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Vacina contra herpes-zóster é associada a menor risco de demência em nova análise

Estudo publicado na The Lancet analisou dados de mais de 230 mil pessoas e encontrou menos diagnósticos entre quem recebeu o imunizante atenuado

Por Victória Ribeiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 5 fev 2026, 16h52 • Atualizado em 5 fev 2026, 18h00
  • A vacina atenuada contra o herpes-zóster — doença causada pela reativação do vírus varicela-zóster, o mesmo que provoca a catapora — pode ajudar a reduzir o risco de demência em idosos. É o que aponta um estudo publicado na The Lancet, uma das revistas mais prestigiadas quando se trata de divulgação científica.

    Para chegar a esse resultado, os pesquisadores usaram uma abordagem pouco comum em estudos populacionais. Em vez de simplesmente comparar pessoas vacinadas com não vacinadas, eles exploraram o que chamam de um “experimento natural”.

    Em 2016, a província de Ontário, no Canadá, passou a oferecer gratuitamente a vacina contra o herpes-zóster (Zostavax, desenvolvida pela MSD) apenas para pessoas que completavam 71 anos a partir de uma data específica. Quem era um pouco mais velho não teve acesso ao programa. Essa regra criou, na prática, dois grupos quase idênticos: pessoas com diferença de semanas ou poucos meses de idade, mas com chances diferentes de terem sido vacinadas.

    “São pessoas que vivem na mesma região há muito tempo, com características demográficas e de acompanhamento muito semelhantes. Mesmo fatores que poderiam confundir a análise, como diabetes, colesterol alto ou hipertensão, aparecem nos dois grupos. A grande diferença é quem recebeu ou não a vacina, o que aumenta a consistência dos resultados”, avalia o neurologista e pesquisador Wyllians Borelli, coordenador do Centro de Memória do Hospital Moinhos de Vento, que não participou do estudo.

    Resultados

    Ao todo, mais de 230 mil pessoas foram acompanhadas por cerca de cinco anos e meio. Nesse período, os pesquisadores analisaram quantos novos diagnósticos de demência surgiram em cada grupo.

    A análise mostrou que, entre os idosos que tiveram acesso à vacina, o risco de receber um diagnóstico de demência ao longo do acompanhamento foi cerca de 2 pontos percentuais menor. Em números simples, isso significa que, a cada 100 pessoas, duas deixaram de desenvolver demência nesse período. Pode parecer pouco, mas, quando se olha para populações inteiras — com milhares ou milhões de idosos — essa diferença se torna bem relevante.

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    Para testar a robustez dos achados, os pesquisadores repetiram as análises usando diferentes recortes de data e compararam os dados de Ontário com os de outras províncias canadenses que não tinham um programa público semelhante de vacinação contra o herpes-zóster. Resultado? O padrão se manteve.

    Por que uma vacina poderia proteger o cérebro?

    A explicação ainda não é definitiva, mas existem hipóteses. O vírus varicela-zóster tem afinidade pelo sistema nervoso e pode permanecer “adormecido” no organismo por décadas. Com o envelhecimento, reativações do vírus se tornam mais comuns e podem desencadear processos inflamatórios.

    Estudos experimentais anteriores sugerem que infecções virais desse tipo podem estimular o acúmulo de proteínas associadas à demência, como a beta-amiloide, além de contribuir para inflamações crônicas no cérebro. A vacina, ao reduzir a reativação viral ou ao modular a resposta do sistema imunológico, poderia ajudar a proteger o cérebro ao longo do tempo.

    Para Borelli, a principal hipótese é que a vacina ajude a evitar um dano silencioso e prolongado. Isso porque esse vírus pode ficar causando problemas subclínicos, sem sintomas aparentes, machucando os neurônios e aumentando a neuroinflamação ao longo do tempo. “Nós não percebemos isso no dia a dia, mas esse processo pode elevar o risco de demência anos depois. É aí que entra a vacina, que parece reduzir esse efeito.”

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    Nem tudo está respondido

    Apesar dos resultados, os próprios autores fazem ressalvas importantes. O estudo não permite afirmar com certeza que a vacina previne a demência, apenas que existe uma associação consistente entre a vacinação e um menor risco de diagnóstico. Além disso, os dados se baseiam em registros médicos, o que pode deixar de fora casos mais leves ou ainda não diagnosticados.

    Outro ponto relevante é que a vacina analisada no estudo foi a versão mais antiga, feita com vírus vivo atenuado, hoje menos utilizada em muitos países. No Brasil, por exemplo, a vacina disponível contra o herpes-zóster — oferecida na rede privada — é a Shingrix, de tecnologia recombinante, que substituiu a Zostavax. Ainda não se sabe se essa versão mais moderna teria o mesmo efeito observado no estudo.

    Por isso, os pesquisadores mantêm a cautela e dizem que ainda não dá para indicar a vacina contra o herpes-zóster como uma forma de prevenir a demência. Mesmo assim, os resultados chamam atenção e sugerem um caminho promissor. Para ter certeza, ainda seriam necessários outros estudos, grandes como esse e feitos em diferentes populações.

    Ainda assim, do ponto de vista da saúde pública, o achado chama atenção. “Estamos falando de uma pesquisa bem conduzida, com um desenho interessante e custo-efetivo, capaz de gerar impacto populacional — inclusive algo que poderia ser reproduzido aqui no Brasil, onde já temos dados de vacinação contra o herpes-zóster”, opina Borelli.

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    O que é a herpes-zóster?

    Conhecida popularmente como cobreiro, a herpes-zóster é uma doença causada pelo vírus varicela-zóster. Na infância, quase todos temos contato com ele, só que nessa fase da vida, desenvolvemos a famosa catapora.

    Depois desse primeiro encontro, e mesmo com a catapora curada, o vírus permanece no organismo. Ele se esconde no sistema nervoso, mais especificamente nos gânglios dorsais — uma espécie de raiz dos nervos localizada na medula espinhal. Ali, fica adormecido, controlado pelo nosso sistema imune.

    Quando acontece uma queda expressiva na imunidade (seja pela idade, por uma doença ou pelo estresse), o vírus encontra terreno fértil para voltar a se replicar.

    As cópias caminham dos gânglios dorsais para os nervos sensoriais, que se conectam com a pele. O processo afeta a circulação sanguínea dos arredores e dá início a uma inflamação.

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    Surgem, então, lesões em uma região específica do corpo – como costas, rosto ou pernas – e uma dor latejante. Se não houver tratamento adequado, a dor pode se tornar crônica. Sem medidas preventivas, o quadro pode voltar diversas vezes e até ser gatilho para mais problemas, como comprometimento da visão e doenças cardiovasculares.

     

     

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