Afinal, o que causa o Alzheimer? Nova teoria unifica hipóteses anteriores
Revisão científica coloca estresse celular no centro da explicação

A doença de Alzheimer é uma das principais formas de demência, com cerca de 1,2 milhão de pessoas vivendo com a doença no Brasil. Apesar disso, sua causa ainda não é bem compreendida, mas um novo estudo acaba de jogar luz sobre um possível mecanismo por trás dessa condição neurológica.
Por muito tempo, duas teorias disputaram espaço: enquanto uma dizia que a redução de um tipo de neurotransmissor responsável pela memória e pelo aprendizado era a causa principal, a outra, mais aceita, apontava que o acúmulo de peptídeos beta-amiloides no cérebro era o responsável pela doença. A nova proposta, publicada no periódico científico Alzheimer’s and Dementia, fornece uma base capaz de unir as duas hipóteses.
O que diz a nova teoria do Alzheimer?
De acordo com essa teoria, funcionaria assim: os grânulos causados pelo estresse celular estariam impedindo que a mensagem saia do núcleo da célula para dar instruções para que ela funcione direito. E parece fazer sentido. O núcleo da célula é onde fica o DNA. Para que ele dê instruções para a célula, um pequeno mensageiro precisa ultrapassar uma barreira para chegar ao resto da célula e ser transformado em proteína, que são moléculas com muitas funções diferentes. Quando essa mensagem não consegue chegar ao destino, tudo deixa de funcionar corretamente.
Essa é uma ideia que vem ganhando espaço. “É um conceito que vem sendo construído desde os anos 2000”, explica Mychael Lourenço, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e líder de um grupo de pesquisa que estuda Alzheimer apoiado pelo Serrapilheira. “Para que as células funcionem de forma adequada, elas precisam transformar a informação do DNA em algo útil, processo chamado de expressão gênica. Esse trabalho sistematizou diversos estudos que mostram que existe um problema nesse processo.”
Ele explica que diversos estudos anteriores, inclusive alguns produzidos pelo seu grupo de pesquisa, já mostravam que em pessoas com Alzheimer, o processo de transcrição gênica, transporte e síntese de proteínas estava comprometido. O trabalho mais recente compilou esses estudos para concretizar a ideia de que essas alterações, na verdade, são a causa dessa condição neurológica e não apenas uma de suas características.
“Essa perspectiva oferece um novo ângulo para pesquisas futuras”, afirma Patrícia Pontes, especialista em neurogenética e médica geneticista da Dasa Genômica. “Ela oferece uma abordagem mais abrangente, sugerindo que a falha no sistema de transporte celular, associada à formação de grânulos de estresse, pode ser o evento inicial que desencadeia tanto o acúmulo de amiloide quanto as disfunções colinérgicas, além de outras alterações moleculares observadas na doença.”
O que causa o Alzheimer?
Embora a teoria tenha sido bem recebida, ela não responde a todas as perguntas. Apesar do mecanismo estar sendo descrito, a causa original ainda não é bem elucidada. Isso acontece porque os grânulos causados pelo estresse geralmente protegem a célula, mas costumam desaparecer quando a fonte de estresse desaparece. Mas por que isso não acontece nas pessoas com Alzheimer?
Até que isso seja respondido, pode demorar, mas a perspectiva é animadora. “Dada a complexidade da doença, pode levar algum tempo até que resultados conclusivos sejam alcançados, mas a comunidade científica está ativamente empenhada em explorar essas novas direções”, diz Pontes. “Se futuros estudos confirmarem que a disfunção no transporte e a formação de grânulos de estresse são fatores iniciais no desenvolvimento do Alzheimer, intervenções direcionadas a esses processos poderiam ser desenvolvidas. Isso potencialmente permitiria identificar e tratar a doença em estágios mais precoces, antes que ocorra um dano neuronal significativo.”
Como prevenir a doença de Alzheimer?
Enquanto isso não acontece, os pesquisadores apontam para a importância da prevenção. Hoje, o número de casos de Alzheimer cresce especialmente em países em desenvolvimento, onde alimentação e estilo de vida não são favoráveis para a saúde. Isso é importante porque os fatores comportamentais e, portanto, modificáveis, têm um peso grande para o desenvolvimento da doença. Seguem as principais medidas para evitar que isso ocorra:
- Aprendizado constante: já está muito bem estabelecido entre os profissionais que a educação é um importante fator protetor para demências, portanto, aprender coisas novas é uma boa maneira de prevenir o desenvolvimento dessas condições
- Participação social: a solidão se mostrou um fator importante para o declínio cognitivo, então estão estar envolvido em grupos sociais também pode ser um fator protetivo importante
- Cuidado com doenças crônicas: as doenças metabólicas como diabetes, hipertensão e obesidade estão muito relacionadas a demências, então preveni-las é uma forma relevante de evitar doenças neurodegenerativas
- Saúde auditiva e visual: pesquisas recentes mostram que a perda da audição e da visão podem ser um fator de risco para demências
- Estilo de vida saudável: fatores como alimentação e exercícios físicos são essenciais para manter um bom funcionamento do organismo e para evitar grande parte dos outros fatores de risco relacionados ao Alzheimer