Nova geração de picapes, mais potentes e sofisticadas, pega carona no movimento agro
A promessa é de conquistar terreno tanto no campo como nas cidades
Quem vive em regiões em que o agronegócio representa a principal atividade econômica já está acostumado a vê-las pelas ruas e estradas de terra. Mas, sob influência de um fenômeno cultural que também se faz notar no vestuário e na música, as caminhonetes estão rodando cada vez mais nos grandes centros urbanos. Basta percorrer as vias de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte para assistir a esse robusto desfile, corroborado pelos números de vendas no mercado. Segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as picapes já representam quase 20% do total de veículos comercializados no país. Na lista dos cinquenta modelos mais vendidos no ano passado, oito caminhonetes aparecem no ranking, que é encabeçado por uma representante da categoria, a Fiat Strada. Em 2026, o movimento seguirá firme e forte, mas com um diferencial: as montadoras vão apostar com tudo numa nova geração de picapes médias que combinam alta tecnologia, ares brutos e luxo.
Os lançamentos vêm atender a uma demanda relacionada a uma mudança na percepção acerca desses veículos. Se antes eram focados no trabalho pesado, agora são retratados como opções versáteis e robustas que podem encarar todo tipo de terreno e desafio. “As picapes estão mais sofisticadas, com mais equipamentos e tecnologias, evoluindo ano após ano”, afirma o especialista automotivo Cassio Pagliarini, da Bright Consulting. Dessa forma, passaram a ser consideradas boas alternativas pelos consumidores, especialmente os que já são fãs de SUVs — inclusive pelo atrativo da caçamba, que pode funcionar como um enorme porta-malas.
Os fabricantes estão de olho e querem acelerar o segmento neste ano. Alguns dos principais modelos apresentados no retorno do Salão Internacional do Automóvel de São Paulo, no final de 2025, começam a chegar ao mercado agora. A grande novidade é a Dakota, da Ram, primeiro modelo médio que a marca americana oferece. Recuperando o nome de uma antiga picape vendida no Brasil no final dos anos 1990, quando Ram e Dodge não haviam sido separadas, ela vai brigar em uma categoria de peso, em que a Hilux, da Toyota, e a Ranger, da Ford, têm larga vantagem frente aos concorrentes. “Esse segmento é importante em volume e rentabilidade, mas também porque seu consumidor é muito fiel”, afirma Juliano Machado, head da marca Ram na América Latina. Para encarar as rivais, a Dakota, que foi desenvolvida sobre a mesma plataforma da Fiat Titano, ganhou tecnologia e acabamento interno. Custa a partir de 290 000 reais. Respondendo à altura, a Hilux deverá ganhar uma nova geração em breve. E a Ranger, que chegou renovada em 2023, terá uma versão híbrida plug-in em 2027, com fabricação na Argentina. As novidades não param por aí.
Na última semana, a Volkswagen apresentou a Tukan, um projeto totalmente desenhado e produzido no Brasil, que deve substituir a Saveiro e colocar a marca alemã em um novo segmento, o das picapes intermediárias, que hoje é composto de Fiat Toro, Ford Maverick e Ram Rampage. A Kia mostrou no Salão do Automóvel a Tasman, que chegará ao Brasil no segundo semestre. E a Renault lançará a Niagara, símbolo de uma nova fase da empresa francesa, que já teve lançamentos importantes no país, como os SUVs Kardian e Boreal.
Diferentemente de outros nichos do mercado, como o dos SUVs, em que os chineses têm roubado a cena, em relação às caminhonetes as montadoras tradicionais continuam à frente. “Você não vê nenhuma picape chinesa substancialmente melhor ou mais equipada que os modelos a diesel oferecidos por aqui”, afirma Pagliarini. A BYD lançou a híbrida Shark no final de 2024, mas as vendas decepcionaram. Mais recentemente, a Foton apresentou a linha Tunland, com motorização diesel híbrida, e a GWM colocou no mercado a Poer, a diesel, sem eletrificação. É uma tentativa de ganhar uma fatia desse disputado território. Mas a tarefa não será fácil — nem para elas nem para as outras novas concorrentes. O cliente que busca uma caminhonete tende a ser fiel à marca, especialmente se o veículo não o deixar na mão nas situações mais extremas. No campo ou na cidade, a força bruta ainda é o maior atrativo da categoria.
Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982





