PF achou mensagens que revelam luxo de evento de Vorcaro e poderosos em Londres
Material foi encaminhado por André Mendonça ao plenário do STF, que deve julgar se abre investigação contra Alexandre de Moraes
O relatório da Polícia Federal sobre as relações de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes mostra os bastidores da organização de eventos internacionais de luxo financiados pelo dono do Banco Master.
As mensagens obtidas pela PF por meio de perícia no aparelho celular de Vorcaro expõem uma intrincada rede de influência, intermediação política conduzida pelo ex-ministro Fábio Faria e a participação direta do ministro do Supremo no desenho e na curadoria do evento realizado em Londres em abril de 2024.
As conversas mostram que Faria atuou como a ponte principal entre o banqueiro e as autoridades. Faria não apenas compartilhou os contatos de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, como também participou ativamente do agendamento de reuniões na residência do magistrado e de jantares reservados.
Em abril de 2024, Faria encaminhou mensagens a Vorcaro sugerindo o convite ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues (identificado como Andrei Passos no relatório). “O que acha de eu convidar o DPF Andrei?”, sugeriu um terceiro a Faria, complementando: “Aí fechamos o PGR e o DPF”. A viagem luxuosa foi paga pelo Master.
Para garantir o conforto e a exclusividade do evento em Londres, batizado de “I Fórum Jurídico Brasil de Ideias” , a organização de Vorcaro planejou uma logística de transporte de altíssimo padrão para as autoridades brasileiras.
Segundo as mensagens da PF, os chamados ministros “mais sensíveis” do STF, citando nominalmente Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, deveriam contar com transporte individualizado de luxo: “E os ministros mais sensíveis tipo Alexandre, Tofolli, etc um casal por S-Class [Mercedes-Benz Classe S]…. são uns 4-5 ministros que terão S-Class por casal”.
Enquanto isso, os demais convidados e casais considerados “VIPs” seriam acomodados em vans modelo V-Class. O próprio Vorcaro definiu o encontro em mensagens com o interlocutor Luiz Rennó como um “evento super exclusivo com Alexandre de Moraes em Londres”.
O relatório da PF destaca que Alexandre de Moraes não foi apenas um convidado de honra, mas exerceu papel ativo na organização do fórum. De acordo com as mensagens, partiu de Moraes a indicação para incluir o ex-presidente Michel Temer na programação: “Alexandre sugeriu participação do Temer”, registrou Vorcaro.
Moraes também teria exercido poder de veto sobre quem poderia ou não participar do fórum exclusivo. Em conversas em 18 de abril de 2024, Fábio Faria e Vorcaro comentaram o veto imposto pelo ministro a um dos convidados. Faria mandou: “Mas eu acho que Alexandre gosta que ele saiba que ele vetou”, adicionando que se tratava de uma questão de “ego dele”. Vorcaro respondeu: “No final ele vetou mesmo, ficou claro”.
Além disso, o ministro teria influenciado o conteúdo jornalístico divulgado sobre o evento. Daniel Vorcaro enviou uma mensagem a um contato do veículo Brazil Journal, informando que havia um pedido direto de Alexandre de Moraes para que a matéria sobre o fórum destacasse que os ministros do STF haviam se reunido de forma privada com o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.
“Alexandre pediu se possível pra incluir que antes do evento ele se reuniu com os ministros do supremo… Toffoli, moraes e gilmar mendes… com o ex primeiro ministro [Tony Blair]”, escreveu o banqueiro.
Preocupado com a repercussão de ter o Banco Master associado diretamente à realização de um evento repleto de magistrados de tribunais superiores, Daniel Vorcaro orientou seu advogado de confiança a omitir a marca do banco. “Ok. Ideal nos convites não sair o Banco como realizador do evento, concorda?”, questionou Vorcaro. O advogado anuiu de imediato: “Sem dúvida”.
A relação de proximidade e o financiamento de viagens estenderam-se para o planejamento do II Fórum Jurídico de Londres, programado para 2025 (e posteriormente cancelado). Mensagens de março de 2025 revelam o advogado Ciro Soares informando a Vorcaro que o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet (referido como “PG”), confirmara ida ao evento e perguntara se seu filho, Pedro Gonet (“Pedrinho”), poderia acompanhá-los.
Vorcaro respondeu prontamente: “Óbvio né”. Posteriormente, ao aprovar a lista de despesas pagas com sua funcionária de marketing, Vorcaro confirmou que as viagens do filho do PGR e de Ciro Soares seriam integralmente custeadas pela organização: “Pedro e Ciro ok… Não dá pra bancar outros”.







