Começa julgamento histórico sobre vício nas redes nos EUA
Instagram e YouTube estão no banco dos réus; processo pode abrir precedente jurídico parecido com o que mudou as leis para a indústria do tabaco
Considerado histórico, o julgamento que coloca no banco dos réus as principais big techs começou na última segunda-feira, 9, em um tribunal civil de Los Angeles, na Califórnia. A ação pode estabelecer um precedente inédito sobre a responsabilidade das redes sociais pelos impactos de suas plataformas na saúde mental de crianças e adolescentes. Um júri popular decidirá se YouTube e Instagram foram deliberadamente projetados para gerar dependência em usuários menores de idade.
O julgamento, conduzido pela juíza Carolyn Kuhl, tem como base a ação movida por uma jovem de 20 anos, identificada como Kaley G.M., que afirma ter desenvolvido graves danos psicológicos após se tornar dependente das redes sociais, ainda na infância. Inicialmente, o caso envolvia quatro plataformas, mas Snapchat e TikTok fecharam acordos extrajudiciais com a família da autora antes do início do julgamento, deixando a ação. Os termos desses acordos não foram divulgados. Com isso, os réus que permanecem no banco dos réus são a Meta Platforms, controladora do Instagram, e a Alphabet, dona do Google e do YouTube.
Na abertura do julgamento, o advogado dos demandantes, Mark Lanier, acusou as empresas de terem criado plataformas com o objetivo consciente de estimular o vício. Segundo ele, documentos internos do Google e da Meta indicam que o engajamento excessivo, especialmente entre jovens, era parte central do modelo de negócios. Lanier comparou a estratégia das big techs à adotada pela indústria do tabaco nas décadas de 1990 e 2000.
Entre as provas estão apresentações internas que mencionam o “vício dos internautas” como objetivo, além de um e-mail atribuído ao diretor-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, no qual ele teria cobrado ações para recuperar o engajamento de usuários jovens no Instagram. O advogado destacou que o modelo econômico das plataformas depende do tempo que os usuários passam conectados, já que a publicidade é vendida com base na audiência.
A DEFESA
Zuckerberg deve depor no dia 18 de fevereiro, assim como Adam Mosseri, responsável pelo Instagram. Também é esperado o depoimento de Neil Mohan, diretor do YouTube. A defesa da Meta argumenta que os problemas psicológicos da autora têm origem em questões familiares e pessoais, e não no uso das redes sociais. Segundo os advogados, Kaley mencionou as plataformas em uma parcela limitada de suas sessões de terapia e chegou a relatar efeitos positivos do Instagram.
O caso é visto como um processo indicativo, capaz de abrir precedente jurídico para centenas de ações semelhantes nos Estados Unidos. Se o júri reconhecer a responsabilidade civil das empresas pelo design e pelos algoritmos de suas plataformas — e não apenas pelo conteúdo publicado por usuários —, a decisão poderá redefinir os limites da proteção legal das redes sociais e influenciar litígios em todo o país.





