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Por que a guerra no Oriente Médio pressiona diesel, agro e inflação

Refém do diesel e dos fertilizantes importados, país volta a discutir como reduzir sua exposição a choques geopolíticos

Por Felipe Erlich Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 29 Maio 2026, 06h00
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Quando bombas caem sobre refinarias no Oriente Médio, o efeito atravessa continentes e chega às estradas brasileiras. O diesel que move caminhões, ônibus e máquinas agrícolas é especialmente vulnerável a crises externas, já que cerca de um quarto do consumo nacional depende de importações. O preço do combustível nos postos subiu mais de 15% entre o fim de fevereiro — quando a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã ganhou intensidade — e meados de maio, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A turbulência recolocou em pauta um debate antigo: como proteger o país de choques internacionais. A ampliação do refino, a formação de reservas estratégicas e o avanço dos biocombustíveis aparecem entre os caminhos possíveis, mas todos estão cercados de desafios.

Embora o Brasil tenha alcançado a autossuficiência em petróleo há duas décadas, o mesmo não ocorreu com os derivados. A produção nacional de diesel avançou pouco nos últimos anos, saindo de 260 milhões de barris em 2010 para cerca de 300 milhões atualmente, insuficientes para acompanhar a demanda interna. O gargalo está na dificuldade de viabilizar investimentos bilionários e de longo prazo em um segmento marcado por margens apertadas e forte instabilidade. No governo do presidente Lula, a Petrobras retomou a agenda nacionalista voltada à expansão do refino doméstico. “Nos comprometemos a ser autossuficientes em diesel até 2030”, afirmou a presidente da companhia, Magda Chambriard, ao anunciar, em maio, um investimento de 6 bilhões de reais na Refinaria de Paulínia (Replan), a maior do país.

A estratégia da Petrobras, porém, é alvo de críticas. A promessa de autossuficiência em diesel até 2030 é recebida com ceticismo por parte dos especialistas, que questionam a lógica econômica da expansão do refino. “Me surpreende uma presidente de empresa dizer isso”, afirma Marcus D’Elia, sócio da Leggio Consultoria, ao comentar a declaração de Magda Chambriard. Para ele, o debate exige maior atenção aos interesses dos investidores privados que também participam da companhia. “Refinarias são ativos que não vão ser bem remunerados e o custo desse investimento recai sobre os acionistas”, diz. A Petrobras sustenta posição diferente e afirma que a ampliação da capacidade de refino segue critérios técnicos. “Nosso direcionador financeiro é conciliar geração de caixa operacional com o fluxo de investimentos, preservando a política de dividendos e o adequado nível de endividamento”, informou a empresa em nota enviada a VEJA NEGÓCIOS.

Pulverizador agrícola: o agro sofre com a dependência de fertilizantes importados
Pulverizador agrícola: o agro sofre com a dependência de fertilizantes importados (Dirceu Portugal/Fotoarena/.)
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A política de preços da Petrobras está no centro do debate. Críticos afirmam que a prática de conter reajustes dos combustíveis dificulta a expansão do refino privado no país, ao reduzir a previsibilidade e tornar ainda mais desafiadora a competição em um setor de margens estreitas. “A Petrobras já expulsou vários operadores de refinarias privadas”, afirma Pedro Rodrigues, sócio da consultoria Centro Brasileiro de Infraestrutura. Diante desse cenário, surgem propostas para reforçar a segurança energética nacional. D’Elia, da Leggio Consultoria, defende a ideia de que o governo federal forme uma reserva estratégica de diesel capaz de amortecer choques de oferta e suavizar oscilações em períodos de crise. “Hoje, é como se tivéssemos câmbio flutuante sem reservas de dólar”, afirma D’Elia. De acordo com ele, estoques preventivos são comuns entre países importadores, mas a iniciativa foi historicamente negligenciada no Brasil.

Os biocombustíveis aparecem como outra frente capaz de reduzir a exposição brasileira às turbulências geopolíticas. De fato, o momento é favorável à expansão desses produtos. “Vivemos o melhor período para aumentar a mistura do biodiesel no combustível convencional”, diz Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Potencial, grupo paranaense especializado em biocombustíveis. O principal obstáculo, segundo ele, é a falta de previsibilidade regulatória. Hammerschmidt cita a Lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024, cujo cronograma vem sofrendo atrasos. Embora a legislação previsse elevar a mistura obrigatória de biodiesel no diesel para 16% neste ano — dentro de um calendário que prevê alcançar 20% em 2030 —, o governo decidiu mantê-la em 15%, sob o argumento de que ainda são necessários estudos adicionais.

Magda Chambriard: a presidente da Petrobras prometeu expandir o refino
Magda Chambriard: a presidente da Petrobras prometeu expandir o refino (Michael Nagle/Bloomberg/Getty Images)
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A expansão do biodiesel também abriria uma nova avenida de crescimento para o agronegócio, ao ampliar os destinos da produção agrícola e aproximar o campo da segurança energética nacional. “Os produtores rurais podem ajudar a formar o estoque de energia brasileiro”, afirma Hammerschmidt. Há, porém, uma dependência difícil de contornar. Para manter bons índices de produtividade, a agricultura depende fortemente de fertilizantes, um dos itens mais pressionados pelas tensões geopolíticas. Pelo menos 85% do volume consumido no Brasil vem do exterior, segundo estimativa do centro de estudos Insper Agro Global. Em 2025, as importações atingiram o recorde de 45 milhões de toneladas, evidenciando outra vulnerabilidade do país.

Assim como no refino de diesel, a produção de fertilizantes exige investimentos elevados e retorno de longo prazo — uma equação que, durante décadas, afastou investidores. Em meio à crescente instabilidade geopolítica, a Petrobras retomou a produção de fertilizantes nitrogenados na Bahia e em Sergipe e avança na reativação de unidades no Paraná e em Mato Grosso do Sul. Ainda assim, reduzir de forma significativa a dependência externa está fora do horizonte imediato. “Qualquer decisão que o país tome agora será para o futuro”, afirma Maciel Silva, diretor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. “Estamos cinquenta anos atrasados.” O atraso ajuda a explicar o desequilíbrio atual. “A agricultura brasileira cresceu muito mais rápido que a produção de fertilizantes”, diz Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global.

Refinaria de Paulínia: a pedido de Lula, 6 bilhões de reais serão investidos no complexo
Refinaria de Paulínia: a pedido de Lula, 6 bilhões de reais serão investidos no complexo (Marcos Peron/Agência Petrobras/.)
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Em meio à escalada da tensão no Oriente Médio, origem de cerca de 40% dos fertilizantes à base de ureia e fosfato importados pelo Brasil, novas soluções surgem no radar. Entre elas estão os biofertilizantes, produzidos a partir de matéria orgânica e vistos como uma forma de reduzir a dependência externa. O Grupo Roncador, sediado em Mato Grosso, afirma ser “quase autossuficiente” nessa frente, ao fabricar boa parte do adubo que consome. “Isso é especialmente relevante em um ano difícil como esse”, diz Pelerson Penido, controlador do negócio. Ao contrário do petróleo, cuja demanda convive com as incertezas da transição energética, o agronegócio segue em expansão e dependerá cada vez mais de insumos seguros e previsíveis. A geopolítica pode influenciar o campo brasileiro, mas não deveria determinar seus limites.

Publicado em VEJA, maio de 2026, edição VEJA Negócios nº 26

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