vacinada no Brasil. Funcionária da UTI do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, Monica Calazans vinha perdendo pacientes para o vírus exatamente devido à ausência de uma arma capaz de freá-lo. A picada no braço com a vacina CoronaVac, distribuída pelo Instituto Butantan e apoiada pelo então governador de São Paulo, João Doria, só não foi mais especial que o nascimento do filho. “Foi o segundo dia mais marcante da minha vida, porque pude provar que a única coisa que tínhamos de fato para combater o vírus era a vacina”, diz. Vacinas, que, diga-se, foram consideradas seguras e eficientes em sucessivos estudos.

Com 58 anos e funcionária de uma faculdade, agora teme as decisões que podem ser tomadas em futuras epidemias. “O horizonte é incerto diante do negacionismo e das atitudes de quem tem poder de decisão”, afirma. Ela virou personagem iluminada, no avesso de episódios terríveis, marcos da estupidez, como o das vítimas da falta de oxigênio em hospitais do Amazonas, em 2021. Sim, brasileiros morreram sufocados devido à inépcia de governantes. Mesmo com a vacina no braço do povo, o vírus não arrefeceu de imediato, sofrendo mutações e picos de transmissão. Estávamos em guerra com mecanismos da própria natureza. E, muito além das infecções, abrandadas por imunizantes e os novos medicamentos, ganharam evidência as sequelas da covid-19. Segundo o mais recente levantamento do Ministério da Saúde a respeito da doença, quase 20% dos infectados apresentaram sintomas persistentes semanas ou meses após o ataque viral — de ansiedade a fadiga.

Qual é, por ora, o legado de tanta dor? A ciência, a colaboração e a solidariedade venceram, ainda que o preço pago durante o processo tenha sido imensurável por se tratar de vidas. A vitória, contudo, traz lições preciosas demais para serem soterradas — lições particularmente relevantes para as autoridades. “É preciso se preparar e investir antes de o problema aparecer, para ter a resposta adequada”, diz Mariângela Simão, presidente do Instituto Todos pela Saúde, diretora de acesso a medicamentos da OMS durante a crise. As lembranças pandêmicas podem até soar distantes, a memória é seletiva, mas aquele período assombroso segue vivo, a iluminar os erros, acertos e rumos da humanidade.
Publicado em VEJA de 21 de fevereiro de 2025, edição nº 2932