Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 7,99

Nostalgia dobrada: celulares que abrem e fecham começam a ser reinventados

Em ligeira referência aos flip phones lá de trás, eles representam mercado ainda pequeno, mas influente

Por Ligia Moraes Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 21 dez 2025, 08h00 •
  • Nada como a passagem do tempo para calibrar os gostos de cada época. No fim dos anos 1990, quando as pessoas ainda iam aos Correios para enviar cartas e encaixavam um cartão ou mesmo uma ficha num orelhão para dar um telefonema, fez imenso barulho um modelo de celular da Motorola chamado de flip phone, feinho que só ele. O StarTAC encantava por permitir abrir e fechar a tampa da peça. Cabia perfeitamente no bolso e fazia enorme sucesso. Até 2000, quando deixou de ser fabricado, foram mais de 60 milhões de unidades vendidas em todo o mundo. E logo a Apple, de Steve Jobs, bagunçou o coreto e reinventou a indústria, em 2007, ao lançar o iPhone — sim, se for o caso de ter alguma dúvida, houve um tempo de civilização sem smartphones, por incrível que pareça. A título de comparação: são mais de 2,3 bilhões de aparelhos negociados desde então.

    Brotaram concorrentes, sem dúvida, mas aquele rastilho inicial da Apple deflagrou uma era e um padrão, o objeto retangular cada vez mais fino, cada vez mais potente, mas sempre igual, de tela acessível a um simples toque. Não se trata de virada sem volta, mas recentemente deu-se uma notável chacoalhada no mercado, com o interesse por ter em mãos algo que permita repetir o gesto que parecia enterrado para todo o sempre: o movimento de unir e desunir as partes do telefone, como se fazia lá no Motorola pré-histórico. Essa onda de sonhar com o passado não vivido tem nome: anemoia. É a nostalgia de um tempo que você nunca viveu.

    APOSTA INOVADORA - O Galaxy Z Fold 7, da coreana Samsung: cerca de 13 000 reais
    APOSTA INOVADORA – O Galaxy Z Fold 7, da coreana Samsung: cerca de 13 000 reais (./Divulgação)

    Não se trata, é bom destacar, de um mero passeio pelo tempo — viaja-se repleto de tecnologia de ponta, e os dobráveis de hoje têm ínfima conversa com os primórdios do StarTAC. Chama a atenção o Galaxy Z Fold 7, da sul-coreana Samsung, que aberto tem 8 polegadas e é vendido por algo em torno de 13 000 reais (e vem aí, nos próximos meses, o TriFold, cujo nome diz tudo). O Mate XT, da chinesa Huawei, para não perder o tom da prosa, é como um caríssimo livro aberto, a encostar em pelo menos 30 000 reais. Dado o valor, não pretende ser produto de massa, e sim demonstração de poder de manufatura, em briga de gigantes. “Os dobráveis de hoje não vão substituir integralmente o smartphone tradicional”, diz Arthur Igreja, especialista em inovação. “Atendem ao anseio de um tipo de consumidor que aceita pagar mais por soluções técnicas antes inimagináveis.” Ainda assim, o faturamento cresce. Estima-se, até o final do ano, algo em torno de 20,6 milhões de unidades vendidas de dobráveis de luxo, segundo a International Data Corporation (IDC), em crescimento de 10% — uma gota no oceano do total de 1,6 bilhão de smart­phones. É gota, contudo, que merece ser acompanhada com zelo, por pavimentar o futuro.

    O discurso do negócio, bom de marketing, faz bem para as marcas envolvidas. A eficiência dá espaço à construção do desejo. Possuir um objeto de desejo é o que conta. A estética supera a praticidade, e atire a primeira pedra quem não se espantar com os modelos que aparecem nestas páginas. Aposta-se na permanência dessas efusivas traquitanas em um nicho muito específico, por ser dispendioso. Mas há imensa expectativa com a entrada em cena da… Apple. Sim, isso mesmo. A companhia de Cupertino deve lançar, em 2026, um dobrável, levando-se em conta os rumores que começam a brotar em detalhes. Analistas acreditam que a entrada da Apple no segmento de dobráveis ​​pode redefinir o mercado. O preço, contudo, pode representar um choque de realidade: 2 400 dólares, o equivalente a 13 000 reais. É muita coisa.

    Continua após a publicidade
    FEINHO - O StarTAC, da Motorola, lançado em 1996: o primeiro de abrir e fechar
    FEINHO – O StarTAC, da Motorola, lançado em 1996: o primeiro de abrir e fechar (./Divulgação)

    Contudo, não se deve desdenhar do passo hipotético da empresa, que só entra em cena para reinventar o modo como vivemos e que dita os padrões de design. Não se imagina que tenhamos todos dobráveis chamativos como os que a Samsung e a Huawei distribuem em lojas físicas e comércio eletrônico, e como a Apple deve fazer em breve, mas há um quê de fascínio que não pode ser menosprezado. Quem, afinal de contas, intuiu o StarTAC quando nasceu? Ou o iPhone? Vive-se um interessante capítulo, transformador de hábitos, e convém não deixá-lo de lado, ainda que pudesse incomodar Jobs. Amante do design limpo, sem firulas, pouco antes de morrer, em 2011, ele disse que o futuro da telefonia móvel não estava na casca, na aparência. “O futuro dos smartphones é o software”, cravou. É um bom ponto, tudo indica haver razão nessa ideia, mas o que custa ter a nostalgia dobrada?

    Publicado em VEJA de 19 de dezembro de 2025, edição nº 2975

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

    OFERTA RELÂMPAGO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    OFERTA RELÂMPAGO

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês.