Quando menos é mais: SUVs compactos começam a ganhar espaço
Eles estão transformando os utilitários discretos em símbolo de um novo tempo
Não há dúvida: o ano de 2025, no Brasil, foi o da expansão de montadoras chinesas, com destaque para os veículos elétricos ou híbridos. A temporada de 2026 abre as janelas com uma outra briga nas ruas e estradas — a disputa por espaço na categoria dos chamados SUVs compactos. São modelos menores, mas com maior altura do solo e pacote robusto de tecnologias. Em um cenário em que os hatchbacks e os “populares” estão desaparecendo, os utilitários de menor dimensão — e adeus aos exageros — têm tudo para se tornar a principal escolha dos consumidores. Os lançamentos indicam apetite da indústria.
O carro mais recente a ser apresentado dentro da categoria é o Kait, da Nissan. Ele chegou para substituir a versão básica do Kicks, sucesso de vendas da fabricante japonesa. Não foi o único. A Toyota apresentou o Yaris Cross, um dos lançamentos mais aguardados do ano, previsto para ser entregue aos clientes em fevereiro. A Honda pôs na trilha a versão aperfeiçoada do WR-V, seu SUV de entrada. Outro lançamento relevante, ainda em 2025, foi o Tera, da Volkswagen. Segundo a fabricante, a ambiciosa meta do modelo é vender tanto quanto o Gol e o Fusca. Não será tarefa fácil, é natural, mas o Tera ficou no topo do ranking de mais vendidos em outubro e novembro do ano passado.
Somados, os utilitários já respondem por mais da metade dos veículos zero-quilômetro comercializados no Brasil. Segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), entre janeiro e novembro de 2025 os SUVs representaram 54,5% das vendas. Mas, afinal, o que atrai tanto as pessoas que ainda sonham com automóveis para esses modelos? Há, digamos, um quê de carícia na autoestima. “O posicionamento mais alto do motorista, o design e os equipamentos mais modernos são ofertas cativantes”, diz Milad Kalume Neto, da consultoria automotiva K. Lume.
É fundamental, contudo, no interessante momento, prestar atenção aos detalhes e diferenciar o joio do trigo, o que de fato é compacto do que não é. Os SUVs menores, batizados de B-SUVs, merecem destaque, e fazem parte desse grupo veículos como o Fiat Pulse e o Renault Kardian. Contudo, na disputa entre as marcas por vendas, entram no jogo, na fria contabilidade, modelos maiores, como o Volkswagen T-Cross e o Jeep Renegade. Mistura-se tudo porque os fabricantes querem bater tambor. E os chineses, que não pretendem sair de cena, trataram de importar os médios, peças da categoria de médios, os C-SUVs. É o caso do Haval H6, da GWM, do Song Plus, da BYD, e do EX5, da Geely. Acima deles despontam grandalhões como o Jeep Commander e o Toyota SW4, exemplares da categoria dos D-SUVs. Tudo somado, convém dizer que há SUVs e SUVs, e o que interessa, do ponto de vista novidadeiro, são os pequenos.
Um outro modo de seguir o andamento é medir os preços. Os realmente compactos, como o Kardian, o Tera e o Pulse, têm versões mais básicas na faixa dos 100 000 reais. O T-Cross esbarra nos 200 000 reais. Na ponta do lápis: como os pequeníssimos Mobi e Kwid custam em torno de 80 000 reais, faz sentido, sim, ir para um SUV utilitário. Há, porém, um entrave do ponto de vista de imagem, de respeito aos humores em defesa da sustentabilidade. Não há elétricos nem tampouco híbridos à disposição. O calendário de 2026, no entanto, aponta mudança de comportamento. O Yaris Cross terá uma versão híbrida. O Jeep Avenger, uma das novidades mais aguardadas, terá versões híbridas leves. Trata-se de uma tecnologia já usada no Pulse e no Fastback, da Fiat, e no 208 e 2008, da Peugeot, que reduz o consumo e as emissões. Irmão menor do Renegade, o Avenger foi apresentado no retorno do Salão do Automóvel de São Paulo em uma ação que reproduziu o lançamento da Grand Cherokee em 1992, em Detroit.
Na ocasião, o então CEO da Chrysler, Bob Lutz, estava ao volante do modelo que entrou no Salão quebrando, de modo espetacular, uma parede de vidro. Se conseguir reproduzir a trajetória vitoriosa do Renegade, que vendeu mais de 500 000 unidades em dez anos, o Avenger pode ser um dos sucessos de 2026. E será, enfim, o símbolo de novos tempos, em que a dimensão é fundamental, porque o exagero é feio, daí a celebração da turma embebida de robustez e versatilidade, mas como se estivesse a passeio.
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977








