Flávio Bolsonaro abre campanha escorado na figura do pai
Para o bem e para o mal, filho de Jair Bolsonaro tenta ir ao segundo turno com Lula explorando capital político do ex-mandatário
Valendo-se da certidão de nascimento e do mesmo sentimento antipetista que beneficiou o pai em 2018, o senador Flávio Bolsonaro colocou na rua, no domingo, sua campanha ao Palácio do Planalto num evento na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Ciente de que Jair Bolsonaro é seu principal motor eleitoral e, ao mesmo tempo, seu maior ponto fraco, Flávio discursou questionando o “medo” que muitos tem do nome Bolsonaro — “eu sempre disse que não precisa ter medo de Bolsonaro” — e comparando o pai dele a ninguém menos que… Pelé.
“Eu sei que vocês estão aqui olhando para mim nesse momento e lembrando de uma pessoa. Eu sei que eu pareço com ele, mas é difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé”, disse Flávio.
O senador lançou-se candidato contra a vontade de boa parte dos aliados de direita que tentam derrotar Lula e o PT nesta campanha eleitoral. De todos os nomes que poderiam representar o bolsonarismo, Flávio é visto com maior satisfação pelo petismo por ser, na visão de Lula e de seus aliados, o nome que mais rejeição provoca no eleitorado não polarizado — o mais fácil de derrotar.
Os escândalos de corrupção e histórias ainda mal contadas dão a Lula algum tipo de discurso contra Flávio, quando o tema vai para esse passado nebuloso na vida pública.
Alvo de investigações no STF por ter pedido dinheiro ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para um filme sobre o pai dele — dinheiro esse sem prestação de contas –, Flávio não falou do tema. Para não entrar nesse debate, buscou levar a atenção do eleitor aos problemas do terceiro mandato petista no Planalto.
“A gente está em um lugar onde o atual presidente da República não pode pisar porque é alguém odiado pelo povo. É o presidente da República que está deixando de legado o sofrimento, a perseguição, a incompetência e a corrupção”, disse Flávio.
O domínio do clã sobre a direita está em jogo e será testado nessa primeira campanha de Flávio. Ele se dedicou a lembrar a figura do pai, ainda que prometa ser completamente diferente no governo.
Até o evento deste domingo, a campanha do senador foi muito mais Jair do que seus aliados e ele próprio gostariam. Houve confusão, traições, conspiratas e muito amadorismo em diferentes pontos da construção da campanha bolsonarista — algo que lembra bem o que foi a aventura de Jair Bolsonaro no Planalto.
Sem uma linha estratégica, Flávio viu seu irmão que mora nos Estados Unidos criar diferentes confusões ao chamar para si a responsabilidade por medidas impopulares adotadas pelo governo de Donald Trump contra o Brasil, como os tarifaços e sanções econômicas.
Flávio não citou Trump nem Estados Unidos, mas criticou Lula por faturar com o discurso de soberania nacional. “Nós perdemos a nossa soberania. Nós hoje não temos mais soberania sobre o nosso celular. Não temos mais soberania sobre o nosso carro”, disse Flávio.
“O atual governo é um governo que briga com todo mundo, mas briga com quem está longe. Briga com países que estão a 10.000 quilômetros de distância da gente. Briga com países que estão em outro continente. Mas o atual governo não briga com ladrão de celular. O atual governo não briga com traficante. Não briga com estuprador. Não briga com assaltante. Não briga com assassino”, seguiu Flávio.
Sem experiência em mandatos no Executivo, Flávio tem rejeição semelhante — e em alguns levantamentos maior — ao quadro traçado pelas pesquisas sobre o presidente Lula.
Sua campanha anda no fio da navalha, assim como a do petista, mas aposta que o patrimônio eleitoral de Jair Bolsonaro consiga levar Flávio ao segundo turno.
É um jogo de risco, mas o único que o clã Bolsonaro, em nome de preservar seu poder, aceitou jogar.







