Inteligência artificial para gerar bebês? Sim, ela terá um papel nessa história
Estudo indica que tecnologia pode ajudar médicos a melhorar chances de sucesso dos procedimentos de reprodução assistida

Cada vez mais presente na medicina, a inteligência artificial (IA) poderá tornar mais precisos e efetivos os procedimentos de reprodução assistida.
Para entender o motivo, cabe esclarecer primeiro que, durante o tratamento de fertilização in vitro, os médicos usam exames de ultrassom para monitorar o tamanho dos folículos — pequenos sacos nos ovários contendo óvulos.
O objetivo é decidir quando dar uma injeção hormonal conhecida como “gatilho” para preparar os óvulos para coleta e garantir que eles estejam prontos para serem fertilizados com esperma para criar embriões.
O momento do gatilho é uma decisão fundamental, pois funciona menos efetivamente se os folículos forem muito pequenos ou muito grandes no momento da administração.
Depois que os óvulos são coletados e fertilizados pelo esperma, um embrião é então selecionado e implantado no útero para, esperançosamente, levar à gravidez.
Como saber o tamanho certo dos folículos? Para garantir maior sucesso, pesquisadores do Imperial College London, na Inglaterra, usaram técnicas de ‘IA (Inteligência Artificial) Explicável’, um tipo de IA que permite que humanos entendam como ela funciona, para analisar dados retrospectivos de mais de 19.000 pacientes que completaram o tratamento de fertilização in vitro.
Os cientistas descobriram que administrar a injeção hormonal quando uma proporção maior de folículos tinha entre 13 e 18 mm de tamanho estava associado a maiores taxas de coleta de óvulos maduros e a melhores taxas de nascimento de bebês.
As descobertas sugerem que maximizar a proporção de folículos de tamanho intermediário pode otimizar o número de óvulos maduros recuperados e melhorar as taxas de nascimento.
Há um grande potencial para a IA na personalização do tratamento de fertilização in vitro, o que deve melhorar os resultados clínicos para os pacientes.
A fertilização in vitro fornece ajuda e esperança para muitos casais que não conseguem conceber, mas é um tratamento invasivo, caro e demorado. Pode ser de partir o coração quando falha, então é importante garantir que esse tratamento seja o mais eficaz possível.
Nesse contexto, a IA pode oferecer um novo paradigma para levar melhores resultados para os pacientes.
Os pesquisadores também descobriram que estimular os ovários por muito tempo, de modo que houvesse um número maior de folículos maiores (mais de 18 mm) no dia da administração do gatilho, poderia levar a uma elevação prematura do hormônio progesterona.
Isso pode ter um impacto negativo nos resultados da FIV ao afetar o desenvolvimento adequado do endométrio — o tecido que reveste o útero e é importante para que a implantação de um embrião resulte em gravidez.
Esses insights derivados de IA podem ajudar a equipe a desenvolver protocolos de FIV baseados em evidências, guiados por dados que devem melhorar a eficiência do tratamento.
* Fernando Prado é ginecologista, obstetra e especialista em reprodução humana, doutor pela Unifesp e pelo Imperial College London e membro das sociedades europeia e americana de reprodução humana