Por que esquecemos memórias da infância? Ciência traz novas respostas
A chamada ‘amnésia infantil’ é um fenômeno quase universal, mas ainda sem explicações científicas transparentes

Em tempos em que as redes sociais discutem a possibilidade ou não de existirem experiências únicas, um fenômeno é praticamente universal: independentemente do tamanho do esforço, é impossível lembrar de experiências dos primeiros anos de vida. Agora, um estudo joga luz sobre o porquê desse fato — conhecido entre especialistas como amnésia infantil.
Até agora, havia uma dúvida que dificultava o avanço das pesquisas: é impossível lembrar desses eventos porque o cérebro infantil é incapaz de registrá-los ou por algum outro motivo? A pesquisa publicada na Science aponta que a segunda hipótese é a mais provável.
Para fazer isso, os pesquisadores fizeram análises de ressonância magnética em 26 bebês de quatro meses a dois anos enquanto eles faziam atividades que envolviam a memória. Basicamente, eles avaliaram a atividade do hipocampo – área do cérebro responsável pela memória – enquanto as crianças olhavam imagens de rostos desconhecidos.
O que eles perceberam é que há atividade nessa região do cérebro, o que sugere que há, sim, capacidade de retenção de memórias. “Uma possibilidade realmente interessante é que as memórias ainda estejam lá na vida adulta. Só não conseguimos acessá-las”, diz o coautor do estudo Tristan Yates, neurocientista da Universidade Columbia em Nova York, em entrevista à Nature.
Eles constataram ainda que quanto maior era a atividade no hipocampo, maior era o tempo que as crianças ficavam olhando para a foto quando ela era apresentada uma segunda vez, reforçando a conclusão. Esse é um dado importante porque crianças têm a tendência de passar mais tempo olhando coisas familiares do que coisas desconhecidas. E isso ocorreu ainda mais entre as crianças com mais de 12 meses de idade, evidenciando que há um amadurecimento da capacidade de retenção de memórias nesse período.
O que causa a amnésia infantil?
Mas se as memórias são mesmo armazenadas, por que é tão difícil lembrar delas? Essa ainda é uma pergunta a ser respondida, mas o coautor Nick Turk-Browne sugere que há um “descompasso entre a forma como a memória foi armazenada inicialmente e os indícios de recuperação ou os ‘termos de busca’ que seu cérebro usa para tentar acessar essa memória.”
Colocando em outras palavras, isso acontece porque a maneira como adultos e crianças veem o mundo é muito diferente, assim como as associações que são feitas. A hipótese, portanto, é a de que adultos tentam “vias” de recuperar as memórias diferentes daqueles que são percebidas pelas crianças.
Há, ainda, outras hipóteses. Décadas de investigações já mostraram que as emoções são essenciais para guardar memórias – não por acaso, memórias de muito amor ou de muita raiva ficam marcadas de maneira tão vívida. Como crianças ainda estão desenvolvendo essa habilidade, é possível que a falta de maturidade dessas emoções atrapalha a codificação das memórias.
Outra causa pode estar na poda neuronal. O cérebro nasce muito plástico, capaz de se moldar a diversos ambientes diferentes. Ao longo dos anos, contudo, a medida que corpo compreende quais habilidades são mais necessárias, um processo natural elimina os neurônios desnecessários, facilitando o processo de aprendizado e o aperfeiçoamento das habilidades individuais.
Uma possibilidade é a de que esse processo de eliminação de neurônios “desnecessários” seja responsável por eliminar as memórias da infância ou eliminar as vias que possibilitem a recuperação dessas lembranças. Resta que a ciência consiga desenvolver métodos originais para descobrir qual dessas hipóteses se aproxima mais da realidade.