Fim da jornada 6×1 deve elevar mensalidades escolares em 23%
Impacto financeiro para milhares de famílias deve levar 600.000 estudantes a migrar de escolas privadas para públicas
Uma das bandeiras eleitorais do presidente Lula, o fim da jornada de trabalho 6×1 deve ter impacto devastador nos gastos das famílias com educação privada, revela um estudo encomendado pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino, a Confenen.
Somado ao reajuste anual das instituições, o aumento nas mensalidades para as famílias brasileiras deve chegar a 23%, caso o Senado aprove o texto em discussão no Congresso.
Além de doer no bolso dos brasileiros que já estão sobrecarregados por uma série de impostos que foram reajustados no mandato de Lula, o levantamento da Confenen mostra que muitas famílias não terão como pagar educação privada, diante do cenário de encarecimento de mensalidades por causa do fim da jornada 6×1.
Com isso, as escolas públicas devem ser impactadas com a chegada de até 600.000 alunos vindos de colégios privados.
O levantamento considera o repasse estimado da reforma (8% a 11%) somado ao reajuste anual das mensalidades, já estimado entre 9% e 12%.
O estudo chega em momento decisivo: o relator da proposta na Comissão de Constituição e Justiça, senador Omar Aziz (PSD-AM), apresentou nesta quinta parecer favorável mantendo o texto aprovado pela Câmara dos Deputados e rejeitando as 12 emendas apresentadas ao texto.
O levantamento, que reconhece a legitimidade da pauta da redução de jornada, sustenta que o impacto real sobre o setor educacional depende de um detalhe técnico da redação legislativa: se o segundo dia de descanso da escala 5×2 será tratado como folga compensatória — como já ocorre há décadas com comerciários, bancários e administrativos — ou como segundo repouso semanal remunerado, o que alteraria o cálculo do salário do professor horista.
A partir dessa definição, o estudo elabora três cenários de impacto, caso o Senado aprove a medida. Leia o estudo:
“Cenário conservador: 9,3 bilhões de reais por ano
Na leitura mais favorável à reforma, com jornada reduzida de 44 para 40 horas semanais sem reflexo no descanso semanal remunerado (DSR), o impacto sobre a folha da educação privada seria de aproximadamente 9,3%, equivalente a R$ 9,3 bilhões por ano — ou R$ 25 por aluno por mês. O cenário admite ganho de produtividade horária de 2% no magistério e considera o impacto absorvível pela maioria das instituições, com repasse moderado às mensalidades.
Cenário central: R$ 17,3 bilhões por ano
No cenário apontado pelo estudo como o mais provável caso o texto não receba salvaguarda específica, o segundo dia de descanso seria qualificado como repouso remunerado para professores horistas — que respondem por cerca de 55% da folha docente do setor. Nesse caso, o cálculo do DSR passaria de 1/6 para 2/5, elevando em 20% o custo do pacote salarial do professor horista antes de qualquer outro mecanismo. O impacto total sobre a folha seria de 17,3%, ou R$ 17,3 bilhões por ano (R$ 47 por aluno por mês) — valor que, segundo o estudo, excede a margem operacional da maioria das instituições e força repasse de preços, redução de oferta e fechamento de unidades nos segmentos mais expostos.
O ensino superior privado é o segmento mais atingido. A grande maioria do quadro docente é horista, com remuneração calculada por aulas semanais e múltiplos vínculos — a fração horista frequentemente ultrapassa 80%. Com o DSR amplificado, o impacto agregado sobre a folha do ensino superior privado alcança 22% a 28% no cenário central. Segundo o estudo, esse é o segmento que tende a responder de forma defensiva: fechamento de cursos noturnos, fragmentação de contratos e migração de professores para o regime de pessoa jurídica — movimento que pode reduzir a oferta de vagas justamente no turno que atende trabalhadores.
A esse impacto recorrente soma-se um passivo de litigância retroativa estimado em R$ 15 bilhões, decorrente de ações trabalhistas dos últimos cinco anos por professores que já trabalham em escala 5×2. O valor equivale a uma média de R$ 320 mil por escola — superior ao patrimônio líquido de uma fração relevante das pequenas escolas familiares.
Cenário adverso: R$ 31,6 bilhões por ano
No cenário mais severo, compatível com a qualificação plena dos dois dias como repouso remunerado, jornada de 36 horas semanais e cobertura completa das horas-aula, o impacto alcançaria 31,6% da folha, ou R$ 31,6 bilhões por ano (R$ 85 por aluno por mês). Nesse cenário, o estudo projeta descontinuidade de oferta em escolas de menor margem no horizonte de dois a três anos.
Os mecanismos de transmissão para as famílias
O impacto sobre custos propaga-se por três caminhos: repasse para a mensalidade, compressão da margem das escolas e redução de oferta nas instituições menores. No cenário central, o repasse necessário para preservar a margem situa-se entre 8% e 11% da mensalidade — R$ 50 a R$ 90 a mais por mês para uma família de classe média baixa em escola popular (mensalidade média de R$ 800) e R$ 250 a R$ 450 para famílias em escolas premium (mensalidade média de R$ 4.500).
Esses percentuais, porém, não incluem o reajuste anual das mensalidades, já estimado entre 9% e 12%. Somados, reforma e reajuste anual podem levar o reajuste médio das mensalidades a até 23% no próximo ciclo escolar.
Como a demanda por educação privada reage fortemente a aumentos de preço (elasticidade estimada entre -0,3 e -0,9), o estudo projeta evasão de 5% a 8% nas escolas populares e de 2% a 3% nas premium — o equivalente a entre 450 mil e 720 mil novas matrículas na rede pública. Com custo médio por aluno-ano de R$ 7.500 no ensino fundamental e R$ 10.000 no ensino médio, a migração geraria ônus fiscal compensatório de R$ 4 a R$ 6 bilhões por ano, transferido majoritariamente a estados e municípios.
Avaliação crítica do texto em tramitação
O estudo aponta que o texto aprovado pela Câmara e mantido pelo relator reduz a jornada máxima para 40 horas e garante dois dias de repouso semanal remunerado sem redução salarial, mas não distingue claramente a redução da jornada da redefinição do DSR.
Para a Confenen, a qualificação do segundo dia como repouso remunerado criaria uma assimetria regulatória: o professor horista passaria a receber 2/5, enquanto os demais trabalhadores em escala 5×2 continuariam com 1/6 — abrindo espaço para litigância cruzada entre categorias.
A entidade defende uma cláusula de salvaguarda que preserve a interpretação da Súmula 351 do TST para o exercício do magistério, sem alterar a Súmula nem a CLT, e com prioridade para a negociação coletiva. “Não estamos pedindo menos descanso para professores, apenas equiparação ao tratamento já conferido a mais de 30 milhões de brasileiros que trabalham em escala 5×2″, afirma a entidade.”







