Como as acusações contra Lulinha impactam a imagem de Lula, segundo pesquisa
Eleitor cobra que presidente não interfira, segundo o Democracia em Xeque; estrago imedato foi contido, mas caso se desenha como a principal arma da oposição
Na política, poucas coisas são tão decisivas quanto a primeira impressão produzida por uma crise. A transformação da investigação da Polícia Federal envolvendo o empresário Fábio Luís Lula da Silva, Lulinha, em ativo político e o potencial do caso para a campanha do presidente foram analisados pela nova rodada do Painel Narrativo Semanal do Instituto Democracia em Xeque (DX), divulgada nesta terça-feira, 4.
O filho do presidente virou nos últimos dias alvo de três inquéritos por tráfico de influência, ou seja, atuação junto ao governo para beneficiar empresas privadas, entre elas pelo menos uma ligada ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, principal personagem do escândalo das fraudes na Previdência.
A reação inicial de Lula ao surgimento do caso envolvendo seu filho foi bem recebida nesta semana e evitou uma derrocada instantânea, conforme a análise. A percepção do eleitorado médio de que o presidente não deve interferir no trabalho das autoridades e que o processo precisa correr de forma republicana garantiu uma trégua temporária.
Após a abertura do inquérito, Lula disse durante uma entrevista para o podcast Inteligência Ltda que não iria interferir nas investigações. “Se meu filho for acusado de qualquer coisa, ele será tratado como o filho de qualquer pessoa. Como eu. Não haverá nenhum privilégio”, afirmou o presidente da República, que completou: “não vai ficar escondido”. “Jamais pedirei para um juiz não fazer a coisa correta. Se ele tiver certo, vai ter ajuda minha. Se fizer coisa errada, ele sabe o que eu passei. Sabe o que é ver na TV me chamarem de ladrão. Sabe que minha mulher morreu por causa da Lava-Jato. “
Do outro lado da moeda — e é aqui que os estrategistas do governo perdem o sono —, o alívio tem prazo de validade curto. “O eleitor pendular não deu um cheque em branco. A leitura é clara: a postura de não ingerência é vista como obrigação, não como virtude. O caso tem potencial inflamável para ser explorado pela oposição durante toda a campanha”, diz a análise do estudo.
O peso do desgaste relacional
A pesquisa mostra que o eleitor atual decide o voto mais pela rejeição ao adversário do que pela convicção no seu candidato. Por um lado, Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta desconfianças e tenta estancar a sangria de sua imagem apelando a vídeos de trégua familiar e acenos ao eleitorado feminino; por outro, a margem de Lula para errar zerou.
A tal “proteção com baixa emoção” que ainda sustenta Lula frente aos indecisos pode ser facilmente corroída caso a apuração sobre Lulinha ganhe novos desdobramentos ou desvios de conduta do governo. A oposição já percebeu a brecha e prepara a artilharia.
O que o estudo qualitativo deixa evidente é que não há “dano totalmente contido” quando o assunto toca na espinhosa relação entre poder e família.
Entre os participantes, a declaração de que Lulinha deve responder à Justiça como qualquer cidadão foi entendida como a única resposta aceitável de um chefe de Estado — não como um gesto capaz de encerrar o assunto. Se novos fatos surgirem ao longo da campanha, a percepção registrada nesta rodada poderá ser revista.







