Estudo: Brasil diminui desmatamento em 2025
Queda foi de 20,5%, segundo MapBiomas, mas carrega um vasto e preocupante passivo de destruição ambiental
Uma boa notícia: em 2025, o Brasil diminuiu o desmatamento para menos de 1 milhão de hectares, o equivalente a extensão de oito cidades do Rio de Janeiro. É a primeira vez que isso acontece desde o início da série histórica do MapBiomas Alerta, em 2019. A queda foi de 20,6% em relação ao ano anterior. Agora a má notícia: o passivo de destruição acumulado é assustador. Em quatro décadas, o Brasil converteu 136 milhões de hectares de vegetação nativa em áreas destinadas à agropecuária — uma extensão maior que todo o território da África do Sul.
Os dados fazem parte da Coleção 11 do MapBiomas, que reconstruiu com a ajuda de imagens de satélites as transformações que ocorreram na cobertura e no uso da terra no país nos últimos 41 anos. Um terço do território brasileiro sofreu pelo menos uma mudança. Quando se compara diretamente a fotografia de 1985 com a de 2025, 241 milhões de hectares — 28% do Brasil — aparecem com uma cobertura diferente. Mais da metade dessa transformação corresponde à substituição da vegetação nativa pela agropecuária.
O problema não está apenas na quantidade de mata que desapareceu. A substituição da cobertura natural interfere no funcionamento dos ecossistemas: altera a circulação da água, aumenta a temperatura da superfície, reduz a capacidade do solo de armazenar umidade e carbono e pode tornar a paisagem mais vulnerável a secas, ondas de calor, incêndios e outros eventos extremos. Em outras palavras, mesmo que o desmatamento caia hoje, seus efeitos não desaparecem na mesma velocidade.
“Essa desaceleração imprime um ritmo menor de transformação da cobertura da terra, porém muitas regiões do Brasil já passaram por mudanças profundas, que afetam a sua resiliência aos eventos climáticos extremos, como o El Niño”, afirma Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas. Ecossistemas não respondem necessariamente às agressões de maneira linear. Existe o risco de que, depois de determinada combinação de desmatamento, degradação, aumento da temperatura e redução das chuvas, mecanismos naturais que ajudavam a manter aquele ambiente comecem a funcionar no sentido contrário. É o chamado ponto de inflexão: uma mudança capaz de se retroalimentar e tornar a recuperação muito mais difícil.
A Amazônia é o exemplo mais estudado. Uma pesquisa publicada em maio deste ano na revista científica Nature concluiu que o desmatamento torna a floresta mais seca e reduz sua capacidade de suportar o aquecimento global. Segundo os pesquisadores, sem considerar o desmatamento, um aquecimento global de 3,7°C a 4°C poderia colocar até um terço da floresta em risco de perder estabilidade. Quando a perda de vegetação entra na equação, esse limite cai, porque uma região desmatada reduz a umidade que seria transportada para outras partes da floresta. Forma-se assim um mecanismo de retroalimentação: menos floresta significa menos umidade, que favorece mais seca e torna outras áreas florestais mais vulneráveis.
Isso não significa que o Brasil tenha ultrapassado um único e mensurável “ponto de não retorno”. Os limites variam conforme o ecossistema, e há incerteza científica sobre quando determinadas transições se tornam irreversíveis. Mas significa que conservar a vegetação restante e recuperar áreas degradadas não serve apenas para preservar espécies: ajuda a manter sistemas naturais dos quais dependem a agricultura, a produção de energia e o abastecimento de água.







