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Em expansão, Comando Vermelho trava guerra por poder no berço carioca das milícias

Trata-se de uma área lucrativa e estratégica para o crime

Por Ludmilla de Lima Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 11 jul 2026, 08h00
Em expansão, Comando Vermelho trava guerra por poder no berço carioca das milícias Priorizar nos meus resultados Google

Uma fila de blindados da polícia na movimentada estrada que conduz a Rio das Pedras, uma das maiores e mais populosas favelas do país, é o prenúncio da alta tensão que permeia a vasta região na Zona Sudoeste carioca. Não há trégua nesse naco da cidade conhecido por ser o berço das milícias, que começaram a se alastrar a partir dali, nos anos 1980, e avançaram. Após dez dias seguidos de tiroteio, em junho, a tentativa da população, estimada em 140 000 pessoas, é de voltar ao velho normal — ou seja, uma vida à sombra do medo, mas sem balas cruzando a toda hora os céus. O estado de guerra que se instaurou por lá é a face visível de uma das mais acirradas disputas dos últimos tempos entre poderosas facções em solo fluminense, na qual o Comando Vermelho (CV) se movimenta no xadrez do crime justamente para abocanhar a joia da coroa da milícia — uma área que abrange um leque diverso de atividades ilegais, oferece possibilidade de expansão e ainda serve de rota de fuga para a bandidagem.

Nos últimos dias, a reportagem de VEJA percorreu vielas de Rio das Pedras e esbarrou com muita gente naturalmente assustada, mesmo já tão habituada ao cotidiano de violência. O barulho de tiros às vezes chega à vizinha Barra da Tijuca, bairro repleto de bons condomínios, onde o temor de uma escalada também cresce. “São duas organizações em guerra, uma tão perigosa quanto a outra”, afirma Jefferson Ferreira, à frente da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco). O que dá contornos mais tenebrosos à batalha por terreno é que ambas estão se armando até os dentes e cooptando aliados — a milícia se juntou a traficantes do Terceiro Comando Puro (TCP), enquanto o CV vem recebendo reforço de milicianos que mudam de lado na aposta de elevar os ganhos. Nos últimos tempos, o CV já se apoderou de relevantes domínios dos adversários, dos quais absorveu os métodos. “O tráfico passou a adotar um sistema de exploração territorial como o da milícia, e Rio das Pedras é a fronteira mais importante ainda nas mãos dos rivais”, explica o cientista político Pablo Nunes, diretor do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania.

Dados do setor de inteligência da Segurança do Rio, obtidos por VEJA, mostram que os milicianos faturam ali, por mês, 4 milhões de reais com a venda de gás e outros 3 milhões com a oferta (compulsória) de internet pirata. A opressão é tanta que até quem ganha na loteria já foi forçado a dar um quinhão do prêmio aos marginais. A taxa por uma caixa d’água custa 50 reais mensais, e vaga na rua também é cobrada. O lucro mais vultoso, porém, vem do setor imobiliário. A polícia identificou que, em 2025, esse mercado girou 10 bilhões de reais na área que abrange, além de Rio das Pedras, as comunidades da Muzema e de Gardênia Azul (estas duas atualmente sob o comando do CV). Qualquer um que decida montar um negócio por lá já sabe: será extorquido. “Eu pago 100 reais todo mês, mas há valores bem maiores, variando de acordo com o tamanho do estabelecimento”, relata o dono de uma banquinha de doces.

REAÇÃO - Presença de caveirão (à esq.) e apreensão de armas: jogo de gato e rato entre policiais e os bandidos no comando
REAÇÃO - Presença de caveirão (à esq.) e apreensão de armas: jogo de gato e rato entre policiais e os bandidos no comando (Divulgação; Reginaldo Pimenta/Ag. O Dia/Estadão Conteúdo/.)

O patamar da violência na favela do Rio em que hoje as quadrilhas mais duelam por poder subiu a um tal nível que a polícia só consegue se infiltrar em algumas zonas — e não é mais com as poucas viaturas de antes, mas montando operações de maior envergadura. De tão ousados, os traficantes fizeram uso inclusive de drones como lançadores de granadas contra os milicianos. Foi aí que a PM pôs de pé uma força-tarefa formada por diferentes unidades, entre as quais tropas de elite como o Bope e o Batalhão de Choque, com saldo até agora de três presos. A expansão do CV naquelas bandas é capitaneada por Edgard Alves de Andrade, o Doca, cujo QG é o Complexo da Penha, na Zona Norte, palco de uma megaoperação em outubro do ano passado. Seu braço direito, Juan Breno Malta, o BMW, é quem pilota as ações em campo e comanda uma certa “equipe do caos”, o grupo que espalha a barbárie enquanto tenta enraizar-se em novas vizinhanças.

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A mais recente pesquisa sobre porções da região metropolitana do Rio sob a tutela dos criminosos, conduzida pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF, mostra que o Comando Vermelho se pôs na dianteira, respondendo por 47,5% de todas as áreas onde os bandidos dão as cartas, contra 43% das milícias, que andaram enfraquecendo com a perda de quadros graúdos. Foi em 2023 que se deu a ultrapassagem de um bando pelo outro, parte de um movimento maior — o CV vem ganhando estofo e cruza com rapidez a fronteira fluminense, já tendo fincado tentáculos em 24 estados. O recrudescimento da violência em Rio das Pedras acabou vindo antes de um plano, que seguia determinação da ADPF das Favelas, de retomada pelo Estado de toda aquela região, onde imperam a desordem urbana e os fuzis. O documento que estabelece os pilares para a reocupação de tão conflagrado pedaço foi entregue em dezembro passado ao Supremo Tribunal Federal, onde está em fase de avaliação, aguardando o sinal verde. Que saia logo do papel em nome de centenas de milhares de pessoas que dormem e acordam ao som de tiros.

Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003

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