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El Niño ameaça elevar preço dos alimentos e provocar desastres no Brasil e no mundo

Com a previsão de atingir intensidade inédita até o fim do ano, o fenômeno deixa autoridades em alerta

Por Valéria França Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 10 jul 2026, 06h00 | Atualizado em 10 jul 2026, 14h45
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Nas últimas semanas, a chapa esquentou para valer em cidades europeias como Paris e Londres, levando multidões exauridas pelo calorão acima de 40 graus a se jogarem em fontes e rios, inclusive de forma arriscada. A onda mal passou pela Torre Eiffel e pelo Big Ben, de Londres, contudo, e já atravessou o Atlântico, tornando metrópoles americanas como Nova York um caldeirão infernal e afetando os jogos da Copa. No sul da Europa, áreas florestais nessa região do continente vêm registrando incêndios impressionantes devido às altas temperaturas. Até na China, distante milhares e milhares de quilômetros dali, a situação se mostra preocupante: na segunda-feira 6, tempestades e tornados provocaram estragos e inundações, deixando quinze mortos no interior do país. Apesar das distâncias que separam tais lugares, todos esses eventos climáticos extremos são, de acordo com os meteorologistas, turbinados pelo mesmo fenômeno — ele próprio, aquele com nome de menino maroto, o El Niño. E o Brasil que também se prepare porque ele logo vem aí, desta vez com uma intensidade que deve quebrar recordes históricos.

CHAPA QUENTE - A corrida contra incêndio no sul da França, na semana passada: fenômeno exacerba intempéries, do fogo às inundações
CHAPA QUENTE – A corrida contra incêndio no sul da França, na semana passada: fenômeno exacerba intempéries, do fogo às inundações (Jean-Christophe Milhet/AFP)

Como sabem desde os cientistas até qualquer mortal que tenha de lidar com o calorão no planeta atualmente, já faz algum tempo que um “novo normal” se cristalizou: aceleradas pela ação do homem, as mudanças climáticas vêm provocando o aumento paulatino das temperaturas globais e, com isso, amplia-se a força de eventos como tempestades, ondas de calor, secas e enchentes. Num cenário assim, o El Niño atua como um catalisador capaz de expor a verdade sobre o clima de forma contundente. Embora seja algo comum e sazonal, o fenômeno provocado pela elevação da temperatura acima da média das águas do Oceano Pacífico hoje exacerba os efeitos do aquecimento climático, escancarando sua face mais destrutiva (veja o quadro). Com as mudanças no clima, a ciência aponta que ele vem se tornando mais frequente — e feroz. “O El Niño, que acontecia a cada dez anos, encurtou o intervalo para cerca de dois anos e está cada vez mais intenso”, diz Rubens Ferreira, coordenador do Programa de Compromisso com o Clima, do Instituto Ekos, hub que certifica projetos de carbono para empresas.

Neste ano de 2026, tudo indica que ele virá com potência notável — daí o apelido de “Super El Niño”. A intensidade de seus efeitos depende do grau de aquecimento das águas do oceano. Em abril, a NOAA, agência americana responsável pelo monitoramento do clima, detectou em alguns pontos do Pacífico temperaturas até 3 graus acima do usual. O levantamento mais recente, do começo de julho, apontou anomalias de 4 graus. Antes mesmo dessa medição, o Instituto de Clima e Sociedade da Universidade Columbia projetava, com 93% de probabilidade, que a temperatura média da superfície do Pacífico Equatorial poderá subir cerca de 3 graus — e não só em áreas isoladas, mas na média total. Se a projeção se confirmar, o El Niño crescerá rapidamente, a ponto de ser classificado oficialmente como muito forte.

SUFOCO SEM FIM - Calorão nas ruas de Londres: temperaturas muito acima da média atestam que a Europa é o continente que mais sofre com o aquecimento global
SUFOCO SEM FIM – Calorão nas ruas de Londres: temperaturas muito acima da média atestam que a Europa é o continente que mais sofre com o aquecimento global (Rasid N. Aslim/Anadolu/Getty Images)
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Embora obviamente essas preocupações ainda estejam no campo das previsões, portanto careçam de confirmação nos próximos meses, as memórias de episódios recentes do El Niño fornecem uma ideia assustadora do que pode acontecer. A versão deste ano deverá ser mais poderosa que a de 2024, responsável por uma sucessão de desastres ao redor do planeta. Entre eles, a tempestade Boris, que devastou a cidade espanhola de Valência, as enchentes que deixaram o Rio Grande do Sul submerso e a seca histórica no Zimbábue, onde 7,6 milhões de pessoas passaram a enfrentar insegurança alimentar depois que cerca de 70% da safra de milho, base da alimentação do país, foram destruídos.

A Organização das Nações Unidas (ONU) já emitiu um alerta. Sua agência especializada em clima, a Organização Meteorológica Mundial (OMM), prevê que o fenômeno ganhará intensidade até setembro, elevando o risco de ondas de calor, secas, chuvas extremas e outros eventos severos em diferentes regiões terrestres. Mortes, destruição de cidades, florestas e lavouras costumam ser acompanhadas de prejuízos e, muitas vezes, de crises políticas. Há registro de apenas um evento comparável em magnitude, ocorrido em 1877 a 1879, quando o El Niño ainda nem havia sido descrito pela ciência.

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Uma curiosidade histórica instrutiva: no Brasil, aquele período ficou conhecido como a Grande Seca e provocou a morte de cerca de 500 000 pessoas, desencadeando um êxodo em massa do Nordeste. O regime imperial teve de destinar cerca de 10% de seu orçamento para ações emergenciais de socorro. Diante da tragédia, dom Pedro II prometeu vender as joias da coroa para combater a fome — promessa que jamais se concretizou. A crise humanitária teve também elevado custo político, alimentando a insatisfação de grupos ligados ao governo e contribuindo para mudanças no comando ministerial.

Pela capacidade já demonstrada em anos e até séculos anteriores de provocar grandes impactos, o El Niño é monitorado de perto pelos principais centros meteorológicos do mundo. O aquecimento das águas do Pacífico pode persistir por até um ano e meio. Normalmente, cresce ao longo dos meses, atinge seu pico entre novembro e janeiro e depois perde força gradualmente. Para além das tragédias humanas e do rastro de destruição que costuma deixar, o El Niño tem outro efeito palpável: ele afeta a economia e, por tabela, as finanças dos governos e o bolso dos cidadãos.

EFEITO COLATERAL - Colheita no interior do país (à esq.) e a oferta de alimentos nos supermercados: turbulências do clima podem afetar a vida concreta dos brasileiros — e até os humores da política nacional
EFEITO COLATERAL – Colheita no interior do país (à esq.) e a oferta de alimentos nos supermercados: turbulências do clima podem afetar a vida concreta dos brasileiros — e até os humores da política nacional (Mateus Bonomi/Anadolu/Getty Images; Gustavo Minas/Bloomberg/Getty Images)
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A economia brasileira — em especial, o agronegócio — já conhece bem tais agruras. As principais instituições financeiras nacionais trabalham com projeções baseadas em um cenário climático adverso para 2026. Há expectativa de quebra de safra e de alta de até 8% nos preços dos alimentos até o fim do ano, segundo economistas da G5 Partners (veja o quadro). “Quando há quebra de safra, os efeitos costumam se estender até o ano seguinte”, diz Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro. Ele ressalta, porém, que essa conta ainda depende de outras variáveis que afetam o agro, como a oferta de fertilizantes no mercado internacional.

Nas projeções do Banco Central, o El Niño terá ainda efeito inflacionário certo: deverá acrescentar 0,3 ponto percentual ao índice IPCA em 2026 e mais 0,4 ponto percentual em 2027. Ou seja: tem potencial para influir nos humores da população diante dos preços nos supermercados — bomba que pode trazer tempo ruim inclusive para a popularidade do presidente Lula e de outros ocupantes de cargos políticos em pleno ano eleitoral.

Infográfico sobre o impacto do El Niño na economia brasileira, com título Clima ruim no bolso. Detalha aumento da inflação, redução na produção de soja e milho, encarecimento do transporte de grãos, culturas afetadas no Sudeste e Sul, e perdas na pecuária. Ícones amarelos ilustram cada tópico em fundo roxo e rosa

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O Brasil não está só, muito pelo contrário, entre os possíveis países que terão sua população e economia fustigados pelo El Niño. Governos e empresas pelo mundo estão se preparando para um evento singular, temendo por estragos sem precedentes em um planeta cada vez mais quente. Mesmo uma superpotência como os Estados Unidos não está livre da ameaça. No último dia 4, as comemorações do Dia da Independência americana foram interrompidas por uma forte tempestade com raios e inundações, associada a uma intensa onda de calor. O National Mall, em Washington, precisou ser evacuado.

Foi um incidente isolado, mas cheio de simbolismo. E a prova de que o El Niño assusta o governo americano é que até o durão Donald Trump voltou atrás em suas convicções ideológicas com temor pelo que se avizinha. Os Estados Unidos abrigam o National Center for Atmospheric Research (NCAR), considerado a “nave-mãe” da ciência climática. Desde o início de seu segundo mandato, porém, o presidente — conhecido pelo ceticismo com o aquecimento global — iniciou um processo de desmonte do sistema. Agora, a aproximação de um novo El Niño colocou o plano na berlinda. Ameaçado de investigações pelo Congresso, Trump teve de ceder e, em junho, recuou da decisão de desativar sistemas de monitoramento climático global, fundamentais para acompanhar o aquecimento dos oceanos e aprimorar as previsões.

MEMÓRIA DIFÍCIL - Cenas do El Niño de 2024: tempestade em Valência (acima, à esq.), enchentes no Sul, incêndio na Austrália (abaixo, à esq.) e morte de botos na seca da Amazônia
MEMÓRIA DIFÍCIL – Cenas do El Niño de 2024: tempestade em Valência (acima, à esq.), enchentes no Sul, incêndio na Austrália (abaixo, à esq.) e morte de botos na seca da Amazônia (David Ramos/Getty Images; Carlos Macedo/AP/Imageplus; Sam Mooy/Getty Images; Instituto Mamirauá/André Zumak/EFE)
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Enquanto isso, o restante do mundo, além de respirar aliviado com a decisão, tenta aumentar sua capacidade de adaptação com medidas para tornar cidades e áreas rurais mais resilientes em vista dos efeitos destrutivos das mudanças climáticas. A Europa tem desafios para além do El Niño: o continente aquece duas vezes mais rápido que a média global. A tendência foi confirmada pelo mais recente relatório do Copernicus, o Programa Europeu de Observação da Terra, elaborado em parceria com a OMM. Desde a Revolução Industrial (1760-1840), a temperatura média global já aumentou entre 1,37 e 1,44 grau, mas chegou a bater picos recordes na passagem de El Niños — como em 2024, ao atingir 1,55 grau acima da média. “Cada vez que o fenômeno volta, o ambiente está mais quente”, diz Mauricio Voivodic, da WWF-Brasil.

Diante das incertezas, os governos ao redor do planeta buscam fortalecer as respostas às possíveis catástrofes. Aí incluem-se não apenas prevenção e reparação por estragos ou a proteção da economia, mas a própria saúde da população. No Brasil, o governo federal anunciou um aporte de 9,8 bilhões de reais até 2035 para mitigar os impactos do El Niño e das mudanças climáticas sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), do atendimento emergencial a seus efeitos sobre a propagação de doenças como a dengue. É um passo prudente, sem dúvida — mas ainda insuficiente diante da magnitude das intempéries que se avizinham. Frente a um clima tão indomável, as autoridades e os cidadãos têm a obrigação de estar alertas. Não há tempo a perder.

Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003

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