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Corrupção e falhas de governança pressionam setor de saúde e exigem nova agenda de integridade

Painel do INAC reúne governo, regulador e mercado para discutir riscos estruturais e caminhos para fortalecer transparência e controle social

Por Redação VEJA Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 31 mar 2026, 16h57
  • O avanço de práticas irregulares e falhas de governança no setor de saúde, agravadas no período pós-pandemia, impõe a necessidade de uma nova agenda de integridade que envolva Estado, mercado e sociedade civil. Esse foi o diagnóstico central do painel A luta por integridade na saúde no Brasil, realizado no seminário Caminhos contra a Corrupção, promovido pelo Instituto Não Aceito Corrupção (INAC).

    Com mediação de Renato Porto, presidente executivo da Interfarma, o debate reuniu Bruno Sobral, diretor executivo da FenaSaúde, Eliane Medeiros, diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), e o ministro Vinícius Marques de Carvalho, da Controladoria-Geral da União (CGU).

    Na abertura, Porto relembrou que escândalos como o da “máfia das próteses” impulsionaram iniciativas de integridade no setor e destacou que o desafio atual vai além de casos isolados de corrupção. Segundo ele, trata-se de equilibrar interesses econômicos legítimos com o objetivo central do sistema de saúde: garantir acesso a tratamentos de qualidade.

    Explosão de corrupção depois da pandemia

    Dados apresentados no painel indicam a dimensão do problema. Pesquisa do Instituto Ética Saúde apontou que 91% dos agentes do setor percebem aumento da corrupção após a pandemia, especialmente em compras públicas, contratos hospitalares e gestão de recursos do Sistema Único de Saúde (SUS). Ao mesmo tempo, levantamentos mostram deterioração da confiança: metade dos médicos afirma não confiar nas operadoras de planos de saúde, enquanto consumidores relatam dificuldades como negativas de cobertura e reajustes elevados.

    Ao abordar o funcionamento do setor, Bruno Sobral destacou que a integridade está diretamente ligada à qualidade dos contratos e aos incentivos econômicos. Segundo ele, a saúde suplementar é marcada por forte assimetria de informação entre pacientes, médicos e operadoras, o que abre espaço para conflitos e comportamentos oportunistas. “A ética também é um instrumento de eficiência na alocação de recursos”, afirmou, ao defender modelos contratuais que reduzam distorções e estimulem práticas adequadas.

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    Sobral citou ainda problemas recorrentes na cadeia, como fraudes na entrada de beneficiários, conflitos com prestadores e distorções geradas por modelos de remuneração que incentivam volume em detrimento de qualidade. Para ele, mecanismos como avaliação de tecnologias em saúde e compartilhamento de risco com a indústria são caminhos para melhorar a governança.

    Insatisfação crescente

    Na perspectiva regulatória, Eliane Medeiros apresentou o impacto da crescente insatisfação dos usuários. Segundo ela, o número de reclamações na agência saltou de cerca de 135 mil em 2019 para 375 mil em 2024. A diretora afirmou que a resposta da ANS tem sido reformular o modelo de fiscalização, com foco em prevenção, transparência e responsabilização.

    Ela destacou a criação de novas normas para melhorar o atendimento ao consumidor e aumentar a rastreabilidade das decisões das operadoras, além de um modelo de fiscalização “responsiva”, que combina orientação e punição conforme o comportamento das empresas. “Integridade é ética, transparência e informação”, resumiu.

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    A necessidade de uma mudança estrutural

    Já o ministro Vinícius Marques de Carvalho defendeu uma mudança estrutural na forma de enfrentar a corrupção. Segundo ele, o problema não pode mais ser visto apenas como desvio individual na relação entre Estado e mercado, mas como fenômeno enraizado nas relações econômicas e institucionais.

    O ministro criticou abordagens exclusivamente repressivas e destacou a necessidade de ampliar mecanismos de prevenção, transparência e participação social. Para ele, a corrupção deve ser entendida como abuso de poder — tanto público quanto privado — e enfrentada com sistemas de integridade e gestão de riscos dentro das próprias organizações.

    Carvalho também apresentou dados sobre o aumento da capacidade de investigação do Estado. Segundo ele, operações recentes identificaram prejuízos bilionários que já existiam, mas não haviam sido revelados. “Não é que a corrupção surgiu agora, mas que ela está sendo mais combatida”, afirmou.

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    A saída das soluções integradas

    Ao longo do debate, os participantes convergiram na avaliação de que o setor de saúde, pela sua complexidade e volume de recursos, exige soluções integradas. A relação entre público e privado, característica central do sistema brasileiro, amplia tanto os riscos quanto a necessidade de coordenação institucional.

    No encerramento, ficou evidente que o avanço da integridade depende não apenas de regulação e fiscalização, mas também de maior engajamento da sociedade. A ampliação da transparência, o acesso a dados e o fortalecimento do controle social foram apontados como elementos decisivos para reduzir distorções e melhorar a qualidade do gasto em saúde.

    A discussão reforçou que, diante da centralidade do setor para a população, a integridade deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar posição estratégica no debate sobre políticas públicas no país.

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