Gilmar Mendes defende mais mulheres no STF: ‘Precisamos superar’ desigualdade
Ministro diz que presença feminina cresce na magistratura, mas não se reproduz nos tribunais superiores; Corte teve três mulheres na história
A presença de mulheres na magistratura brasileira cresceu nas últimas décadas, mas essa ascensão ainda encontra um obstáculo quando se chega ao topo do Judiciário. Em entrevista a VEJA, o ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF), reconheceu a desigualdade na composição dos tribunais superiores e defendeu a necessidade de ampliar a presença feminina nas cortes. “O provimento das vagas nos tribunais superiores já não se dá com essa mesma expansão e pelo menos com a mesma igualdade”, afirmou.
A declaração foi dada após um evento realizado nesta quinta-feira, 28, no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), em São Paulo, que reuniu especialistas para discutir a violência contra as mulheres no ambiente digital. Ao conversar individualmente com a reportagem, Gilmar foi questionado sobre a predominância masculina no STF e sobre a possibilidade de a próxima composição da Corte refletir de maneira mais equilibrada a sociedade brasileira.
O ministro afirmou que a realidade encontrada nas instâncias inferiores é diferente. Segundo ele, a presença feminina é “muito marcante” nas primeiras instâncias e há concursos em diferentes Estados nos quais as mulheres chegam a ser mais bem-sucedidas do que os homens. “É um sinal importante de vitalidade de gênero que a gente tem”, disse.
O cenário, contudo, muda à medida que se avança na hierarquia do Judiciário. Para Gilmar, a menor presença de mulheres nos cargos mais altos das cortes não pode ser dissociada de uma questão cultural. “Precisamos superar”, afirmou, ao defender a ampliação da participação feminina nos tribunais superiores.
Três mulheres em toda a história
A história do STF ajuda a dimensionar a distância apontada pelo ministro. Em mais de dois séculos de existência da Corte, apenas três mulheres chegaram ao cargo de ministra.
A primeira foi Ellen Gracie Northfleet, nomeada em 2000 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Além de inaugurar a presença feminina no Supremo, ela presidiu a Corte entre 2006 e 2008 e permaneceu no tribunal até 2011.
Seis anos depois da chegada de Ellen Gracie, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeou Cármen Lúcia Antunes Rocha, que continua no STF. Em 2011, durante o governo de Dilma Rousseff, foi a vez de Rosa Weber, que permaneceu na Corte até sua aposentadoria, em 2023.
Desde então, Cármen Lúcia é a única mulher entre os onze integrantes do Supremo — uma composição que contrasta com o avanço feminino observado em outras etapas da carreira judicial.
A discussão ganha novo peso diante das próximas mudanças na Corte. A aposentadoria e a abertura de novas vagas colocam novamente em evidência a escolha presidencial dos ministros e, com ela, o debate sobre quem ocupa os espaços de maior poder no Judiciário brasileiro.
Representatividade também é questão institucional
Para Gilmar, a presença de mulheres e de outros grupos sub-representados nas instituições não é apenas uma questão simbólica. O ministro relacionou a composição das cortes à capacidade do Judiciário de compreender uma sociedade marcada por diferenças de gênero, raça e origem social.
Ele citou, como exemplo, iniciativas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) durante a presidência de Luís Roberto Barroso para ampliar o acesso de candidatos negros à magistratura. A ideia, segundo Gilmar, é enfrentar as dificuldades que historicamente afastam determinados grupos dos espaços de poder.
“Temos uma sociedade tão plural como é a brasileira, tão diversa. Nós devemos olhar todos esses aspectos”, afirmou.
A preocupação também se conecta ao debate sobre violência contra mulheres, tema do encontro do IDP. Na conversa com VEJA, Gilmar defendeu que o enfrentamento das agressões não pode depender apenas da criação de leis mais severas. A existência da Lei Maria da Penha e de estruturas especializadas, disse ele, não foi suficiente para impedir a continuidade da violência.
Para o ministro, a resposta exige também uma mudança cultural e uma Justiça capaz de compreender a realidade específica das vítimas. “Não basta ter um juizado aberto. É preciso que o juiz, a juíza responsável, entenda essa realidade e saiba de fato de que fenômeno ele está tratando”, afirmou.







