Ônibus perdem passageiros enquanto Tarifa Zero chega a 143 cidades do país
Número de viagens caiu 3,7% em 2025 e permanece distante do período anterior à pandemia
O transporte público por ônibus voltou a perder passageiros no Brasil em 2025, interrompendo a recuperação observada nos anos posteriores à pandemia. Segundo o Anuário da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos 2025-2026, o total de viagens realizadas registrou queda de 3,7% na comparação com 2024. Com o resultado, a demanda ficou limitada a 77,5% do patamar observado em 2019, último ano antes da pandemia.
O recuo foi ainda maior entre os chamados passageiros equivalentes, aqueles que efetivamente pagam pela passagem. As viagens desse grupo diminuíram 5,8% em 2025 e ficaram 26,8% abaixo do nível anterior à pandemia. A participação dos pagantes no total de usuários também despencou: passou de 72% em 2021 para 55,4% em 2025.
De acordo com a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), os dados indicam uma possível acomodação da demanda em um nível consideravelmente inferior ao registrado antes da Covid-19. O cenário limita a arrecadação tarifária e torna a operação dos sistemas cada vez mais dependente de subsídios e outras fontes de financiamento.
A entidade atribui parte da perda de passageiros à mudança no padrão de deslocamento dos brasileiros, com o avanço dos automóveis, das motocicletas e dos serviços oferecidos por aplicativos. Também são citadas as transformações no mercado de trabalho, os novos hábitos de consumo, os incentivos à motorização das famílias e a ausência de políticas que priorizem o transporte coletivo.
Tarifa Zero
Ao mesmo tempo que os ônibus perdem usuários, cresce no país o número de municípios que oferecem transporte gratuito. Uma pesquisa temática da NTU identificou 143 cidades com Tarifa Zero universal e irrestrita, 16 a mais do que no levantamento divulgado em maio de 2025.
O ritmo de expansão, contudo, perdeu força. Entre 2021 e 2023, 70 municípios aderiram à política. Em 2024, foram criados apenas oito programas, enquanto 2025 contabilizou 21 novas iniciativas. Entre as cidades com mais de 100.000 habitantes, somente Canoas (RS) e Itaboraí (RJ) implantaram a gratuidade no último ano, elevando de doze para catorze o número de municípios desse porte com passe livre.
A Tarifa Zero permanece concentrada em localidades menores: 90% dos municípios que adotam o modelo — o equivalente a 129 cidades — têm menos de 100.000 habitantes. Nessas localidades, as redes possuem menos linhas e veículos, o que reduz o custo da operação e facilita o financiamento integral por meio dos orçamentos municipais.
Mesmo assim, nem todas as experiências se sustentaram. O levantamento contabilizou oito cidades que implantaram a gratuidade, mas posteriormente retomaram a cobrança. Entre os exemplos mencionados estão Monte Mor e Paulínia, em São Paulo, e Porto Real, no Rio de Janeiro. As interrupções ocorreram após períodos relativamente curtos e atingiram municípios com populações entre 18.000 e 111.000 habitantes.
Custo do sistema de transporte coletivo por ônibus
O principal obstáculo é financeiro. O sistema de transporte coletivo por ônibus custa aproximadamente 76 bilhões de reais por ano, dos quais somente 20% são cobertos por subsídios públicos. Uma eventual universalização progressiva da Tarifa Zero, acompanhada de um aumento de pelo menos 20% na frota para atender à nova demanda, elevaria o custo anual para 90,7 bilhões de reais, segundo a NTU.
Para a entidade, a gratuidade precisa ser acompanhada por planejamento operacional, fontes permanentes de financiamento e participação conjunta da União, dos estados e dos municípios. Sem essa estrutura, o aumento da demanda pode resultar em superlotação, atrasos e deterioração da frota.







