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Prisão de Deolane Bezerra expõe teia de atividades suspeitas e elos com o PCC

Caso reforça as desconfianças sobre celebridades que atraem milhões nas redes

Por Isabella Alonso Panho Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 29 Maio 2026, 06h00 | Atualizado em 29 Maio 2026, 19h02
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Ao menos desde o final de 2023, influenciadores digitais, que atraem milhões de seguidores nas redes sociais mostrando um cotidiano de luxo e possibilidades de ganhos fáceis, entraram na mira das autoridades. Em muitos casos, acumulam-se os indícios de que, por trás de carros importados, bolsas Chanel, viagens internacionais, joias e relógios de muitas cifras, as novas celebridades escondam uma vida de crimes. Há poucos dias, as desconfianças sobre esse fenômeno dos novos tempos mudaram de patamar com a prisão da influencer e advogada Deolane Bezerra, que tem mais de 21 milhões de fãs apenas no Instagram. Segundo a polícia e o Ministério Público, porém, ela pode ter mais do que isso: a investigação encontrou diversas empresas ligadas a Deolane, uso de laranjas, inúmeras transações bancárias milionárias suspeitas e provas que mostram uma proximidade com o alto escalão da facção criminosa PCC, a maior do Brasil.

O fio da meada não começou a ser puxado agora. A investigação que desembocou na Operação Vérnix teve início em 2019, quando carcereiros encontraram uma carta, rasgada em vários pedaços, no esgoto da cela que Sharlon Praxedes da Silva, o “Maradona”, dividia com Gilmar Pinheiro Feitoza, o “Cigano”, ambos do PCC, dentro da Penitenciária II Maurício Henrique Guimarães Pereira, em Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. O documento, reconstituído, menciona a compra de fuzis, cobra o assassinato de agentes públicos e cita uma mulher de uma transportadora que ficava a 300 metros do presídio, chamada Lado a Lado Transportes.

A empresa, segundo a apuração, tinha como sócios ocultos Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo da facção, e seu irmão, Alejandro, ambos presos, e era usada para lavar dinheiro. Enquanto a dona formal do CNPJ era uma beneficiária do Bolsa Família, o negócio movimentou mais de 20 milhões de reais entre 2015 e 2019. Foi por meio da quebra de sigilo bancário dos envolvidos com o estabelecimento que a polícia chegou pela primeira vez até Deolane.

Segundo a polícia, ela era parte importante de um esquema que envolvia a abertura de sucessivas empresas, que faziam repasses de uma para outra, de forma a dificultar as investigações sobre a origem e destino desse dinheiro. Deolane teria aberto mais de trinta empresas dentro dessa operação, mas o número pode ser maior. Vários desses estabelecimentos estão em nome de laranjas e têm como sede casas populares, no interior do estado, em nome de terceiros. Só em uma residência popular na cidade de Martinópolis (24 000 habitantes) havia 32 firmas registradas. Empresas em nome de Deolane receberam milhões de reais sob suspeita, por meio de fintechs e intermediadoras de pagamento. A principal delas é a Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda. Dos mais de 12 milhões de reais movimentados durante o andamento do inquérito, 3,9 milhões não têm origem clara. Em um dos casos, a firma recebeu, em quatro depósitos, 636 418 reais da Marcos Cred, um CNPJ cujo único sócio é um rapaz que trabalha em uma papelaria e recebe um salário mínimo. Deolane tinha relações pessoais próximas e fez várias transações financeiras com Francisca Alves da Silva, cunhada de Marcola, presa pela operação. Um contador ligado à família Camacho teria sido o responsável por abrir empresas em nome de Deolane. A influencer também possuía conexão com Everton de Souza, conhecido como “Player”, apontado como operador financeiro do PCC.

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LUXO - Veículos apreendidos em operação: só um modelo vale 2 milhões de reais
LUXO - Veículos apreendidos em operação: só um modelo vale 2 milhões de reais (Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo/.)

Além das movimentações financeiras, a vida de Deolane carregava vários outros indícios de que a sua fortuna não tinha origem legal. Um dos pontos destacados pela polícia é o intenso fluxo de carros de luxo na garagem da influenciadora. Apesar de serem ostentados nas redes como conquistas profissionais, muitos nem estavam no nome dela. Na operação, a polícia apreendeu quatro veículos cujo valor de mercado somava 5 milhões de reais. Um deles, o Cadillac Escalade, avaliado em 2 milhões de reais, nem sequer é comercializado no Brasil.

A investigação também mostrou outros indícios de proximidade da influenciadora com o crime. Em um dos episódios, Deolane foi acionada na Justiça por uma ex-empregada doméstica, Denise Bastos, que havia sido acusada de roubar 80 000 reais em dinheiro vivo do apartamento de Kayky, um dos filhos da influenciadora, no Tatuapé, Zona Leste paulistana. “Devolve o dinheiro do meu filho e segue sua vida, porque, se não, você me aguarde”, diz Deolane em uma das mensagens de voz que constam da ação judicial. Em outro áudio, um homem identificado como “Jhon” indica de quem seria o montante. “Nós lavamos o dinheiro com os parceiros lá, a mãe do parceiro, o parceiro fecha com nós”, disse. A VEJA, Denise confirmou que foi procurada em casa por homens que se apresentaram como membros do crime organizado. Eles vasculharam seus pertences e seu celular em busca do dinheiro que, segundo eles, “era do crime”.

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OSTENTAÇÃO - Buzeira: suspeito de conexões com o tráfico internacional
OSTENTAÇÃO - Buzeira: suspeito de conexões com o tráfico internacional (@buzeira_oficial/Instagram)

Não foi a primeira vez que Deolane entrou na mira da polícia. No final de 2024, ela ficou presa por duas semanas pela Operação Integration, da Polícia Civil de Pernambuco e do MP, que mirava esquemas de lavagem de dinheiro e promoção de bets ilegais. Por questões de foro, a apuração acabou anulada pela Justiça, transferida para a Polícia Federal e segue em andamento. No cárcere agora, Deolane escreveu uma carta na qual nega as acusações, diz que não tem várias empresas, afirma que recebeu apenas dinheiro de honorários e alega que sofre perseguição das autoridades. “Não sou e nunca fui bandida! Sou mãe, sou empresária, sou advogada”, disse. Na última quinta-feira, 28, a polícia do Senado registrou um boletim de ocorrência por causa de um suposto plano de Deolane para matar Flávio Bolsonaro, revelado por um funkeiro durante um podcast.

A queda de Deolane é a mais significativa em um movimento que só aumenta nos últimos tempos. Em abril deste ano, a Operação Narco Fluxo, da PF, prendeu Marlon Brendon Coelho Couto da Silva, o MC Poze do Rodo, e Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP, dois fenômenos nas redes, ambos suspeitos de lavar dinheiro para o PCC por meio de contratos de shows e de publicidade (as “publis”). Os dois foram soltos no dia 14 de maio, mediante várias restrições, mas continuam sendo investigados. A mesma operação prendeu o dono da página Choquei, Raphael Sousa Oliveira, que já deixou o cárcere, mas segue investigado. Quem continua na cadeia desde outubro de 2025 é Bruno Alexssander Souza Silva, o Buzeira, influenciador suspeito de lavar dinheiro para o tráfico internacional de drogas por meio de casas de apostas ilegais e rifas não regulamentadas. Mauricio Martins Junior, o Maumau ZK, foi alvo de outra operação, suspeito de lavar dinheiro em um esquema similar, mas acabou preso por causa de uma arma de fogo com numeração raspada encontrada nas buscas. Foi liberado na audiência de custódia, mas, antes de sair, fez o que sabe: gravou a si mesmo no cárcere e postou nas redes sociais (veja o quadro).

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FLAGRANTE - Maumau: preso por causa de uma arma com numeração raspada
FLAGRANTE - Maumau: preso por causa de uma arma com numeração raspada (./Reprodução)

Ser um influenciador digital no Brasil é uma profissão lucrativa, que quase não tem regras e está em franca expansão. Não à toa, somos o país com mais gente nessa atividade no mundo, segundo levantamento feito no fim de 2025 pela Reglab Consultoria. São 3,8 milhões de usuários que se identificam como criadores de conteúdo — os brasileiros representam 16% dos influencers do planeta. Essa mesma pesquisa mapeou que há 88 projetos de lei fixando regras e limites para a atividade que estão parados no Congresso. Além disso, a regulamentação das redes sociais é um dos temas mais espinhosos do atual governo. Apesar das promessas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o passo mais firme dado nesse sentido veio do julgamento de trechos do Marco Civil da Internet no Supremo Tribunal Federal no ano passado, que impôs mais obrigações às plataformas — a sua efetividade ainda depende de serem superadas dezenas de recursos das big techs.

PARCERIA - Ryan SP e Poze do Rodo: operação mira uso de shows e “publis”
PARCERIA - Ryan SP e Poze do Rodo: operação mira uso de shows e “publis” (@imcryansp/Instagram)
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A “terra sem lei” facilita a lavagem de dinheiro, pedra fundamental na engenharia das facções. “O crime organizado busca zonas cinzas, de opacidade regulatória, para maximizar lucros sem ser pego. É muito difícil mensurar quanto vale um contrato de publicidade de um influenciador”, afirma o promotor de Justiça Carlos Gaya, do Gaeco de São Paulo. Na lei, não há limites sobre o que pode ser divulgado ou quanto vale uma “publi” e que tipo de produto pode ser divulgado. “O crime de lavagem de dinheiro só migrou de território. Está saindo dos postos de gasolina, dos comércios, das transportadoras para o meio digital”, analisa Roberta Fernandes, pesquisadora do CRISP/UFMG e associada do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. As poucas regras que funcionam no meio digital, como a obrigação de sinalizar conteúdos de publicidade e materiais feitos com inteligência artificial, não são suficientes para conter problemas sérios na internet. Os criminosos começaram a curtir a fama dos influencers, fechando parcerias que representam o mais novo desafio nesse campo para a polícia e para a Justiça.

Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997

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Estádio de futebol lotado com bandeira do Brasil e bola no campo, e um jogador de camisa amarela comemorando. À direita, capas de revistas Veja, Super, Viagem e Quatro Rodas flutuando sobre fundo verde escuroTorcedor de costas, vestindo camisa amarela, comemora com os braços erguidos em um estádio de futebol lotado, sob um céu verde-azulado. Uma bola de futebol com a bandeira do Brasil está no campo. À direita, um fundo verde escuro com um pequeno ícone de árvore branca no canto inferior direito
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