Treino mental pode reduzir a progressão do Alzheimer e postergar seu diagnóstico
Ele demonstrou resultados em um estudo que acompanhou pacientes por mais de 20 anos; neurologista comenta os efeitos e as limitações dos exercícios cerebrais
Cientistas americanos anunciaram, após concluir um estudo que envolveu mais de 2 800 pessoas acompanhadas por cerca de 20 anos, que um treinamento de velocidade cerebral realizado durante semanas pode retardar o diagnóstico de demência em décadas. Trata-se de uma das primeiras pesquisas controladas a demonstrar que, mais do que melhorar a cognição, uma intervenção do gênero seria capaz de reduzir a progressão de uma doença como o Alzheimer.
O trabalho, que englobou americanos com 65 anos ou mais e foi financiado pelo governo dos Estados Unidos, mensurou o impacto de três tipos de treinamento mental. Apenas um deles, baseado na detecção rápida de objetos numa tela, foi relacionado a uma taxa 25% menor de diagnóstico por demência, segundo os dados analisados. “Um treinamento simples, feito durante algumas semanas, pode ajudar pessoas a se manterem mentalmente saudáveis por anos”, declarou em comunicado Jay Bhattacharya, diretor dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA.
Os participantes da pesquisa foram divididos aleatoriamente em dois grupos, sendo que um deles foi submetido a treinamentos cognitivos com duração de 60 a 75 minutos, duas vezes por semana, ao longo de mais ou menos um mês e meio. Parte dessas pessoas foi convidada a repetir o treino 11 e 35 meses depois.
As intervenções foram concebidas para melhorar funções como memória, raciocínio e velocidade de processamento visual. Mas os médicos notaram que apenas o treinamento focado em velocidade de processamento teve um efeito na redução ou postergação do diagnóstico de demência.
Nesse tipo de treino, o paciente é convidado a identificar qual de dois objetos aparece na tela de um computador. Os estímulos visuais tendem a ser mais curtos ao longo da sessão, instigando o voluntário a aperfeiçoar seu desempenho. Em seguida, os médicos pedem que o indivíduo identifique um alvo central, enquanto outros estímulos aparecem em sua periferia – e o nível de dificuldade aumenta progressivamente.
Os autores do trabalho, capitaneado pela Universidade Johns Hopkins, constataram que as ativações e adaptações cerebrais podem justificar o resultado positivo desse tipo específico de treinamento, especialmente quando somado a outras mudanças no estilo de vida.
“Intervenções cognitivas como essa têm sido estudadas há bastante tempo para melhorar a cognição, mas não necessariamente para reduzir o declínio cognitivo, e essas são coisas diferentes”, contextualiza o neurologista Wyllians Borelli, coordenador do Centro de Memória do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. “Hoje, pensando no Alzheimer, temos treinamentos como esse visando à melhora cognitiva e, para reduzir a progressão em si, temos as drogas modificadoras da doença.”
O grade diferencial desse estudo, segundo o especialista, foi demonstrar que houve justamente uma redução na progressão da evolução do declínio cognitivo. “Mas a magnitude desse efeito é pequena”, pondera Borelli.
“É uma pesquisa importante de ser feita, controlada e com um protocolo bem estabelecido, mas, fora o impacto dos exercícios cognitivos, certamente há outros fatores associados ao desfecho. É difícil que o treinamento sozinho reduza a progressão da demência”, analisa o neurologista.
Segundo Borelli, as revisões da literatura médica sobre o tema só apontaram, até agora, melhora da função cognitiva em pessoas que passaram por esses treinamentos – ou seja, não há evidências conclusivas de que eles possam frear o Alzheimer.
“A hipótese dos autores do novo estudo é que, treinando certas habilidades cognitivas, podemos aumentar a conectividade cerebral e a neuroplasticidade. É como se fosse uma ginástica cerebral”, compara Borelli. “Agora precisamos de mais pesquisas em larga escala para estabelecer esse impacto do treinamento na redução da progressão da doença de Alzheimer”.





