Em inverno de extremos, calor e seca fazem disparar risco de queimadas no Rio
Com baixa umidade, vegetação ressecada e ventos intensos, estado enfrenta condições propícias para incêndios florestais
O Rio de Janeiro atravessa um dos períodos de maior risco para incêndios florestais dos últimos anos.
Depois de um inverno marcado por temperaturas acima da média, baixa umidade do ar e sucessivos dias sem chuva, autoridades estaduais reforçaram os alertas para o avanço das queimadas em praticamente todo o território fluminense.
Embora o inverno seja tradicionalmente a estação mais seca da Região Sudeste, meteorologistas afirmam que a combinação de calor intenso, vegetação ressecada e ventos fortes cria um ambiente propício para que pequenos focos se transformem rapidamente em grandes incêndios.
O problema se agrava porque a maioria das ocorrências tem origem na ação humana, seja pela queima de lixo, limpeza de terrenos ou descarte inadequado de materiais inflamáveis.
Dados de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que os registros de focos de calor vêm crescendo nas últimas semanas em diferentes municípios fluminenses, especialmente no Norte do estado, região historicamente mais suscetível aos incêndios durante o período seco.
O cenário levou órgãos estaduais de monitoramento a elevar o nível de atenção para incêndios florestais, diante da previsão de temperaturas elevadas, umidade relativa do ar abaixo dos níveis considerados ideais e rajadas de vento capazes de acelerar a propagação das chamas.
A preocupação não se limita às áreas de vegetação.
Incêndios próximos a rodovias podem interromper o tráfego, comprometer redes elétricas, provocar prejuízos à produção rural e deteriorar a qualidade do ar, aumentando os riscos para pessoas com doenças respiratórias.
Por que o inverno favorece as queimadas
Os meses entre junho e setembro costumam registrar volumes reduzidos de chuva em grande parte do Sudeste.
Com a passagem menos frequente de frentes frias, a vegetação perde umidade ao longo das semanas e passa a funcionar como combustível para o fogo.
Quando esse material seco encontra ventos intensos, comuns nesta época do ano, o incêndio ganha velocidade e pode percorrer grandes áreas em poucas horas.
Segundo meteorologistas, mesmo uma fagulha de pequena intensidade pode dar origem a um incêndio de grandes proporções quando as condições atmosféricas são desfavoráveis.
Além do calor, a baixa umidade relativa do ar acelera o ressecamento da vegetação rasteira, tornando o combate às chamas mais difícil e aumentando a velocidade de propagação do fogo.
Onde entra o El Niño
Os especialistas explicam que o aumento das queimadas não pode ser atribuído exclusivamente ao El Niño, mas o fenômeno ajuda a compreender por que os últimos anos registraram condições climáticas mais extremas.
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial permanecem mais quentes que o normal durante vários meses. Essa alteração modifica a circulação atmosférica em diferentes partes do planeta e influencia o regime de chuvas na América do Sul.
No Brasil, seus efeitos variam conforme a região. Enquanto o Sul costuma registrar chuvas acima da média, parte do Norte e do Nordeste enfrenta redução das precipitações. No Sudeste, os impactos são menos previsíveis, mas o fenômeno frequentemente contribui para ondas de calor mais intensas e períodos prolongados de tempo seco.
O episódio de El Niño de 2023-2024 foi um dos mais fortes já registrados neste século e elevou a temperatura média global a níveis recordes. Mesmo após o encerramento oficial do fenômeno, climatologistas afirmam que parte do calor acumulado nos oceanos continua influenciando a atmosfera, favorecendo extremos climáticos.
Esse efeito ocorre porque os oceanos armazenam enormes quantidades de energia térmica, que não desaparecem imediatamente quando o Pacífico retorna às condições consideradas neutras.
Mudança climática amplia os extremos
Pesquisadores destacam, entretanto, que o principal fator por trás do aumento da frequência e da intensidade das ondas de calor é o aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), os últimos anos foram os mais quentes desde o início das medições instrumentais. O aumento da temperatura média do planeta intensifica a evaporação, reduz a umidade do solo e prolonga períodos de seca, criando condições cada vez mais favoráveis às queimadas.
Estudos apontam que eventos extremos, antes considerados raros, tendem a ocorrer com maior frequência nas próximas décadas, exigindo mudanças tanto nas políticas de prevenção quanto na gestão das áreas naturais.
Prevenção continua sendo a principal estratégia
Especialistas lembram que a maior parte dos incêndios florestais brasileiros continua sendo provocada pela atividade humana.
Em condições climáticas severas, uma queima de lixo, uma fogueira mal apagada ou até uma bituca de cigarro descartada às margens de uma estrada podem iniciar incêndios capazes de destruir centenas de hectares de vegetação.
Por isso, órgãos ambientais recomendam evitar qualquer uso do fogo durante o período seco e reforçar o monitoramento de áreas de preservação.







