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“Ainda acredito que vou recuperar minha visão”

Arthur Cortines, vascaíno de 18 anos, perdeu a visão de um dos olhos durante uma briga de torcidas organizadas - da qual não participou

Por Luiza Zubelli 10 jun 2026, 08h00 | Atualizado em 10 jun 2026, 10h05
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Torcedor fanático do Vasco da Gama, gosto de acompanhar meu time nos estádios. Tenho particular atração por partidas contra nosso maior rival, o Flamengo, embates que faço de tudo para acompanhar das arquibancadas. Tem sido assim desde pequeno. O dia 3 de maio, data de mais um “clássico dos milhões”, era para ser mais um domingo de diversão, principalmente depois do empate, conquistado em campo, que teve gosto de vitória. Só não imaginava que o esporte que sigo com tanto afinco e que me deu tanto prazer iria se tornar um dos episódios mais traumáticos em toda minha vida. Perdi a visão de um olho graças a desorganização da polícia e à intolerância irracional entre torcidas adversárias.   

Naquela tarde de domingo, após o apito final, fiquei mais um tempo comemorando um empate de 2 a 2 que causou uma enorme euforia em nossa torcida. Ao sair do Marcanã, estádio que costumo frequentar e que conheço bem, vi alguns tumultos. Não tinha, no entanto, nenhuma briga. A polícia tentava dispersar a multidão para não haver confusão. Montados sobre cavalos, alguns agentes vieram em minha direção e acabei me prensado contra uma grade, junto a outros torcedores. Tinham famílias tentando se proteger, mas mesmo assim, os policiais distribuíram golpes de cacetete. Aquelas pessoas tentavam mostrar que não estavam fazendo nada e só queriam ir para casa. Achei melhor sair dali e corri para trás. Um vendedor ambulante alertava para ninguém correr, porque podia ser pior. Me virei para averiguar a situação e fui surpreendido com o tiro de uma bola de borracha no rosto. Foi do nada, eu já estava bem longe da confusão. 

Senti o golpe como se tivesse levado um soco. Só me lembro de abaixar a cabeça e ficar com a visão turva. Alguns segundos depois, começou a escorrer muito sangue para o chão. Eu comecei a gritar por socorro. Um vascaíno, que também se chamava Arthur, se compadeceu e tentou me ajudar. Com a mão em meu ombro, me guiou em direção a uma viatura. Outros policiais da cavalaria me escoltaram. Achei que fosse morrer, sem ter feito nada num jogo entre Vasco e Flamengo. Pedi ajuda para os policiais, só que um deles me xingou, disse que não era médico e me expulsou de lá. Depois disso, voltei a apelar, gritando. Alguns policiais não gostaram e já estavam puxando o cacetete para bater na gente de novo, então o Arthur me abraçou. Por sorte, outro torcedor tirou a gente do meio da confusão.

Avistamos uma ambulância e fomos na direção dela. Paramos na frente do veículo, mas os paramédicos não queriam abrir a porta. Eu tive que tirar do rosto a camisa que estava usando para estancar o sangue para eles verem o meu olho machucado. Só quando perceberam a gravidade da situação, eles resolveram estacionar a ambulância no canto da rua. Recebi os primeiros socorros, mas a ambulância era particular e, por isso, não poderiam fazer nada por mim. Os paramédicos chamaram o SAMU, mas eles só conseguiriam chegar duas horas mais tarde. Peguei um táxi e fui sozinho até o Hospital Miguel Couto, no Leblon, na Zona Sul da Capital. Lá, recebi outra notícia desesperadora: não havia oftalmologista para me atender. Esperei meus pais chegarem e fomos juntos para o Hospital Souza Aguiar, no Centro do Rio. Lá, um médico especialista me avaliou e, após poucos exames, me contou que havia perdido a visão de um dos olhos. Foi um choque para mim, eu fiquei transtornado com a notícia.

Ainda assim, duas cirurgias eram necessárias, uma para fechar um corte de 3 centímetros que tinha dentro do olho, outra para corrigir fraturas, que iam do nariz ao maxilar. Fui orientado a procurar um hospital particular, caso tivesse plano de saúde, porque não sabiam quando seria possível fazer as operações. Assim, terminei no Hospital São José, em Botafogo, onde finalmente consegui ser internado. Durante a minha recuperação, o médico disse que seria bom evitar esportes de contato para sempre. Eu pratico basquete desde pequeno, então isso me preocupou ainda mais. Apesar dos prognósticos, ainda acredito que eu vou recuperar a minha visão. Minha paixão pelo Vasco continua, mas não sei como vou lidar com tudo isso daqui para frente.

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