Covid, cinco anos. Os protagonistas da crise: ‘Dormi com a sensação de que ia morrer’
Em nova série, VEJA traz depoimentos de pessoas que estiveram nos bastidores da pandemia responsável pela maior crise sanitária deste século

Era 11 de março de 2020 quando Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), anunciou para o mundo que o surto do novo coronavírus, o causador da covid-19, passava a ser caracterizado como uma pandemia. Houve quem duvidasse da gravidade do seu discurso, mas os contornos da tragédia que acometeu a humanidade e se consolidou como a maior emergência sanitária deste século estavam em suas palavras.
“Nos próximos dias e semanas, esperamos ver o número de casos, o número de mortes e o número de países afetados aumentar ainda mais”, afirmou. Naquele momento, eram 118 mil casos e 4.200 mortes em 114 países, ainda muito longe das mais de 7 milhões de mortes em todo o globo e 777 milhões de infecções somadas até hoje.
VEJA ouviu depoimentos de brasileiros que acompanharam os bastidores da crise para a série que se inicia neste dia 11 e traz as lembranças de quem sobreviveu ao vírus, esteve na linha de frente salvando vidas e lutou pela vacina. Também da primeira brasileira a ser imunizada, Monica Calazans, que viveu o segundo momento mais emocionante de sua vida ao ser vista por milhões de pessoas recebendo a dose — o nascimento do filho foi o primeiro –.
São memórias de um período de dor, sofrimento e resiliência que não deve ser esquecido. O primeiro relato é da cirurgiã coloproctologista Angelita Habr-Gama, de 92 anos, umas das referências da medicina brasileira e reconhecida com mais de 50 prêmios nacionais e internacionais por sua contribuição à ciência. No início da pandemia, passou 52 dias intubada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e venceu a covid.
Fui convidada para fazer uma palestra em Jerusalém e, depois, fiz uma parada de um dia em Barcelona antes de viajar para São Paulo. Quando cheguei, estava cansada e com mal-estar, um pouco de dor de cabeça, mas achava que era da viagem. Esperei uns dois dias e os sintomas persistiram. A dor de cabeça e no corpo se agravou e eu fui para o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, que é onde trabalho desde que me formei. No inicio, ninguém suspeitou ser covid, porque era uma doença que estava começando a ser falada, mas havia estado em um congresso internacional e seguramente me contaminei ali. Como eu falei que eu tinha vindo de Jerusalém, houve a suspeita, foi feito o teste e deu positivo. Foi o primeiro caso de covid admitido lá.
Eu passei mal rapidamente. Tinha um pouquinho de tosse e passei a ter uma falta de ar enorme. Quando cheguei, ainda estava um pouco consciente, fiz uma radiografia de tórax e meu pulmão estava totalmente encharcado com edema. Ouvi um comentário: ‘Isso é grave, vamos ver se a doutora sai dessa. Então, eu dormi com a sensação de que eu ia morrer. Tinha uma sensação de morte e pensava: ‘Tá bom, acho que vou morrer, mas já vivi bastante, vivi uma vida boa’.
Foi feita uma traqueostomia, um corte na minha traqueia, para eu poder respirar e, logo depois, eu fui intubada. Fui diretamente para a UTI, onde permaneci por 52 dias. Esse período, para mim, desapareceu da vida, porque não senti absolutamente nada.
De repente, acordei e percebi que estava na UTI. Tinha uma parte de vidro e, além do pessoal que cuidou muito bem de mim, eu vi o meu marido e a equipe médica esperando, porque disseram que eu seria extubada. Eles estavam em uma alegria enorme e eu tive uma sensação de vida novamente. Foi fantástico! Foi uma sensação de reviver, de renascer.
A covid não me deixou nenhuma sequela emocional nem de imediato nem tardiamente, não tive também dor de cabeça nem dor no corpo. Acho que saí melhor do que antes, porque valorizei a vida. Viver é uma alegria, é uma dádiva e a gente tem de viver cada momento porque a vida vale a pena. Sempre achei isso. Quando tive a noção de que ia morrer, pensei: ‘Que pena! Eu sou longeva, mas sou saudável, posso viver muito ainda’. E realmente aconteceu. Sobrevivi ao vírus e, depois da covid, passei a valorizar mais estar viva e usufruo. Fiz muita coisa boa depois para os pacientes e para a minha vida, minha família e a sociedade. Logo depois, fui para casa e, poucos dias depois, estava trabalhando de novo.
Fiz fisioterapia, algo que já fazia antes e continuo fazendo até hoje. Vivo bem, mas posso dizer que a covid ainda é uma doença séria e tem muitos aspectos a serem esclarecidos. Não existe um tratamento específico, a contaminação existe, mas, felizmente, as pessoas se conscientizaram.
Sabemos que, em toda doença e em toda descoberta, sempre tem um pouco de negacionismo. Sempre existe a oposição ao conhecimento em geral mesmo que ele seja extraordinário. No começo, não é facilmente aceito, logo ele é desprezado e humilhado. Só muito tempo depois que é aceito e recomendado. Isso existe na vida. As pessoas não acreditaram na vacina em um país onde a vacinação é de extrema importância, porque o Brasil é um dos líderes. Temos as crianças vacinadas, as mães entendem isso. É difícil encontrar na população quem não tenha sido vacinado para covid.
A população se conscientizou e a união de esforços levou ao enfrentamento da covid.